Redação Pragmatismo
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Xenofobia 11/Sep/2015 às 15:42
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Pessoas más não são bons jornalistas

No espaço de uma semana, tivemos dois exemplos opostos na cobertura da mesma crise migratória. Uma e outra mostram que é impossível fazer bom jornalismo sem motivações éticas. Neste contexto, é imprescindível rememorar Ryszard Kapuscinski: “Se querem seguir a carreira, vocês não podem ignorar os pobres: representam 80% da população do planeta. As mais desafortunadas são as crianças”

petra laszlo jornalismo
(Charge: Hasan Abadi)

Vandeck Santiago, Diário de Pernambuco

O repórter que testemunhou 27 golpes e revoluções, que cobriu guerras, epidemias e crises de fome na África e América do Sul, que viu o despertar do islamismo e a derrocada da União Soviética, que era considerado por Gabriel García Márquez “um verdadeiro mestre” e que foi o mais célebre correspondente internacional do século 20, o que dizia ele sobre que tipo de gente deveria exercer o jornalismo? “Pessoas más não podem ser bons jornalistas”, afirmava Ryszard Kapuscinski, o repórter de quem estamos falando. “Só uma boa pessoa se esforça para compreender os outros, suas intenções, sua fé, seus interesses, suas dificuldades, suas tragédias”.

Agora, peguemos este raciocínio de Kapuscinski, um polonês falecido em 2007, aos 75 anos, e nos transportemos para um campo de refugiados na Hungria, na fronteira com a Sérvia. De repente um grupo de pessoas desesperadas corre para tentar furar uma barreira policial e entrar na Hungria. Uma das pessoas é um pai aparentando uns 60 anos, carregando uma sacola nas mãos, uma bolsa nas costas e um filho nos braços. O que você faria se estivesse lá e este homem passasse correndo ao seu lado?

A jornalista húngara Petra Laszlo fez o inimaginável: estendeu o pé na frente do homem, fazendo-o tropeçar e cair com o filho (foto). Momentos antes, no mesmo local, ela já chutara uma menina. É um dos mais infames atos já cometidos por um jornalista no exercício da profissão. Aconteceu anteontem, em mais um episódio dramático da crise migratória que bate às portas da Europa. Petra Laszlo foi demitida no mesmo dia; ela trabalhava para uma emissora de TV ligada à extrema-direita. Dois partidos húngaros prometeram entrar com ação na justiça contra ela.

A prática do jornalismo ajuda a controlar emoções durante a cobertura dos fatos – o repórter está ali para narrar os acontecimentos, não para participar deles. Petra Laszlo quebrou esta regra da pior forma possível, chutando uma menina e derrubando um pai com uma criança nos braços. Ninguém sabe com exatidão a razão do seu gesto; é plausível supor que ela odeie os migrantes, e os veja como ameaça. A Hungria tem um governo conservador, apoiado pela extrema-direita. Pesquisa recente apontou que 66% da população acha que os refugiados “ameaçam a estabilidade do país”. Nesse quadro, é possível ver o espaço para a escalada do ódio – mas é inaceitável que uma jornalista, no exercício da profissão, se deixe tomar pela paixão e faça o que ela fez.

Se há um consolo nisso tudo é a constatação de que a prática jornalística em casos de crises, guerras e calamidades é completamente diferente. Na semana passada, por exemplo, tivemos o episódio do menino sírio Aylan Kurdi, que morreu afogado na Turquia. A foto dele, de autoria da fotógrafa Nilüfer Demir, tornou-se imagem símbolo da crise migratória. “Naquele momento, quando vi Aylan Kurdi, eu fiquei petrificada”, disse Nilüfer Demir. “Ele estava deitado de barriga para baixo sem vida na areia, de camiseta vermelha e com seu short azul escuro. A única coisa que eu poderia fazer era tornar seu clamor ouvido. Naquele momento, eu pensei que poderia fazer isso ao acionar minha câmera e fazer sua foto”.

SAIBA MAIS: 15 ilustrações em homenagem ao menino Aylan Kurdi

No espaço de uma semana, tivemos dois exemplos opostos na cobertura da mesma crise migratória. Uma e outra mostram que é impossível fazer bom jornalismo sem motivações éticas, como mostra Ryszard Kapuscinski, no livro Os cínicos não servem para este ofício: conversas sobre o bom jornalismo. Nos dois casos tivemos crianças em destaque, e sempre no papel de vítimas. Novamente vale a pena ouvir Kapuscinski. “Se querem seguir a carreira, vocês não podem ignorar os pobres: representam 80% da população do planeta. As mais desafortunadas são as crianças”, disse ele em orientação a estudantes de jornalismo. “De todas as imundícies do mundo, essa é a que mais me ofende”.

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Comentários

  1. Aninha Postado em 11/Sep/2015 às 16:33

    Pessoas más não são boas em nada. Só são valorizadas porque costumam ser ousadas, mas causam mais malefícios que benefícios.

  2. wladimir teixeira Postado em 13/Sep/2015 às 07:43

    Pessoas más redundam em jornalistas maus, ou do mal, não apenas maus jornalistas.

  3. Luís Guilherme Postado em 13/Sep/2015 às 20:34

    Infelizmente, não acho que seja o caso. Já conheci pessoas ótimas que eram completamente atrapalhadas no serviço e canalhas completos que , admito, eram formidáveis no trabalho. Acho que é ingenuidade presumir que talento e caráter caminham juntos. Isso com certeza vale para o jornalismo.

    • eu daqui Postado em 18/Sep/2015 às 10:16

      Psicopatas geralmente são competentes - eles não tem o emocional pra ocupar boa parte da psique. Mas um dia tropeçam por crer que o não psicopata é burro e vai ser enganado pro resto da vida.

    • Roberto Pedroso Postado em 19/Sep/2015 às 11:36

      Senhor Luís Guilherme concordo em numero gênero e grau, nada mais a acrescentar corretíssima sua analise,mas infelizmente hoje no jornalismo o importante não é a competência mas sim o quanto o profissional (jornalista no caso)consegue ser competente em transmitir e defender a opinião ( linha editorial )estabelecida por seus patrões,deixando a ética profissional a sensibilidade social e os princípios de isenção e imparcialidade relegados a ultimo plano.

  4. ademar Postado em 14/Sep/2015 às 10:37

    “Pessoas más não podem ser bons jornalistas”, afirmava Ryszard Kapuscinski. Se Ryszard estivesse vivo, estaria como Diógenes, com uma lanterna na mão em sua incansável procura por um homem honesto, Kapuscinski estaria a procura de um bom jornalista, ou melhor um jornalista bom.