Redação Pragmatismo
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Geral 11/Sep/2015 às 15:35
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Aprenda a desmascarar um mentiroso

Pesquisadores descartam as técnicas tradicionais de detecção de mentiras e começam algo totalmente novo

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Os seguranças contratados pelo psicólogo Thomas Ormerod enfrentavam uma tarefa aparentemente impossível. Em aeroportos de toda a Europa, eles tinham que entrevistar passageiros sobre seus planos de viagens passados e futuros.

Mas Ormerod “plantou” alguns atores na multidão com a instrução de que inventassem histórias falsas – e seus seguranças teriam que identificar os mentirosos. A peneira era difícil – de cada mil passageiros entrevistados, apenas um iria mentir.

Ormerod e seus homens sabiam que tentar ler pistas na linguagem corporal dos entrevistados não seria muito eficiente – vários estudos científicos já descobriram que detectar mentiras dessa forma ou com base em expressões faciais é praticamente uma questão de sorte.

Eles então tentaram uma abordagem diferente – e conseguiram atingir suas metas. O segredo? Jogar fora várias das técnicas antigas e começar com algo totalmente novo.

Nos últimos anos, pesquisas científicas sobre a mentira têm sido amaldiçoadas por resultados decepcionantes. Muitos desses trabalhos se concentraram em tentar ler as intenções do mentiroso em sua linguagem corporal e em seu rosto, como risadas nervosas, bochechas avermelhadas e olhar fugidio.

O exemplo mais famoso é o ex-presidente americano Bill Clinton coçando o nariz quando negou seu caso amoroso com a estagiária Monica Lewinsky – algo visto na época como um sinal claro de que ele mentia.

“A ideia que tínhamos era que o ato de mentir provoca algumas emoções fortes difíceis de serem contidas – o nervosismo, a culpa e até um certo prazer”, explica Timothy Levine, professor de Comunicações da Universidade do Alabama. “Mesmo quando achamos que estamos disfarçando bem, ainda podemos emitir pequenos movimentos chamados de ‘microexpressões’, que são capazes de nos entregar.”

No entanto, quanto mais os psicólogos examinam, mais as pistas parecem ser frágeis. O problema está na enorme variedade do comportamento humano. Não há um dicionário universal da linguagem corporal.

“Não existem sinais consistentes que sempre apareçam junto com a mentira”, explica Ormerod, que é professor de Psicologia da Universidade de Sussex, na Grã-Bretanha. “Eu rio, mas outros ficam mais sérios. Alguns olham nos olhos, outros evitam.”

E, apesar de já termos ouvido teorias sobre como nosso subconsciente pode detectar esses sinais mesmo se eles escapam da nossa atenção, elas são infundadas.

A experiência de Ormerod foi realizada nos meses que antecederam os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, aproveitando que muitos passageiros poderiam ser interrogados por seguranças para verificar se emitiam algum “sinal suspeito”.

O que o psicólogo observou foi que as autoridades normalmente usam perguntas onde só cabem as respostas “sim” ou “não”. “Isso não dá ao agente de segurança a chance de ouvir o passageiro falar nem de observar mudanças de comportamento – aspectos cruciais para a detecção de mentiras”, explica.

A resposta de Ormerod e sua equipe foi simples: treinar os seguranças para tirarem o foco dos maneirismos sutis e prestarem atenção no que as pessoas estão dizendo, suavemente apertando nos pontos certos para conseguir desmascarar o mentiroso.

Ormerod e seu colega Coral Dando, da Universidade de Wolverhampton, identificaram uma série de princípios em uma conversa que podem aumentar as chances de descobrir uma mentira:

Usar perguntas “abertas”. Isso obriga o mentiroso a expandir suas histórias até acabar encurralado em sua própria mentira.

Apostar no elemento surpresa. Investigadores deveriam tentar aumentar a “carga cognitiva” do mentiroso. Por exemplo, fazendo perguntas inesperadas e confusas, ou pedindo para que contem um acontecimento de trás para a frente – técnicas que dificultam que ele mantenha a fachada.

Prestar atenção em detalhes pequenos. Se um passageiro afirma que trabalha em certa empresa, pergunte sobre o caminho que faz para ir e voltar ao escritório diariamente. Se encontrar uma contradição, não o corrija. É melhor deixar o falsário ganhar confiança e acabar entregando mais fatos incorretos.

Observar mudanças na autoconfiança. Preste atenção para ver como o estilo de um potencial mentiroso muda quando ele é desafiado: quando acham que estão conduzindo a conversa, eles tendem a ser mais falantes. Mas podem ficar quietos se perceberem que estão perdendo o controle da situação.

O objetivo é manter uma conversa informal, em vez de um interrogatório intenso. Sob essa pressão mais suave, o mentiroso pode acabar se traindo ao contradizer sua história, ou ao se tornar claramente evasivo em suas respostas. “Não existe uma fórmula mágica. Estamos combinando os melhores aspectos para ter uma abordagem cognitiva”, afirma Ormerod.

O psicólogo admite que sua estratégia pode soar como senso comum. Mas os resultados de sua experiência mostram que ela funciona. Os seguranças treinados por ele apresentaram 20 vezes mais chances de detectar os falsos passageiros, encontrando-os 70% das vezes.

As técnicas de Ormerod e Levine poderiam primariamente ajudar autoridades na aplicação da lei, mas os mesmos princípios podem ajudar qualquer pessoa a caçar mentirosos em suas vidas.

A principal coisa a ser lembrada é de manter a mente aberta e não se apressar nas conclusões. Só porque uma pessoa está nervosa ou tem dificuldades em se lembrar de detalhes não quer dizer que ela tenha alguma culpa. Procure por inconsistências, em vez disso.

Pode não haver um detector à prova de todos os mentirosos, mas usar o tato, a inteligência e a persuasão podem ajudar a verdade a emergir.

David Robson, BBC Future

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Comentários

  1. Gustavo Postado em 15/Sep/2015 às 03:42

    Em pleno século XXI e as pessoas ainda se atolam em discussões sobre dualidades frágeis, como a falsa oposição verdade/mentira. Bastaria um estudo aprofundado dos pré-socráticos, principalmente da escola sofística, como Górgias, para perceber que há algo errado nessa dualidade. Há um livro de Nietzsche "Sobre verdade e mentira", onde a questão é brilhantemente explorada. Mas repetir o erro é a sina da história humana. Os desdobramentos do estudo da linguística no século XX já não deixam dúvidas: o ato de falar (falar vem do infinitivo latim 'fabulari', ou seja, fabular) já é, por si próprio, o ato de mentir. O que muda de um falante para o outro é meramente o grau da mentira, da "distorção" se preferirem. Não existe essa oposição fala verdadeira versus fala mentirosa. Quando se pronuncia, quando se descreve situações, quando se conversa, a coisa em si já foi perdida há muito tempo, não há língua que escape à sutileza da própria linguagem de ser uma ferramenta meramente transmissiva, e não objeto que dá acesso às experiências pessoais, à "coisa em si mesma". Curiosamente a maior mentira que contamos para nós mesmos é a existência dessa entidade sobrenatural chamada 'verdade'. O que não quer dizer que quando Bill Clinton nega seu envolvimento com Monica Lewinsky (enquanto outras fontes apontam o contrário) ele não esteja mentindo. Mas suponhamos que ele teria dito: nos beijamos algumas vezes e só. Ainda estaria mentindo. Ou melhor: transamos, mas apenas uma noite. Mentira? Transamos várias vezes seguidas. Verdade? O problema é que nos apegamos infantilmente às descrições. Mentir é o sinal mais óbvio de garantia de acesso à linguagem. Se uma criança pequena mente, significa que ela já está em pleno controle da linguagem. Se ela não é capaz de mentira, provavelmente o faz porque pouco se comunica, em alguns casos comunica-se usando tão pobres palavras que rapidamente se torna motivo de preocupação dos pais. Enfim, isso não é um tratado de acobertamento da falsidade, nem um anúncio da impossibilidade de um dizer sincero. É mais um alerta: detectores de mentira falham, e continuarão falhando, porque não há correspondência plausível do dito com a coisa em si. O bom mentiroso está cheio de certeza (cheio de "verdades"), o acontecido é o que menos importa, mas sim como a história se repete em sua cabeça (ou melhor dizendo, como ele trabalha internamente os significantes de forma a dar coesão para sua ficção pessoal), enquanto que a pessoa ""sincera"" é aquela que se deixa flagrar em sua mentira, que se contradiz, que deixa algo escapar, como alguém que não é capaz de se convencer daquilo que diz.

  2. enganado Postado em 15/Sep/2015 às 23:19

    Aqui no BRASIL não é preciso destas técnicas todas, basta perguntar em quem votou nas últimas eleições. Se for na Direita, 100 % mentiroso, além disso ladrão, safado, ordinário, apátrida ....