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Guerra injustificável 23/Nov/2015 às 11:28
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Leonardo Boff: O Ocidente escolheu o pior caminho

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Leonardo Boff*

Seguramente são abomináveis e de todo rejeitáveis os atentados terroristas perpetrados no último dia 13 de novembro em Paris por grupos terroristas de extração islâmica. Tais fatos nefastos não caem do céu. Possuem uma pré-história de raiva, humilhação e desejo de vingança.

Estudos acadêmicos feitos nos USA evidenciaram que as persistentes intervenções militares do Ocidente com sua geopolítica para a região e a fim de garantir o suprimento do sangue do sistema mundial que é o petróleo, rico no Oriente Médio, acrescido ainda pelo fato do apoio irrestrito dado pelos USA ao Estado de Israel com sua notória violência brutal contra os palestinos, constituem a principal motivação do terrorismo islâmico contra o Ocidente e contra os USA (veja a vasta literatura assinalada por Robert Barrowes: Terrorism: Ultimate Weapon of the Global Elite em seu site: War is a Crime.org).

A resposta que o Ocidente tem dado, a começar com George W. Bush, agora retomado vigorosamente por François Hollande e aliados europeus mais a Rússia e os EUA é o caminho da guerra implacável contra o terrorismo seja interno na Europa seja externo contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Mas esse é o pior dos caminhos, como criticou Edgar Morin, pois guerras não se combatem com outras guerras nem o fundamentalismo com outro fundamentalismo (o da cultura ocidental que se presume a melhor do mundo e com o direito de ser imposta a todos).

A resposta da guerra que, provavelmente, será interminável pela dificuldade de derrotar o fundamentalismo ou grupos que decidem fazer de seus próprios corpos bombas de alta destruição, insere-se ainda no velho paradigma pré-globalização, paradigma enclausurado nos estados-nações, sem se dar conta de que a história mudou e tornou coletivo o destino da espécie humana e da vida sobre o planeta Terra. O caminho da guerra nunca trouxe paz, no máximo alguma pacificação, deixando um lastro macabro de raiva e de vontade de vindita por parte dos derrotados que nunca, na verdade, serão totalmente vencidos.

O paradigma velho respondia guerra com guerra. O novo, da fase planetária da Terra e da Humanidade, responde com o paradigma da compreensão, da hospitalidade de todos com todos, do diálogo sem barreiras, das trocas sem fronteiras, do ganha-ganha e das alianças entre todos. Caso contrário, ao generalizar as guerras cada vez mais destrutivas, poderemos pôr fim a nossa espécie ou tornar a Casa Comum inabitável.

Quem nos garante que os terroristas atuais não se apropriem de tecnologias sofisticadas e comecem a usar armas químicas e biológicas que, por exemplo, colocadas nos reservatórios de água de uma grande cidade, acabe produzindo um dizimação sem precedentes de vidas humanas? Sabemos que estão se habilitando para montar ataques cibernéticos e telemáticos que podem afetar todo o serviço de energia de uma grande cidade, dos hospitais, das escolas, dos aeroportos e dos serviços públicos. A opção pela guerra pode levar a estes extremos, todos possíveis.

Devemos tomar a sério o que sábios nos alertaram como Eric Hobsbawm ao concluir seu conhecido A era dos extremos: o breve século XX (1995:562):”O mundo corre o risco de explosão e implosão; tem que mudar…a alternativa para a mudança é a escuridão”. Ou então do eminente historiador Arnold Toynbee, depois de escrever dez tomos sobre as grandes civilizações históricas, nos vem esta advertência em seu ensaio autobiográfico Experiências (1969:422):” Vivi para ver o fim da história humana tornar-se uma possibilidade intra-histórica, capaz de ser traduzida em fato não por um ato de Deus mas do próprio homem”.

Leia aqui todos os textos de Leonardo Boff

O Ocidente optou pela guerra sem trégua. Mas nunca mais terá paz e viverá cheio de medo e refém de possíveis atentados que são a vingança dos islâmicos. Oxalá não se realize o cenário descrito por Jacques Attali em seu Uma breve história do futuro (2008): guerras regionais cada vez mais destrutivas a ponto de ameaçarem a espécie humana. Aí a humanidade, para sobreviver, pensará numa governança global com uma hiperdemocracia planetária.

O que se impõe, assim nos parece, é o reconhecimento da existência de fato de um Estado Islâmico e em seguida formular uma coligação pluralista de nações e de meios diplomáticos e de paz para criar as condições de um diálogo para pensar o destino comum da Terra e da Humanidade.

Receio que a arrogância típica do Ocidente, com sua visão imperial e ao se julgar em tudo melhor, não acolha esse percurso pacificador mas prefira a guerra. Então torna a ganhar significado a sentença profética de M. Heidegger, conhecida depois de sua morte:” Nur noch ein Gott kann uns retten: então somente um Deus nos poderá salvar”.

Não devemos ingenuamente esperar a intervenção divina, pois o nosso destino está entregue à nossa responsabilidade. Seremos o que decidirmos: uma espécie que preferiu se auto-exterminar a renunciar à sua vontade absurda de poder sobre todos e sobre tudo ou então forjarmos as bases para uma paz perpétua (Kant) que nos conceda viver diferentes e unidos, na mesma Casa Comum.

*Leonardo Boff é filósofo, ecologista e escritor

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Comentários

  1. Antonio Palhares Postado em 23/Nov/2015 às 12:16

    Eu concordo em numero,genero e grau com a opção da Russia em defender o presidente Assad e manter a unidade territorial da Síria. Todos terroristas criados e mantidos pelo ocidente além dos pulhas assassinos cortadores de cabeças do EI devem ser exterminados.Quem dever decidir sobre o futuro da Síria é o seu povo. E hoje este povo sabe muito bem quem é amigo e inimigo. Gode save the Putin.

    • Antonio Palhares Postado em 24/Nov/2015 às 10:34

      Reiteiradas vezes ja disse que o Pereira é a pérola da imbecilidade. Sei cretino, o Iaraque estava melhorr com Sadam Hussien do que esta agora.Ou é mentira? A Libia tambem. Depois da carnificina e assassinatos em massa, os seus idolos americanos e comparsas europeus.Simplesmente vão embora depois de terem garantido o roubo do petroleo deixando um verdadeiro caos. Criaram grupos terroristas para derrubar o presidente Sírio.Vida longa aos russos.

  2. EDUARDO Postado em 23/Nov/2015 às 14:57

    Paralelamente vemos a Colômbia, claro, com as correções geopolíticas e temporais corrigidas, acertadamente fazer um acordo histórico para celebras a paz entre Governo e As Farc. A Colômbia vem dando o exemplo de que esse dicho de: "guerra se combate com guerra" não cabe mais na contemporaneidade. O diálogo é a solução. Pena o Brasil ter tantos fascistas dispostos ao ataque.

    • Joel Postado em 23/Nov/2015 às 17:45

      As Farcs só se propuseram a dialogar a partir do momento em que se viram cercadas por todos os lados, com suas forças reduzidas e minadas pelas tropas governistas... não fosse por isso, não negociariam...

      • Wellington Postado em 24/Nov/2015 às 15:10

        Com certeza e dialogo diplomático entre beligerantes não é uma equalização de relações entre forças opostas e ou diferentes sempre alguém ganha a causa do debate diplomático.Nesse caso o governo colombiano ganhou a causa,ou seja,colherará os melhores frutos desse acordo.A liderança do exército marxista ou comunista das Farcs não teve outra opção se não a paz temporária.

  3. Trajano Postado em 23/Nov/2015 às 16:40

    Uma contribuição importante de Leonardo Boff aos debates sobre os acontecimentos estarrecedores atuais. Sim, acredito que é hora de repensarmos nosso lugar no mundo não somente a partir de questões de amplas e complexas esferas, como geopolítica, top-down, mas por estruturas menores, bottom-up, em que dificuldades locais comuns entre as nações devem ser observadas com mais cuidado e nortear as estratégias emergenciais que assegurem a sustentabilidade da nossa espécie. Bottom-up ainda que pressuponha hiperdemocracia, não o é, não retira a força dos governos, nações e alianças internacionais, mas se direciona aos discursos democráticos da base em conjunto com as necessidades fundamentais de sobrevivência e conservação dos recursos naturais e culturais para, então, se articular com níveis sociopolíticos e econômicos superiores. Concordo também com Antônio Palhares: o que fazer com os carniceiros do EL que de vítimas eles nada têm? Infelizmente o diálogo é impossível e ainda que a origem deles possa se correlacionar com as ações de guerra do Ocidente e sua necessidade de manter o elemento-chave que o sustenta, o petróleo, o caldo já derramou, já é tarde para conversa com os adoradores da morte e assassinato. Devemos contribuir pelo fim desse grupo, ao passo que devemos contribuir para a consolidação territorial, geopolítica e democrática dos países por uma questão de sobrevivência: tentamos “ocidentalizar” o oriente, mas é o inverso que está acontecendo da pior maneira possível. Por fim, o Nur noch ein Gott kann uns retten: se pudermos incluir o petróleo como um deus, somente a sua substituição futura servirá para solucionar os problemas – e criar novos. Mas aí a era Moderna terá acabado. Este deus está muito longe do nosso presente e, por enquanto, não é ele quem irá nos salvar.

  4. Orlando Pinheiro Postado em 23/Nov/2015 às 23:05

    Qual é a face do EI? Quem é o grupo? Travar uma guerra contra o terrorismo é o mesmo que pular no fogo para tentar apaga-lo. Não nos iludamos. Os grupos terroristas já se fazem presentes nos EUA, na Europa, e mesmo aqui, no nosso quintal, senhores. 1ª e 2ª grandes guerras - inimigo conhecido, armas convencionais; 3ª grande guerra - inimigo incógnito, armas inesperadas. Valerá tudo.

  5. Alberto Ferreira Postado em 24/Nov/2015 às 03:49

    Belo texto. Contudo a opção bélica não é só uma questão de escolha por simplesmente acreditar nessa opção. Os inconfessáveis mas sempre vistos interesses dessa indústria interfere bem mais do a maioria de nós supõe.

  6. Denisbaldo Postado em 24/Nov/2015 às 10:57

    É a crise! Culpa do PT.

  7. Renato Postado em 23/Mar/2016 às 09:24

    No auge do seu império, o Saddam tinha dinheiro e armas americanas e soviéticas. As duas potências estavam interessadas no Irã e usaram o terrível Saddam pra isso. As duas potências juntas falharam contra o Irã dos aiatolás, que lutou bravamente pelas suas conquistas. E o paspalho do Saddam ficou isolado e desesperado, se agarrou ao poder e destruiu a esperança do povo iraquiano. Poucos iraquianos fizeram alguma coisa contra os invasores americanos, pois não davam mais a mínima pro país.