Redação Pragmatismo
Compartilhar
Barbárie 08/Apr/2015 às 16:41
5
Comentários

E se o menino Jesus fosse morto em Ipanema ou no Leblon?

Nos dois dias que sucederam a morte do menino Jesus, 10 anos, alguns grandes jornais chegaram a ignorar o ocorrido. Só após mobilizações de moradores e nas redes sociais, a morte covarde conquistou as escaladas da TV. Jesus era pobre, morador do Complexo do Alemão; não provocou comoção entre os brasileiros, e também no jornalismo, porque não vivia em Ipanema ou no Leblon

menino jesus rio de janeiro
José Maria Ferreira de Sousa e Terezinha Maria de Jesus, pais do menino Eduardo de Jesus, de 10 anos, mostram foto da criança (Foto: Fábio Gonçalves/Agência O Dia)

blog do Mário Magalhães

Imagine a escalada, a abertura de telejornal, com as chamadas das notícias mais quentes do dia, os apresentadores tabelando em jogral:

“Uma tragédia no coração do Rio!

Em Ipanema, um menino de dez anos é assassinado com um tiro de fuzil!

À luz do dia!

Durante uma operação da Polícia Militar!

O menino estava na porta de casa!

E se chamava Jesus, Eduardo de Jesus Ferreira!

E sua mãe se chama Maria, Terezinha Maria de Jesus!

Às vésperas da Páscoa, o crime num cartão-postal do Brasil abala o país!

A cerimônia da Sexta-Feira da Paixão foi cancelada no bairro!

E no domingo, para o menino Jesus, que sonhava ser médico ou engenheiro, não haverá ressurreição!”

Essa escalada não existiu nos telejornais da noite da quinta-feira, dia em que Eduardo de Jesus foi morto.

Houve um que ignorou a notícia.

Na sexta-feira teve jornal carioca que não deu a morte nem num cantinho escondido da primeira página.

Na internet, como em outras plataformas do jornalismo, o noticiário foi ganhando envergadura alimentado por duas fontes: as manifestações legítimas dos vizinhos de Jesus e a indignação cidadã que varreu as redes sociais.

Só assim a morte covarde conquistou as escaladas da TV.

Eduardo de Jesus não provocou uma comoção entre os brasileiros, e também no jornalismo, porque não vivia em Ipanema.

Era morador do complexo do Alemão, onde ontem houve protesto, no lugar da Paixão de Cristo.

Ele não sonhava ser médico ou engenheiro, mas sim motorista ou bombeiro. Era este o digno horizonte do menino da favela para seu futuro de trabalhador.

Já pensaram o impacto de ouvir uma mãe da zona sul, e a dor suprema de mãe e pai independe de classe social, dizendo ter ouvido de um policial militar “saia daqui, senão vou matar você também!”?

Foi o que Maria, a empregada doméstica mãe de Jesus, contou ter falado um PM. Mas a Maria não vive na zona sul.

Inexistiu o tiroteio descrito pelos policiais, ela disse. Só escutou o tiro de fuzil que matou seu filho, o caçula da prole de cinco.

Ela pensa em voltar para o Piauí, de onde veio no ocaso da década de 1990 para tentar a sorte no Rio.

Além do drama de toda mãe e todo pai que perdem um filho, o episódio do Alemão tem outro componente relevante ao jornalismo, ao menos o jornalismo que se pretende fiscal, e não porta-voz, do poder: é possível ou provável que um servidor público tenha assassinado Jesus. O que incentiva a discussão sobre o tratamento oficial de populações humildes como inimigas. E sobre a Justiça necessária para desestimular a impunidade.

Nem assim a morte comoveu muita gente, afora os que pensam “podia ser meu filho”.

A explicação é óbvia, e vale para muitas almas e para o jornalismo: Jesus era pobre, sua família é pobre.

Não é novidade, na última nação a abolir a escravidão e que figura entre as dez com desigualdade mais obscena.

Anteontem, em 2013, milhões de brasileiros se revoltaram e choraram com duas dezenas de lojas quebradas no Leblon e deram de ombros para uma chacina ocorrida na Maré, numa invasão do Bope, poucos dias antes.

Incrível país o nosso: vozes ditas esclarecidas esperneiam ao ouvir falar em luta de classes (até o Delfim Netto sabe que ela existe), mas só têm o coração machucado, machucado mesmo, não da boca para fora, quando a covardia ocorre no asfalto, e não no morro.

Para cristãos, praticantes de outras religiões ou gente sem fé além da teimosa fé no ser humano (está difícil, viu), esta Páscoa é para pensar em Jesus.

Em Eduardo de Jesus Ferreira, o menino que nunca será bombeiro ou motorista.

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook

Recomendados para você

Comentários

  1. poliana Postado em 08/Apr/2015 às 18:34

    é q o pobrezinho era um favelado. pra sociedade n é gente. se fosse no leblon ou qq outro bairro nobre, o país parava e com certeza a grande mídia começaria a discutir acerca da desmilitarização da polícia militar, com o apoio de todos .mas esquece, foi só (mais) um favelado!

  2. Carlos Antunes Gomes Postado em 09/Apr/2015 às 09:43

    Foi uma fatalidade horrível, mas lamentar nada muda, as condições do trabalho dos PMs em comunidades somadas aos riscos irão gerar mais mortes, ninguém compreende o que é ser policial em favela mais inocentes irão morrer e a culpa não da linha de frente no meio de uma guerra onde o campo de batalha tem 10 pessoas a cada 2 metros quadrados.

  3. Eduardo Ribeiro Postado em 09/Apr/2015 às 10:08

    Texto perfeito e muito pertinente. Gostaria de acrescentar algo: quem acompanhou Face e Twiter nesses dias chorou sangue com a tentativa sórdida de criminalizar o garoto para justificar o assassinato. Quantas vezes se viu canalhice maior que essa? Pessoas compartilhando a foto de um garoto/adolescente armado e dizendo coisas como "olha o garoto aí, olha que anjo que ele era, olha o menino inocente e puro...mereceu o que teve". A tentativa maciça, generalizada, de denegrir a imagem de um menino bom de 10 anos com uma foto falsa apenas para justificar o tiro de fuzil que levou na cabeça (como se justificasse alguma coisa!!!!!!!!) foi uma das maiores covardias que eu vi na vida. Quem fez isso nas redes sociais (e foi muita gente) não tem carater nenhum, perdeu todo senso de decência e moral.

  4. Luiz Souza Postado em 24/Apr/2015 às 19:13

    Ué, cadê a direita?

    • Andréa Postado em 17/Jun/2015 às 16:15

      Excelente pergunta.