Luis Soares
Colunista
Compartilhar
Barbárie 18/Jul/2013 às 00:40
34
Comentários

A morte da menina Tayná, a tortura e a imprensa

Um caso exemplar da polícia brasileira: prende-se o suposto culpado, para depois iniciar-se a investigação, que é sempre a mesma: porradas primeiro, perguntas depois

Urariano Mota, Direto da Redação

Menina Tayná
Menina Tayná

O inquérito do assassinato da menina Tayná, no Paraná, ilustra o tempo de trevas que  sobrevive no Brasil.  Em breves linhas lembramos que toda a imprensa noticiou que uma linda jovem de 14 anos, Tayná Andrade da Silva,  havia sido  estuprada e morta por quatro empregados de um parque de diversões, no dia 25 de junho. E que os frios estupradores confessaram o seu hediondo crime, depois de um rápido e eficiente trabalho da polícia. Os apresentadores na tevê bradavam, elevavam a tensão em nossas veias: “E aí, o que devia ser feito com esses animais?”, e mostravam as imagens das quatro feras.

Assim estávamos nós com a nossa consciência insatisfeita, porque clamávamos pelo sangue desses monstros, quando, passados alguns dias, a brava perita Jussara Joeckel descobriu que jamais houve qualquer violência sexual contra Tayná. Mais, que o exame de DNA no  sêmen encontrado na calcinha da jovem não pertence aos tidos como culpados. E para o cúmulo do absurdo, a perita afirma que a menina foi morta depois dos “assassinos” presos. Escândalo. A perita Jussara teve a sorte de ser apoiada por uma jornalista à altura, Joice Hasselmann. A repórter divulgou a análise e registrou no Blog da Joice que em meio aos gritos e ao bate-boca de uma   reunião na Secretaria de Segurança, um integrante da Polícia Civil chegou ao extremo da pergunta: “será que na contraprova nós não conseguimos um laudo com resultado inconclusivo?”.

Leia também

Sabe-se agora que o preso Adriano teve um cabo de vassoura enfiado no ânus,  amarrado de ponta-cabeça e agredido com uma máquina de choque, para que confessasse o crime. A máquina de choque foi usada com uma haste de metal introduzida no seu ânus. Adriano, internado em hospital, tem sinais de perfuração no intestino. E todos os presos, depois de torturados, tiveram que assinara sem ler os “seus” depoimentos escritos.

Infelizmente, este é um caso exemplar da polícia brasileira, de Norte a Sul do país. Prende-se o culpado,  para depois iniciar-se a investigação que prove a sua culpa. A investigação, todos sabemos, é sempre a mesma: porradas primeiro, uma pergunta depois. Se o culpado não responder logo o que se quer provar, tudo mal. Pau de arara e choques elétricos como método infalível de apuração. Se responder conforme a acusação, tudo mais ou menos. A tortura continua, mas dessa vez para selar o depoimento, ou como gritam os torturadores: “Ah, então você escondia o jogo, não é, safado? Você vai ver agora o que um criminoso merece”. Pelo medo e terror, selam assim a culpa do culpado.

O costume da tortura se transformou em uma coisa tão banal, que os advogados falam nas entrevistas em invalidação do inquérito, porque contaminado pela violência. Isso é óbvio. Daí os doutores partem para a soltura dos presos, com a posterior cobrança ao Estado pela prisão indevida. O que é justo. Mas da ação lhes escapa o maior horror: eles parecem não  ver que os policiais deveriam responder, antes de tudo, pela tortura, porque esse é um crime condenado, imprescritível em nossa Constituição e em todos os tribunais civilizados. O fundamental lhes escapa: a mais severa punição prisional para o torturador.

Mais. Chamamos a atenção para o comportamento da imprensa que reproduz as versões  da polícia sem um filtro, sem uma dúvida. Os repórteres copiam o Boletim de Ocorrência, e de tal modo que repórter policial é o mesmo que policial repórter. Mas isso é igualzinho ao tempo da ditadura. É igual àqueles malditos anos em as mortes de “terroristas” eram reproduções exatas da Agência Segurança Press. Se não, olhem o que se falou sobre o assassinato da menina de 14 anos nas tevês:

“Polícia termina investigação sobre morte da menina Tayná”, em Clique aqui 05/07/2013. “Polícia conclui inquérito e afirma que os suspeitos mataram Tayná. em Clique aqui , 05/07/2013

Os exemplos da imprensa brasileira, que reproduz de modo literal o que a polícia lhe sopra, ao fim de torturante inquérito, poderiam ser mostrados a um infernal infinito. E o mais grave, leitor. Agora mesmo, neste preciso instante, um preso comum está sendo torturado, sofrendo empalação ou é morto. Isso em plena democracia. Era bom que transformássemos o caso Tayná em um começo de real mudança, nas delegacias de polícia e na imprensa.

Recomendados para você

Comentários

  1. luiggi Postado em 18/Jul/2013 às 01:09

    Em se tratando da polícia civil do Paraná não me espanta. Mas, conhecendo o modus operandi deles, dá para desconfiar que estes quatro deveriam servir de bodes espiatórios. Quem matou a garota deve ser tubarão grande e muy amigo de políticos e da polícia. Para desatar esse nó só a Federal entrando neste caso.

  2. Rodrigo Postado em 18/Jul/2013 às 10:17

    O equívoco reside em a matéria igualar-se ao comportamento de quem critica - afirma que a polícia agride, apenas a fim de eleger um culpado. E o autor do post desconhece o fato de que a ação penal contra policiais que eventualmente (falo eventualmente em razão de ainda não haver sentença condenatória transitado em julgado, não sendo eu promotor, não podendo acusar) há de ser proposta pelo Ministério Público, a tortura havendo ainda de ser apurada pelas respectivas corregedorias. Assim, confunde-se Olívia Pires com pratinho de azeitona, atirando em quem não tem culpa, cabendo ainda lembrar que, por opção própria, receando eventual retaliação posterior, a vítima prefira não registrar ocorrência contra os seus algozes. Mas, então, fica a pergunta: aonde está o pessoal dos "Direitos Humanos"? Olhe aí uma ótima oportunidade para demonstrar que não são amantes de bandidos. Temos pessoas que tiveram seus direitos humanos, segundo a denúncia, barbaramente violados. Não se interessam por este caso só porque não são culpados?

  3. renato Postado em 18/Jul/2013 às 11:34

    Só a federal para descobri, as vezes ficamos surpresos com prisões relampagos. E o caso da menina da mala da Rodoviaria, A policia já achou o culpado, foi no paraná.

  4. Éden Amorim Postado em 18/Jul/2013 às 11:35

    Rodrigo... o próprio texto demonstra uma preocupação com os direitos humanos ao denunciando o caso de tortura dos suspeitos. E esse não é um texto ou uma ação isolada. 'O pessoal dos "direitos humanos"' está fazendo o mesmo. O que tem me chegado sobre o caso nesse sentido, atacando as atitudes da polícia e impressa, só vejo vir d'o pessoal dos "direitos humanos"'. Sua questão é de fato genérica ou se direciona a grupos ou entidades particulares?

  5. João Freire Postado em 18/Jul/2013 às 11:37

    Um texto do meu blog Mídia em Debate sobre esse caso: http://jlfreire.blog.uol.com.br/arch2013-07-07_2013-07-13.html

  6. Ricardo Salvador Postado em 18/Jul/2013 às 11:53

    Inflelizmente isso não ocorre só no Paraná. Precisamos urgentemente unificar e requalificar as policias, não é só questão de salário como querem alguns, precisamos afastar os policiais dos marginais e os marginais dos policiais. Filmar as abordagens, qualquer que seja, acompanhar as viaturas com GPS e tornar isso disponível ao cidadão. Monitorar os governos estaduais exigindo um efetivo mínimo e bem distribuido, um IML independente da polícia e dos políticos, e claro, tambem fiscalizado. Aí sim, poderemos pensar numa polícia decente.

  7. fabbys Postado em 18/Jul/2013 às 12:02

    e enquanto isso, o (a) assassino (a) de tayná continua solto (a)...

  8. Jaque Postado em 18/Jul/2013 às 12:19

    E quem matou a menina? Quem são os policiais pagos para "encontrar" o(s) culpado(s)? Por que o requinte de crueldade ao matar a menina? Foi Jack o estripador, um suposto membro da realeza psicopata? Quem esse ou essa pessoa assassina? Foi para uma ceita diabólica, para manter os políticos certos no poder????? O século é XXI, mas esses delírios ainda podem estar acontecendo, sim. E, exatamente por ser tão inacreditável, é q é fácil desses diabos 7 pele, executarem seus crimes sem levantar suspeitas.

  9. Patricia Postado em 18/Jul/2013 às 12:48

    Fazendo coro ao comentário do Rodrigo: tenho MUITO MEDO quando um veículo que se diz independente por ter nojo da "mídia tradicional malvada interesseira e tendenciosa" publica NUMA BOA textos como esse, recheado de "brava perita", "realidade da polícia de norte a sul do país" e outras construções puramente emocionais e o pior, cadê as PROVAS sobre o quê está sendo afirmado? Do jeito que está esse texto pode muito bem ser "o outro lado" de uma rixa política local. Pragmatismo, ao publicar isso vocês estão violentando ainda mais essa menina, tenham critério e responsabilidade por favor.

  10. luiz carlos ubaldo gonçalves Postado em 18/Jul/2013 às 12:50

    è poder demais nas mãos de pessoas sem a menor qualificação profissional e muito menos moral!

  11. Justino Postado em 18/Jul/2013 às 12:55

    Uma hora ou outra o cabo também vai entrar no rabo de quem defende esse tipo de ação policial.

  12. Evandro Postado em 18/Jul/2013 às 13:33

    Entendo que um post não pode dar conta de tudo, mas.... a menina se matou?

  13. Armando Postado em 18/Jul/2013 às 13:47

    Tortura como método de investigação... Que bom que já chegamos na Idade Média. Só faltam mais 500 anos pra chegar no século XX...

  14. Pedro Augusto Postado em 18/Jul/2013 às 13:51

    O link para a notícia da globo não existe mais... que coisa não...

  15. Volfi Postado em 18/Jul/2013 às 14:24

    Querem saber? Este tipo de caso a imprensa para de falar por aqui. Daqui uns dias todo mundo esqueceu e não dá nada. O culpado pelo crime vai continuar matando talvez. Estranho que muitos casos de estupro seguido de morte no Paraná não tenham sido solucionados. Casos como os ocorridos no balneário atami, o da mala da rodoviária e tantos outros. E ainda, não é a primeira vez que prendem suspeitos e tem que soltar por falta de provas, tortura e coisas mais. Vergonha.

  16. felipe Postado em 18/Jul/2013 às 14:31

    Muito obrigado por esse tipo de informação. Ainda que seja chavão, a polícia é podre, quebrada e, muitas vezes, são mais sujos e cruéis que os ditos "bandidos". Tá na hora da galera sair informando, não deixar assim!

  17. Stéphanie Wang Postado em 18/Jul/2013 às 14:51

    "A perícia confirma que pode não ter havido abuso sexual", declarou Jussara à Gazeta do Povo, nesta terça-feira (2). No entanto, após reunião com as autoridades policiais que investigam o caso, a perita informou que não poderia mais se pronunciar a respeito da morte de Tayná. O caso segue nas mãos na delegacia do Alto Maracanã, em Colombo. Agenor Salgado Filho, delegado titular da Divisão de Polícia Metropolitana (DPMetro), que coordena todas as delegacias da RMC, afirma que houve um mal entendido. Segundo ele, a perícia entendeu que Tayná estava provavelmente desmaiada quando sofreu o abuso sexual. “Quando ela [a perita] fala em ausência de marcas de violência, fala em violência física. Mas isso aconteceu porque a moça estava desfalecida quando foi abusada, portanto, sem condições de reagir”, explica o delegado. Salgado Filho se baseia no argumento de que foi identificada uma marca de pancada na cabeça, o que pode ter deixado a menor inconsciente.

  18. Italia Fanfa Postado em 18/Jul/2013 às 16:10

    Esse é o motivo inquestionável da não aceitação da pena de morte no Brasil!

  19. Junior Postado em 18/Jul/2013 às 16:46

    O link para a notícia no site da Globo foi postado errado pelo Pragmatismo. Aqui está o correto: http://globotv.globo.com/rpc/parana-tv-2a-edicao-curitiba/v/policia-termina-investigacao-sobre-morte-da-menina-tayna/2675480/

  20. Aurenice Postado em 18/Jul/2013 às 17:31

    E o que mais tenho visto são pessoas apoiando pena de morte... Isso é vergonhoso... Informação como essa merece ser compartilhada.

  21. Marcus Postado em 18/Jul/2013 às 18:16

    Os apresentadores na tevê bradavam, elevavam a tensão em nossas veias: “E aí, o que devia ser feito com esses animais?”, e mostravam as imagens das quatro feras. Esses Datenas...

  22. niguem Postado em 18/Jul/2013 às 21:14

    a pena imposta á um crime NÃO serve apenas para punir; serve TAMBÈM para PREVENIR. "SE" o cidadão (ou criminoso em potencial) TEM a certeza de que a pena será imputada! (NÃO que isso IMPEÇA o crime, MAS "inibe"! (diminui a possibilidade; por diminuir a 'coragem' do possível infrator). ... Repito: APENAS se o cidadão tiver a certeza que será punido!... ..... O Ato danoso á sociedade, que não possui uma pena prevista, continua a se reproduzir! ..... ...Que os policiais corruptos sejam punidos na metida da lei !!!!!!... E que os 'verdadeiros assassinos' (desta criança, neste caso) sejam extirpados da face da terra. ( Queria ver se essa garota fosse filha de quem escreveu esse texto )

  23. Carlos Lenin Dias Postado em 18/Jul/2013 às 21:24

    ...sinceramente,imagino q alguns n estão lá muito interessados em "culpados" -querem sangue!Alguns comentários deixam bem claro...pouco importa q sejam de inocentes;sangue!

  24. jamir Postado em 18/Jul/2013 às 22:51

    vergonha dessa polícia. nojo.

  25. Gabriel Vince Postado em 19/Jul/2013 às 08:55

    Jamais houve qualquer violência sexual contra e foi encontrado sêmen na calcinha dela MORTA ? COMO ASSIM ??????? Alguém me explica!

  26. Rodrigo Postado em 19/Jul/2013 às 10:28

    Minha crítica, Éden, não é genérica, mas ampla. A própria matéria empurra a responsabilidade para cima de Advogados, quando a estes não compete a apuração de tais alegados crimes (novamente, alegados em função de, não havendo sentença condenatória transitada em julgado, eu não poder falar em certeza de crime - nos termos de nosso sistema pena, apurações criminais são iniciadas com os termos "indícios de autoria e materialidade", após havendo a prova em concreto ou não); se um cliente me disse que não quer fazer denúncia contra seu algoz, por medo, não poderei forçá-lo. Terei de respeitar seu medo, esclarecendo que ele pode promover denúncia do caso junto ao Ministério Público. Compreendeu minha crítica? A responsabilidade pela denúncia e apuração é empurrada para cima de quem, legalmente, não possui competência e poderes para tanto. Não vi, pois, clamor aos grupos de direitos humanos, a fim de que estes fizessem manifestações (como costumam fazer em frente a presídios), em frente à delegacia em questão.

  27. luciene romero lopes Postado em 19/Jul/2013 às 17:31

    pois é, aí eu que sou a favor a pena de morte no país me pergunto : - Quando em um país como o nosso totalmente atrasado com policiais perturbados e despreparados pode ter pena de morte? Nunca né, porque quantos inocentes seriam mortos por estes indivíduos fardados e sem noção .

  28. Seu Zé Postado em 19/Jul/2013 às 18:16

    Já existe pena de morte, só que, da mesma forma que a tortura, só vale pra pobre. Suspeito da alta classe não é se quer algemado, quando abordado, quanto mais agredido de alguma forma. É impressionante como a galera estúpida sempre leva pro lado emocional, com argumentos do tipo "imagine se fosse sua filha". O que isso tem a ver com o fato de policiais torturarem suspeitos para arrancar confissões fraudulentas? "A galera dos direitos humanos não tá fazendo nada" kkkkkkkkk, só rindo mesmo.

  29. Marcos Postado em 19/Jul/2013 às 20:36

    A polícia é atacada pela esquerda mas contra fatos não existe argumentos, na região onde vivo são 500 mortos por bandidos todos os anos +-, a polícia em 15 anos nunca matou ninguém, a esquerda julga toda polícia em um caso, nos 50.000 mortos por ano cometidos por criminosos ela se cala, pobre povo brasileiro condenado a ela.

  30. Barbar Postado em 09/Aug/2013 às 12:37

    E a Globo retirou a página do ar...

  31. Bruno Postado em 14/May/2014 às 11:21

    Deveriam proibir esses programas como cidade alerta,brasil urgente,etc.