Luis Soares
Colunista
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Eleições 2012 31/Oct/2012 às 18:51
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Analistas da imprensa estão perplexos: o povo dominou a democracia

Os analistas da mídia hegemônica estão, assim, desacorçoados com a indiferença do povaréu diante do espetáculo no qual empenharam todas as suas energias

Por Bruno Altman

Os resultados das eleições municipais, concluído o segundo turno, evidenciam sólido avanço do Partido dos Trabalhadores. Apesar de alguns importantes insucessos localizados (como Salvador, Recife e Fortaleza), a agremiação atingiu vários objetivos estratégicos.

O PT sagrou-se como a legenda mais votada do primeiro turno, com 17,3 milhões de sufrágios e um crescimento de 4% sobre 2008. Aumentou em 15% o número de prefeituras que irá governar (634 contra 550). Deu salto de 16% para 20% no total do eleitorado sob sua gestão municipal. Acima de tudo, pelo peso político e simbólico, reconquistou o governo da cidade de São Paulo.

democracia voto urna eleições 2012

Quem tem domínio do fato, na democracia, é o povo. (Foto: divulgação)

Apesar de aparente dispersão da hegemonia sobre o poder local, com o surgimento do PSD de Kassab e a expansão do PSB de Eduardo Campos, a pedra de toque das eleições concluídas nesse domingo foi o fortalecimento do maior partido da esquerda, em contraposição ao encolhimento de seu principal antagonista à direita, o PSDB.

Os tucanos perderam massa de votos (queda de 5,02%, de 14,5 para 13,8 milhões), além de número de prefeitos (de 787 para 704) e vereadores (de 5,9 para 5,2 mil). Foram surrados no sul e sudeste do país, que antes consideravam sua fortaleza. E foram duramente golpeados na sua principal cidadela: além de perderem a capital paulista, estão cercados pelo cinturão vermelho que se consolidou na área metropolitana de São Paulo.

Muitos analistas da imprensa tradicional estão atônitos. Tentam atropeladamente fugir às óbvias conclusões sobre o processo eleitoral. Ora ensaiam dar ênfase a uma suposta fragmentação do voto, ora dirigem olhos para uma eventual terceira via na polarização nacional, com a ascensão do PSB. Não passam de manobras diversionistas. A aposta que faziam era derrotar o PT e diminuir gravemente seu peso político. Perderam, e feio.

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A estratégia antipetista repousava no julgamento do chamado “mensalão”. Estabeleceu-se acosso midiático jamais visto sobre a corte suprema, para buscar a degola de líderes históricos da sigla governista, apresentados à opinião pública, diuturnamente, como bandidos com sentença transitada em julgado pelos mais impolutos homens e mulheres da nação.

O espetáculo de exceção foi além de seu limiar processual. Os votos de vários ministros, ao vivo e em cores, constituíram-se em declarações moralmente condenatórias contra o PT e o governo Lula.

À oposição de direita e aos grandes veículos de comunicação, somou-se, no palanque das denúncias contra dirigentes petistas, a maioria do STF. O centro da disputa política, com o julgamento, trasladou-se para o tribunal, com a expectativa de sacramentar institucionalmente a existência do esquema para compra de apoio parlamentar entre 2003 e 2005. Desde as vésperas do golpe militar não se via tamanha operação de desgaste contra um partido.

O que se esperava, quando a deliberação togada chegasse às ruas, era o derretimento do PT. Na pior das hipóteses, ao menos um sensível encolhimento e a derrocada na tentativa de conquistar a maior cidade brasileira. No auge da ofensiva, não faltaram vozes que vaticinavam o ocaso da liderança de Lula. Mas as forças de direita viram ruir seus sonhos e tomaram uma tunda histórica.

Os áulicos do reacionarismo ainda não entendem o que se passou. O porquê da patuleia não dar bola para o julgamento na hora de votar. A mídia corporativa é obrigada a engolir, pela terceira vez, o fel de sua progressiva insignificância na formação de almas e mentes. Não conseguem aceitar que os pobres da cidade e do campo, secularmente condenados pela oligarquia à ignorância, ao desespero e à exclusão cultural, sejam capazes de forjar sua própria consciência de classe.

Os dez anos de governo petista, com seus altos e baixos, mudaram a vida de milhões. De dezenas de milhões. Pela primeira vez a multidão de miseráveis viu sua vida melhorar, de forma estável e duradoura. Aumentaram a renda, a oferta de trabalho, o acesso à educação e moradia, o sentimento de autoestima. Os vínculos de identidade com o partido responsável por essas mudanças, e principalmente com seu maior líder, foram se consolidando.

Os despossuídos, que antes eram majoritariamente reserva de mercado para distintos projetos políticos das elites, vão passando a ter lado, o seu próprio lado. A identificar amigos e inimigos, lógicas em conflito, a verdade dos fatos. Esse processo dolorido, mas enraizado, fabrica um escudo contra a manipulação midiática. E serviu de vacina contra o julgamento do “mensalão”.

Enormes massas de eleitores, apesar de expostos à chacina contra líderes petistas na corte suprema, não compraram gato por lebre. Não aceitaram a agenda que a direita lhes quis impor. Mesmo sensibilizados com o discurso anticorrupção, intuem sua falsidade nesse episódio, sua utilização como instrumento político-eleitoral.

De múltiplas formas, compreenderam que seria algo contrário a seus interesses, que poderia ameaçar o partido e o governo que abriram as portas para a emergência dos pobres como protagonistas do desenvolvimento.

Os conservadores estão, assim, desacorçoados com a indiferença do povaréu diante do espetáculo no qual empenharam todas as suas energias. De alguma maneira, ao menos simbolicamente, foi o julgamento do julgamento. Como disse um eleitor essa madrugada, na rede social: quem tem o domínio do fato, na democracia, é o povo.

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Comentários

  1. nilo torquato Postado em 01/Nov/2012 às 07:26

    Perfeito. A mídia golpista não conseguiu o seu intento. Mas já estão se mobilizando para 2014

  2. Alex Kawazaki Postado em 01/Nov/2012 às 08:45

    A Democracia consiste no ato imperioso de se fazer representar em SEUS interesses; e principalmente não se deixar manipular pela grande mídia, favorecendo interesses de outros.

  3. Lourdes Amorim Postado em 01/Nov/2012 às 11:57

    As forças da direita tinham na mídia um poderoso recurso para manipular consciências e aniquilar a esquerda brasileira. Agora, fica patente que já não têm mais. Eu, sinceramente, estou começando a ficar preocupada com a segurança de Lula: que ele reforce a sua segurança, pois a direita rancorosa não vai deixar isso ficar barato.

  4. Kazu Postado em 01/Nov/2012 às 14:57

    De agora em diante, urge a necessidade de organizarmos grupos de segurança em diversas atividades militantes, pois a direita raivosa vai partir para agressões fisicas. Já temos fatos que comprovam o uso da força e violencia para prevalecer a mesquinharia e baixo nivel do PIG.

  5. Rogerio Postado em 02/Nov/2012 às 01:46

    O povo aprendeu por tentativas e erros, dando cabeçada. Collor, FHC, FHC de novo. Tudo a mesma porcaria. Lula mudou visivelmente a realidade deste país. Mudou a situação do pobre para melhor e isso o pobre pode ver. Os tucanos e seus fans não consideram que os pobres a quem tanto desprezam tem mais poder para decidir uma eleição do que eles. Por décadas o Brasil foi um país de miseráveis desdenhados pela minoria rica e soberba. Tantos pobres que, se utopicamente se unissem, teriam poder e sua vontade seria lei. Um dia dentre a multidão vilipendiada surgiu um líder. Esse líder mostrou competencia e trabalhou pelos seus iguais. Como esperam que Lula não seja bem votado e bem conceituado pelo povo? E essa ladainha de mensalão já desgastou demais a paciencia. Eita novela comprida! E o mensalão tucano? Pensam que o povo é ignorante a ponto de não se conscientizar disso?

  6. João Nassif Postado em 02/Nov/2012 às 13:05

    Nunca se falou tanto da Privataria Tucana,como o PIG se calou sobre o assunto,o eleitor deu a resposta nas urnas.!!!!!

  7. MARIA Postado em 04/Nov/2012 às 09:19

    É INTERESSANTE COMO SE FALA DA CORJA DO PT, COMO SE FOSSEM INCORRUPTÍVES. NÃO SOU DE DIREITA E NEM ESQUERDA, SÓ NÃO SOU CEGA, FANÁTICA.