Luis Soares
Colunista
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Eleições 2012 01/Nov/2012 às 00:59
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Adolescência Política: 'Soninha' virou adjetivo nas eleições 2012

Se você deu piti na eleição e aderiu ao ‘quanto pior, melhor’, parabéns: você é um ‘eleitor Soninha’

Não deixa de ser uma contradição. O País que se gaba de ter um dos mais modernos e eficientes sistemas de votação e apuração é ainda um adolescente quando o assunto é maturidade política. Há três dias, desde o fim da campanha eleitoral, pipocam por todos os lados, em todas as bandeiras partidárias, sintomas graves de que não estamos perto, mas nem um pouco perto, de cravar, ao menos desta vez, que vivemos num sistema permanente de aprimoramento democrático. Neste mundo ideal, ainda distante da realidade, vencedores governam, oposição fiscaliza e o contraditório impele a avanços, não a rancores. Tese, antítese e síntese é tudo o que não se vê no rescaldo eleitoral.

soninha francine eleições 2012

Em 2012, ‘Soninha’ virou adjetivo. (Foto: Estadão)

Pelo contrário. A depender das declarações públicas recentes, estamos mais próximos de transformar em adjetivo um tipo de candidato e eleitor que mostra as garras, com métodos cada vez mais rudimentares, a cada dois anos. É o candidato/eleitor “Soninha”, que em 2012 se transformou em sinônimo de quem se treme diante do contraditório, perde a compostura quando não tem mais argumento, e é adepto do “quanto pior melhor”. (Vide “ave de agouro”, “piti”, “#mtoloco”, “sinais dos tempos”).

Em outras palavras, é o candidato/eleitor que se comporta durante o processo de sucessão como quem berra numa arquibancada de futebol. Que, a dois meses da posse de um prefeito eleito, deixa claro o quanto torce para que tudo dê errado. E que, no primeiro tropeço do candidato eleito, não contém o sorriso para dizer “bem-feito, eu avisei”.

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E aposta que, se 10% das obras prometidas pelo rival estiverem prontas, faria no corpo uma tatuagem do “inimigo”.

O eleitor/candidato Soninha não é só sintoma de um sistema imaturo. Ele é o adolescente político. E, como adolescente, não se sente representado por quem governa sem o seu voto e manifesta rebeliões das mais eficientes: bater o pé, chorar, dizer “não, não e não”.

Adepto do “nós contra eles” (discurso corrente também em alas petistas), o candidato/eleitor Soninha pensa que, como no futebol, a vitória nas urnas representa a automática eliminação do adversário num sistema mata-mata. A doença atinge inclusive ministros que, diante da crise de segurança do governo “rival”, corre para dizer: “eu ofereci ajuda, não pegou porque não quis. Bem-feito”. Atinge também mesários que, ao ver um ministro do Supremo Tribunal Federal que não vota como ele quer, parte para o “método CQC” de conscientização política: o método que esculacha, não informa, confunde alhos com bugalhos e criminaliza o sistema ao repetir velhos chavões. Porque, para o adolescente político, não basta divergir do contraditório. É preciso eliminar tudo o que o representa.

É o caldo que permite o protesto indignado (e seletivo) de quem acusa quando há suspeita, condena quando tem acusação, pune quando há julgamento e cobra o direito à eliminação, de votar ou respirar, de quem está julgado, condenado, punido.

Nas redes sociais, o eleitor Soninha nada de braçada. Por exemplo: bastou o prefeito eleito de São Paulo explicar que o bilhete único mensal pode ficar para 2014, em razão do rito democrático básico – apresentação do projeto, apreciação pela Câmara, detalhamento de orçamento, aprovação e sanção – para propagar seu grau de diferenciação política. “Parabéns pra você que acreditou em um partido condenado por ser uma quadrilha”.

Se você é dessas correntes, caro leitor, você é também um sujeito Soninha. Você não entendeu nada do que foi o “mensalão” e nem tem ideia de como funciona uma eleição. E se você acredita também que só a alienação leva à vitória do candidato A, e não do seu querido B, talvez devesse conversar com eleitores de fora de sua bolha. É o método mais eficiente de se combater a alienação – a sua.

Porque o mundo real, este que permite tragédias como o chamado “mensalão”, é de todos, e não do seu rival, e só a lógica da arquibancada permite o elemento irracional do “nós contra eles”. A logica da vida democrática, não. Quando você transfere um método para o outro, você passa longe de espalhar consciência política. O que você faz é reduzir o mundo entre bons e maus, “tucanos elitistas que não gostam de pobres” de um lado e “pobres petistas comprados por benesses eleitoreiras” de outro.

Sim, porque para cada tucano que contém o sorriso ao ver um ex-ministro petista condenado há um petista feliz diante da atual crise de segurança em São Paulo. A lógica do “nós contra eles” é sintoma, e não patrimônio partidário.

O Brasil pós-ditadura completou em 2012 quase 30 anos de tradição. Já passou da hora de abandonar a puberdade.

Matheus Pichonelli, CartaCapital

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Comentários

  1. fernando Postado em 01/Nov/2012 às 10:10

    ótimo artigo. irrita esse tratamente raso que a política recebe, como se fosse uma partida de futebol. quanto mais acompanho a política partidária, mais me agrada o fato de não ter partido.

  2. Isa Falcão Postado em 01/Nov/2012 às 16:25

    "E se você acredita também que só a alienação leva à vitória do candidato A, e não do seu querido B, talvez devesse conversar com eleitores de fora de sua bolha. É o método mais eficiente de se combater a alienação – a sua." Somos todos preconceituosos alienados. Ninguém está disposto a se desarmar e debater com humildade. É realmente bizarro perceber que nos comportamos como adolescentes!

  3. rachel Postado em 01/Nov/2012 às 16:32

    Excelente artigo! Há dias, após as eleições, tenho sentido um asco diante dos comentários nas redes sociais por parte de amigos que pensam ser a elite e, por isso, deter a suprema ratio política ou de todo conhecimento humano. Elite essa que se restringe, no muito, ao poderio econômico, já que se sabe que a diferença entre os que somente são alfabetizados da "elite intelectual" são somente 1 ou 2 livros por ano (de dieta ou autoajuda). Além do repugnante ar de superioridade, essa cega paixão partidária tem que acabar. Aos poucos devemos direcionar o foco para o relacionamento interpessoal, para as melhorias no trabalho, na cidade, no estado e assim vai. A nossa preocupação deveria ser do micro para o macro. Parece óbvio e simples, mas sabemos que não é. Nossa herança política é formada por grupos, por militância - o que é foi importante e ainda é, mas perdemos o rumo. A não ser que um dia o germe de um regime totalitário exploda (tanto pra extrema direita quanto pra extrema esquerda), não há motivo para estarmos uns contra os outros.

  4. william Postado em 01/Nov/2012 às 17:06

    é realmente tem q ficar quietinho deixa o querido" ptzinho" fazer seu trabalho taum eficiente, a e se reclama vc fica taxado de infantil, imaturo, e "adolescente politico" , é verdadeiramente um otimo artigo parabéns! ...

  5. Angélica Postado em 01/Nov/2012 às 19:42

    Não gosto desses enquadramentos, são tão simplistas. O artigo fala sobre a imaturidade que é dividir o mundo entre bons e maus e faz a mesma coisa.

  6. Marco Felippe Postado em 02/Nov/2012 às 01:06

    Os SONINHAS se ressentiram. Não é reclamar que o faz imaturo e não se propositivo é efetivamente participar, mesmo que nãao seja o que você ache como melhor.

  7. Raquel Postado em 02/Nov/2012 às 11:00

    Excelente artigo!!!

  8. Roberto Pedroso Postado em 04/Nov/2012 às 11:53

    Soninha se esquece que a estrutura usada pelo PT no mensalão foi criada em um esquema do PSDB de Minas quando Eduardo Azeredo concorria a reeleição ao governo de Minas Gerais,Soninha também deixou o PT pelo fato do partido, segundo ela, ter traído seus princípios e compromissos éticos e históricos ela então na primeira oportunidade se alia a quem? ao PSDB alguém entende essa logica?Saio de um partido supostamente de esquerda pois esse partido deixou de "honrar"com seus compromissos e na primeira oportunidade me alio a um partido de direita! Enfim essa é a logica infantil pela qual essa senhora pauta toda sua carreira politica.

  9. Isaac Postado em 04/Nov/2012 às 13:56

    Foi imparcial. Afinal há pensamentos desse tipo dos dois lados mesmo. A crítica, a cobrança e a fiscalização são necessárias numa democracia. Mas criticar de forma mesquinha, sem critério, torcer pra dar errado, votar contra projetos e leis necessários (só porque não foi formulado por seu partido) é jogar com a vida dos cidadãos e vai contra o desenvolvimento (social e humano) do país. E digo isso para os dois lados. Estamos aqui. Somos pessoas, não animais ou objetos pra ser usados. Trabalhamos pra sustentar um Estado que nos deve respeito e que trabalhe pra nós, não que fiquem de joguinhos uns contra os outros. O que é mais importante? As intrigas políticas ou o cidadão?

  10. Hilário Postado em 04/Nov/2012 às 14:07

    Tem uns que criticam, mas na verdade o que querem mesmo é um salário mensal extra, um "mensalão". Temos de cuidar e ver quais são realmente os anseios dos candidatos, se são sociais ou pessoais. Como explicar um candidato gastar milhões de reais sem ter retorno com o salário em 4 anos? É simples: ele tem outros interesses por trás da carapaça, normalmente ele representa outras pessoas, sua classe ou suas próprias empresas. A maioria das pessoas não entendem como realmente funciona os bastidores da nossa democracia. Tem gente que acredita que mensalão é coisa nova e só existiu aquele. Tem mais, muito mais do que se imagina. Está acontecendo agora em câmaras de vereadores e prefeituras de cidades pequenas neste momento e os eleitores nem se dão conta, assim como as mais variadas formas de licitações em favorecimento de apoiadores de campanha Brasil afora.

  11. bank account offshore Postado em 05/Nov/2012 às 07:25

    No discurso anterior à escolha do Comitê Olímpico Internacional, já visivelmente emocionado, Lula fez o que se esperava de um estadista: fez do Rio o Brasil todo, o porto belo e seguro de todos os brasileiros, a alma da nacionalidade. Foi um ato de generosidade política inesquecível e uma lição de patriotismo real com o qual, finalmente, podemos nos perfilar sem a mácula do adesismo partidário ou do fervor imbecil das patriotadas. Lula, esse mesmo Lula que setores da imprensa brasileira insistem em classificar de títere do poder chavista em Honduras, outra vez passou por cima da guerrilha editorial e da inveja pura e simples de seus adversários. Falou, como em seus melhores momentos, direto aos corações, sem concessões de linguagem e estilo, franco e direto, como líder não só da nação, mas do continente, que hoje o saúda e, certamente, o aplaude de pé.

  12. Marcelo Postado em 05/Nov/2012 às 12:52

    Sou petista e reclamo do PT sempre que assim penso(levando em conta claro a qualidade dos argumentos para a construção do projeto) porém considero que o artigo refere-se a pessoas que não são sinceras o suficiente pra discutir politica, pessoas cujos interesses perpassam mais a batalha do que a construção. Neste caso é comum ver adolescentes politicos confundindo oposição com oposicionismo.