Redação Pragmatismo
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Xenofobia 11/Aug/2015 às 17:26
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Haitianos baleados: depois do atentado, o desprezo e o descaso

Uma semana após os dois atentados contra haitianos em São Paulo, nenhuma vítima dos disparos foi sequer procurada pela Polícia Civil. Feridos foram a pé até um posto da AMA e, quatro horas depois, encaminhados a um hospital. Lá, não tiveram os ferimentos tratados e permanecem com as balas alojadas no corpo

Haitianos baleados são paulo
Dois dos haitianos feridos em atentados a tiros ocorridos no bairro do Glicério, centro de SP (Foto: Lumi Zúnica)

Lumi Zúnica, Ponte

Era noite do sábado 1 de agosto. Por volta das 20h00, Hudson Prohete, 28 anos, haitiano, retornava da escola dominical frequentada por imigrantes no bairro do Glicério, região central de São Paulo. Próximo dele, um casal da mesma nacionalidade conversava. Foi quando Hudson sentiu o que parecia ser o impacto de uma pedra na perna direita.

Segundos depois, viu sangue escorrendo na perna da mulher e percebeu que ele, o casal e outro homem tinham sido atingidos por balas, todas na região das pernas. Enquanto Hudson socorria a mulher, foi alvejado novamente.

Num português arrastado de sotaque francês, Hudson ligou para a polícia, mas o socorro nunca chegou.

Hospital não retira as balas

As vítimas, então, foram a pé até um posto da AMA (Assistência Médica Ambulatorial) na praça da Sé, a pouco mais de 300 metros do local do atentado. Lá, depois da realização de radiografias, foram informados que não havia recursos para atender os feridos.

Funcionários da AMA solicitaram três ambulâncias que, quase quatro horas depois, transferiram as vítimas até a Santa Casa de Misericórdia.

No hospital, receberam antibióticos, mas não tiveram os ferimentos tratados. Até a publicação desta reportagem, as vítimas ainda permaneciam com as balas alojadas nos corpos. Uma delas disse que sequer foram limpas as feridas, procedimento realizado pelos próprios haitianos quando retornaram para suas casas.

Mais vítimas

Durante sua permanência no AMA, Hudson afirma ter visto pelo menos mais três compatriotas feridos que chegaram procurando socorro médico. Segundo ele, um em estado mais grave foi baleado na região da virilha.

Outra vítima é o haitiano Joral Louis, 48 anos, que não fala português. Por intermédio de um tradutor, ele disse que os disparos partiram de um veículo de cor cinza. Não soube dizer qual a marca e placa do carro.

Até o sábado (08/08), a reportagem descobriu os registros de cinco haitianos vítimas de lesão corporal de natureza grave na 8ª Delegacia de Polícia (Brás), todos atingidos por disparos na mesma ocorrência. As outras três vítimas são Vilner Guervil, Michelet Saint Lous e a mulher Athice Luc.

Porém, relatos de Hudson e de outras testemunhas indicam que o número de pessoas alvejadas pode chegar a oito.

Segundo ataque

Ythel Jeune, 32, chegou do Haiti em 2011 e hoje é proprietário de um pequeno comércio na região do Glicério. Ele afirma que após os ataques da noite de sábado, outro haitiano foi atingido com disparos por volta das 10h do domingo (02/08).

Ythel tem dois filhos na escola e a mulher dele não quer que os filhos frequentem mais as aulas por medo dos atentados. Ele tem certeza que os ataques foram produto de discriminação. ” Se cortarem nossa pele vão ver que temos o mesmo sangue”, disse Ythel, indignado.

Hudson é da mesma opinião e pergunta porque com tantas pessoas na rua, só os haitianos foram alvejados. Depois dos disparos, ele ligou para a mãe no Haiti e disse que pretende voltar para a terra natal.

Investigação

O registro dos atentados na 8ª Delegacia de Polícia foi feito por guardas municipais que presenciaram a chegada dos estrangeiros no posto de saúde e foi lavrado sem a presença das vítimas.

Apesar do registro ter sido elaborado na 8º Delegacia, a investigação está sob responsabilidade da 1º Delegacia de Polícia (Liberdade). Até sexta feira (07/08), o delegado de plantão não sabia da existência do atentado contra os haitianos. Foi nossa reportagem que informou ao delegado de plantão os números dos boletins das ocorrências contra os estrangeiros. Nenhuma investigação tinha sido iniciada até aquele momento.

Os boletins de ocorrência divergem quanto ao tipo de munição empregada no ataque. Um dos BOs registrou o uso de arma de fogo enquanto outro consigna suspeita de se tratar de disparos de “chumbinho”.

Membros da comunidade haitiana afirmaram ser alvos constantes de discriminação racial e de ataques xenófobos.

“Já passaram carros jogando bombas contra nós”, afirmou um imigrante que não quis ser identificado. A mesma informação foi confirmada pelo funcionário de um comércio da região.

Prefeitura

A Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, em nota emitida às 18h40 de sexta-feira (07/08), informou que tomou conhecimento dos fatos e que está acompanhando a situação das vítimas. Na mesma nota, a Secretaria Municipal de Saúde informou que os haitianos baleados estão sendo atendidos na AMA Sé e que eles se encontravam internados no Hospital do Tatuapé. Porém, nossa reportagem apurou que nenhuma das vítimas foi internada.

Também segundo a Secretaria de Direitos Humanos, cinco homens e uma mulher receberam atendimento na noite de sexta-feira (07/08). Dois deles deverão voltar hoje (19/08) para extrair os projéteis. Quatro das vítimas não poderão ter as balas retiradas de seus corpos porque elas estão áreas mais sensíveis.

Até o fim da tarde de sábado (08/08), nenhuma das vítimas havia sido procurada por nenhuma autoridade policial.

Procurada, a Santa Casa de Misericórdia não se manifestou até a conclusão da desta reportagem.

Por telefone, no sábado (08/08), a Secretaria de Direitos Humanos desmentiu a própria nota e confirmou que não houve nenhuma internação.

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Comentários

  1. Pedro Accioli Postado em 12/Aug/2015 às 08:43

    Vergonha este ataque contra Haitianos! O que mostra o racismo e a xenofobia que os coxinhas demonstram! Cambada de FDP!!!

    • felipe Postado em 12/Aug/2015 às 08:50

      Vergonha o abandono dado a estes, agora não tem um para ir defender, criticar é fácil mas ninguém levanta a bandeira para o cuidado que eles estão tendo lá, e é muit bom saber que vc sabe que foi um "coxinha" que o atacou bem a cara da esquerda colocar a culpa de tudo que acontece no "coxinha"

      • Pedro Accioli Postado em 12/Aug/2015 às 09:51

        E foi um coxinha mesmo! Se o cara está indignado com a vinda de estrangeiros por causa da crise econômica não tem o direito de atacá-los, está agindo igual aos skinheads!

      • felipe Postado em 12/Aug/2015 às 10:05

        Legal Pedro, é obvio que ninguém tem esse direito, mas interessante saber qual foi o grupo de idiotas que atacou os haitianos.

    • Bruno Postado em 12/Aug/2015 às 11:14

      Esse pessoal fala do fascismo mas é o primeiro a indicar um grupo como causa de todos os problemas, como falar que qualquer pessoa aliada a direita é um monstro que sai por ai dando tiros em todo mundo.

      • felipe Postado em 12/Aug/2015 às 12:03

        Exatamente Bruno, é o que disse acima, e é o que mutis fazem aqui, alias sem mesmo saber o significado da palavra e sua ideologia, se soubessem parariam de usar.

  2. gabriel Postado em 12/Aug/2015 às 11:41

    quem merece atendimento hospitalar é o povo brasileiro, que paga imposto

    • Felipe Peters Berchielli Postado em 12/Aug/2015 às 13:38

      Comentário nojento rapaz,vá se tratar imbecil,fascista de merda, falar isso em publico voce não fala né?

    • Eduardo Ribeiro Postado em 12/Aug/2015 às 14:22

      Ridiculo.

    • Carlos Henrique Postado em 12/Aug/2015 às 15:16

      Cala boca seu idiota! Queria ver se fosse na sua perna que tivesse a bala e você não fosse brasileiro, se vc teria a mesma opinião de merda.

    • Rodrigo Postado em 12/Aug/2015 às 15:40

      (Outro Rodrigo) O Supremo Tribunal Federal e Tribunais Regionais Federais, aplicando o texto constitucional e em atenção às convenções de direitos humanos de que o Brasil é signatário, discorda de você: "“o fato de o paciente ostentar a condição jurídica de estrangeiro e de não possuir domicílio no Brasil não lhe inibe, só por si, o acesso aos instrumentos processuais de tutela da liberdade nem lhe subtrai, por tais razões, o direito de ver respeitadas, pelo Poder Público, as prerrogativas de ordem jurídica e as garantias de índole constitucional que o ordenamento positivo brasileiro confere e assegura a qualquer pessoa que sofra persecução penal instaurada pelo Estado” (STF, HC 94016 MC/SP, rel. Min. Celso de Mello, j. 7/4/2008)." / “SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. TRANSPLANTE DE MEDULA. TRATAMENTO GRATUITO PARA ESTRANGEIRO. ART. 5º DA CF. O art. 5º da Constituição Federal, quando assegura os direitos garantias fundamentais a brasileiros e estrangeiros residente no País, não está a exigir o domicílio do estrangeiro. O significado do dispositivo constitucional, que consagra a igualdade de tratamento entre brasileiros e estrangeiros, exige que o estrangeiro esteja sob a ordem jurídico-constitucional brasileira, não importa em que condição. Até mesmo o estrangeiro em situação irregular no País encontra-se protegido e a ele são assegurados os direitos e garantias fundamentais. (TRF 4ª Região, AG 2005040132106/PR, j. 29/8/2006)”.

    • Tammy Postado em 20/Aug/2015 às 14:05

      Faz isso não, Gabriel. Pensa um pouco antes de falar estas coisas. Isso é feio, é triste, é segregacionista, racista, xenófobo. É uma questão de humanidade, de empatia pela sofrimento de seres humanos. Ainda há tempo de você refletir sobre isso que você falou.

  3. Jonas Schlesinger Postado em 12/Aug/2015 às 14:01

    Sou radicalmente contra a imigração ilegal, pois pra mim as nacionalidades não deveriam se misturar pelo menos da forma ilegal. Esses imigrantes se acumulam em outros países visando sair de conflitos, mas tiram os serviços do povo daquele povo. Por exemplo esses haitianos vêm pra cá e tiram os escassos serviços básicos do próprio povo pobre brasileiro. Era para ter leis mais rigorosas e prender quem dar abrigo a esse tipo de gente, como na Inglaterra. Mas não pelo fato de serem negros (pra depois uns me chamarem de racista) e sim imigrantes ilegais, eles poderiam ser albinos que eu teria a mesma visão deles. A Onu que se encarregue deles, não é culpa do Brasil que nesses países eles passam fome. Enfim, sou diretoassim mesmo e vcs não precisam gostar de mim. Mas quem já me conhece sabe como sou, afinal já completei 1 ano aqui no site.

    • Carlos Henrique Postado em 12/Aug/2015 às 15:20

      Ok... sua opinião. Já eu sou a favor de receber os refugiados miseráveis sim, e de dar abrigo a eles. E com os impostos absurdos que todo mundo paga, inclusive os imigrantes que acabam consumindo em nosso país, eu acredito que haja dinheiro suficiente para se ter serviços públicos de qualidade coerente com a arrecadação. Só acho. Minha opinião.

    • Bruno Postado em 12/Aug/2015 às 15:56

      A imigração ilegal tem que ser vigiada sim, tem que ser controlada, e isso não tem nada com racismo ou xenofobia, a questão não é proibir, no futuro o Brasil também irá depender da imigração para repor sua população, tendo em visto a queda dramática do número de filhos por mulher na última década. A questão é que o país está envelhecendo, o setor público tende a crescer e os impostos também, é uma questão insustentável no longo prazo, a não ser que algo realmente inovador aconteça. A questão da imigração não é simples, ainda mais em época de crise, em que o desemprego tem aumentado, quem mais sofre é a população mais pobre, imagine então o imigrante ilegal. Esta pessoa pode virar um enorme problema social. Obviamente que não existe justificativa para a barbaridade cometida por estes bandidos, mas também liberar as fronteiras para qualquer pessoa não é prudente.

  4. Nicolau Postado em 16/Aug/2015 às 17:35

    Esses miseráveis haitianos preferem "sofrer" no "capitalismo" brasileiro como masoquistas burros do que ir viver em Cuba, vizinho do Haiti! Isso porque o comunismo em Cuba é mais miserável do que o Haiti!