Delmar Bertuol
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Direita 31/Mar/2016 às 08:00
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Filiação ao CBDP

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Delmar Bertuol*, Pragmatismo Político

É que estou em crise existencial. Minha mãe sempre dizia pra eu estudar, trabalhar e ser alguém na vida. Só que eu já tô com idade. Já trabalhei e trabalho muito. Estudei e estudo muito. E até hoje não fico à vontade de afirmar que sou alguém na vida.

Eu não sei bem o que é ser alguém na vida, confesso. Mas sempre ouvi falar muito bem dum grupo que se autointitula Cidadãos de Bem Deste País. Eles costumam dar carteirada social a cada vez que pleiteiam algo. Afirmam que são um Cidadão de Bem Deste País, portanto têm direito a isso e aquilo e aquilo outro.

Calculei que talvez seja isso que minha mãe almeja pro meu futuro. Coruja como só, me apresentará às amigas dizendo este é meu filho, e, num sussurro vaidoso, completará: ele faz parte do grupo de Cidadãos de Bem Deste País. Já posso, soberbo, imaginar minhas investidas. Ao requerer algo, vou arrematar triunfante que veja bem, meu senhor, eu sou um Cidadão de Bem Deste País. E as possibilidades se abrirão pra mim.

Depois de muito pesquisar, encontrei no sítio da Revista Olha que a seccional do grupo de Cidadãos de Bem Deste País (CBDP) da minha cidade está admitindo novos membros. É minha chance. Devo isso a minha mãe e todo o seu esforço e conseguinte desejo de que eu me torne alguém. E um membro do CBDP, estou convencido, é, definitivamente, alguém importante.

Cheguei lá com antecedência. Por sorte, o ônibus não atrasou naquele dia. Mau começo. Todos os demais postulantes ao grupo foram de carro. O porteiro, ao me avistar entrando a pé, disse que o grupo dispunha de um estacionamento seguro de flanelinhas. Não queria eu guardar meu carro?

Os membros serão selecionados segundo critérios técnicos de análise de suas posições sobre os mais variados assuntos, em debates, em seminários e em mesas redondas. Segundo suas ideologias, eu perguntei. O avaliador marcou um sinal negativo na minha ficha, pude perceber. Avisou que ali ninguém tinha ideologia.

O primeiro seminário era sobre o vergonhoso preço do combustível. O palestrante, um senhor de quarenta anos mal disfarçados por roupas de um rapaz de vinte, contou do quanto a mais estava gastando pra encher o tanque de sua camionete SUV. Eu queria participar. Tinha que ser aceito. E estava com um sinal negativo na minha avaliação. Precisava dar uma opinião minimamente interessante pra balancear a nota. Sugeri que essa alta dos combustíveis estava provavelmente influenciando no preço das passagens. Vocês viram o absurdo do preço pra se andar de ônibus nesta cidade? Mas ninguém sabia o preço da passagem do transporte coletivo. Nem o palestrante.

O passo seguinte seria a avaliação de nossos votos. Eu já estava pronto pra mentir. Não sei por que, mas achei que os membros do CBDP não gostam do PT. E eu votei no PT. Um dos membros percebeu meu nervosismo e me chamou prum cá entre nós. Ele avisou que dava pra ver que eu quero muito entrar no grupo, por isso me ajudaria. À vontade, confessei que votei no PT, ao que ele me tranquilizou. Tudo bem, disse. Muitos dizem que votaram no Lula e na Dilma. E muitos do que afirmam isso mentem, inclusive. Mas eu deveria dizer que havia votado no PT, mas estava muito desiludido. Que se sentira enganado. Que o PT pregava historicamente uma coisa e fazia outra. E blablablá. Enfim, me aconselhou a dizer com entusiasmo que votara no PT, mas, com intensidade dobrada, criticar o caráter traidor do partido.

E foi o que fiz. Mas, quando eu estava quase batendo o recorde de pontos positivos, tão empolgado estava, fui inventar de dizer que o PT se igualara aos demais partidos, sendo comparável à compra pelo PSDB da emenda da reeleição do FHC. Erro estratégico. O avaliador apagou muitos dos meus sinais positivos.

Antes do almoço, os avaliadores iriam verificar os automóveis dos candidatos. Pensei que iriam ver as marcas e valores. Mas não. É que os carros deveriam ter um adesivo de Chega de Tanto Imposto!, de Não Vou Pagar a Conta! ou algo que os valesse. Adesivos de A Culpa Não é Minha, Pois Votei no Aécio valiam meio ponto. É que ouviram qualquer coisa de que o Aécio foi citado por alguém num caso de corrupção. Coisa pouca, diziam. Não sabiam explicar bem o quê. Então, como prova de que aquela associação é contra toda e qualquer corrupção, adesivos de votos no Aécio valiam apenas meio ponto. E não adiantava reclamar.

Eu não podia perder mais pontos. Pensava na minha mãe, poxa. Menti que havia ido de ônibus porque meu carro tava na oficina. Caí num buraco na cidade e quebrou o eixo. Ou melhor, foi numa BR, que daí a culpa é do PT que não faz a manutenção nas estradas federais. Pelo comentário, o avaliador me deu meio ponto aeciano. Mas que, na próxima vez, se eu passasse pra outra etapa, viesse com o carro devidamente adesivado com o Chega de Tanto Imposto!

Após o almoço, era o momento de explanar sobre filantropia. Explicaram que um Cidadão de Bem Deste País deve praticar a solidariedade. Fazer desde contribuições a entidades até doar suas roupas usadas pro filho da empregada. Achei bem legal esse altruísmo. Novamente pensei no orgulho que minha mãe sentiria. Só não entendi porque o CBDP é contra o Bolsa Família.

Participei duma mesa redonda sobre ideologias. Digo, sobre Política. Lá fiquei sabendo que esquerda e direita não existem mais. E que devemos nos unir e acabar com a esquerda do Brasil. Um colega gritou lá de trás que este Governo, em que as empreiteiras privadas roubaram aos milhões e os banqueiros enriqueceram, quer nos levar ao Comunismo. Outro, ainda mais empolgado, disse que pra salvar nossa democracia só mesmo a volta da ditadura. O que falou isso quase foi aprovado de pronto. Até o mediador o aplaudiu.

O próximo seminário foi sobre Educação, pilar de uma sociedade moderna, progressista e com moral, conforme dizia o título da palestra, que seria ministrado por um jornalista. Ao que parece, professores não são muito bons pra falarem sobre Educação. O palestrante mostrou-se preocupado com uma suposta doutrinação ideológica nas escolas. Por isso, sugeriu que fossem extintas as disciplinas de Sociologia, Filosofia e História. Ainda mais que todas as informações sobre os fatos históricos e sobre os pensadores estão disponíveis no Google. E que voltasse, pelo amor de Deus, as disciplinas de Moral e Cívica e Técnicas Industriais pros meninos e Técnicas Domésticas pras meninas. Sugeriu o canto do hino nacional semanalmente e uma reza antes de iniciar as aulas.

Sobre disciplinas, um candidato sugeriu, também, que se tomasse cuidado com Biologia. Segundo ele, o professor de sua filha havia criticado fortemente uma empresa que, pra se instalar, desmatou míseros quinze hectares de mata nativa. O professor ignorou o aumento de arrecadação que a empresa traria ao Município e as dezenas de empregos geradas. A Prefeitura queria tanto que a empresa viesse, sabedora que era de seu potencial, que até lhe deu umas isenções tributárias.

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O próximo debate era intitulado “Alerta colorido: o perigo da iminência de uma ditadura gay”. Estava preocupado. Na avaliação anterior eu não havia pontuado. Eu tinha que protagonizar uma boa frase. Mal o palestrante (um pastor de não sei qual igreja) deu boa tarde, eu gritei, peito estufado, abaixo os homossexuais! Alguns concordaram, mas o orador disse te acalma, meu irmão. Não somos contra os homossexuais. Não cabe a nós julgarmos. É uma opção deles viverem em pecado, e devemos respeitá-los. O que devemos combater, ele disse, é justamente o que diz o título da palestra, isso é, que queiram impor seus modos aos demais. Que não se beijem em público; que não haja beijo guei na novela (se os Cidadãos de Bem Deste País vissem que aportuguesei o termo guei, eles iriam me reprovar. Os CBDP adoram estrangeirismos. Acham moderno, embora debochem que os pobres colocam nomes ingleses nos seus filhos); e nem muito menos que suas uniões sejam reconhecidas civilmente. Apenas isso. No mais, merecem nosso respeito, disse paternalmente o palestrante. E que acertem suas contas com Deus, por burlarem as leis da natureza.

Incrivelmente, passei pra próxima fase. Vou ler bastante a Revista Olha, pra treinar e voltar lá semana que vem. De carro.

Alguém sabe onde eu consigo um adesivo de Chega de Tanto Impostos?

*Delmar Bertuol é escritor, professor de história, membro da Academia Montenegrina de Letras e colaborou para Pragmatismo Político

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