Luis Soares
Colunista
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Mídia desonesta 06/Aug/2012 às 21:33
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Mensalão: o maior escândalo midiático da história do Brasil

Reportagens distorcidas, cortadas e arquivadas: o escândalo do mensalão, agora em letra minúscula, foi o escândalo da partidarização explícita da imprensa

josé alencar mensalão

Por que a foto de José Alencar para ilustrar a postagem? Saiba no final do texto.

Marco Aurélio Mello, em seu sítio

A investigação mobilizou um conjunto de jornalistas experientes. A redação de Brasília não era grande o bastante para a abrangência pretendida. Tínhamos que estar representados simultaneamente no Rio Grande do Sul, no Paraná, no Rio de Janeiro, em São Paulo, no interior e no litoral do estado, em Minas, Goiás e na Capital Federal.

Produtores, repórteres e editores, entre eles, este aqui, foram à campo. Objetivo: puxar cada ponta do novelo apelidado de Mensalão. A palavra mensalão tinha não apenas o poder de síntese, mas um apelo popular magnífico. Nossa tarefa era provar a existência da suposta ação sistemática do Governo para comprar votos no parlamento.

Naquele tempo corriam em paralelo várias CPIs. A sensação, para os que viam o país a partir dos noticiários, era a de que o Brasil tinha parado. Uma delas até foi apelidada de “Fim do Mundo”. Que ilusão a nossa… O Brasil seguia seu curso, silenciosamente, distribuindo renda e minorando a dor dos excluídos, bem longe das capitais e do centro-sul. Basta levantar dados comércio no Natal de 2005.

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Ao cruzar tantas informações sobre banco de sangue, ambulâncias, genéricos, loterias, seguros e resseguros, conselhos administrativos de estatais, verbas publicitárias, correios, sistema bancário “alternativo”, caixas paralelos de campanha e embate político, chegamos à conclusão de que, apesar da corrupção disseminada, não era possível diferenciar réu, vítima e algoz.

Todos, repito, todos faziam parte da mesma lógica. Não havia um só partido político, à exceção dos nanicos, que não tivesse “as mãos sujas”. Numa das sessões, por exemplo, o então deputado Roberto Jefferson, atacado pela senadora Heloísa Helena, respondeu: vossa excelência pode até não ter participado, ainda. Quando disputar uma campanha majoritária isso vai acontecer…

Ao descobrirmos (em 2005!) via Marcos Valério, que a lógica era a mesma desde a campanha de 1998, em Minas, levamos ao conhecimento de nossa chefia de que tratava-se de uma cultura política, um “modus operandi” disseminado pelo Brasil afora, indiscriminadamente…

Responderam-nos que não haveria censura. Era para investigarmos a todos, indistintamente. Se houvesse indícios fortes o bastante as reportagens iriam ao ar. Que ingenuidade a nossa… Produzíamos reportagens contextualizando e elas eram cortadas. Demonstrávamos a lógica, mas o que se referia aos partidos “amigos”, tudo era arquivado.

Eventualmente, uma ou outra história era exibida num dos telejornais de menor alcance. Como havia um bombardeio de novas informações a cada dia, parte do material ficava à deriva na programação.

O escândalo do mensalão, agora em letra minúscula, foi o escândalo da partidarização explícita da imprensa. Nunca ficou tão claro para nós onde queriam chegar e do que eram capazes os inimigos ferozes de Lula, Zé Dirceu e Palocci.

O mal estar foi até as eleições de 2006, quando a imprensa em coro tentou eleger seu candidato sem escrúpulos. Inventaram pesquisas de opinião, tramaram dossiês, omitiram, quebraram sigilo dos adversários, intimidaram e perseguiram. Sobre tudo isso fui testemunha ocular e posso garantir: foi o maior escândalo midiático da história do país.

Ou vocês acham que, se tudo tivesse corrido na base da legalidade e do bom jornalismo teríamos nomes como Carlos Dorneles, Luiz Carlos Azenha, Luiz Malavolta, Rodrigo Vianna, Luiz Nassif, Paulo Henrique Amorim, Heródoto Barbeiro e tantos outros, hoje, do lado de lá do front?

Mas por que José Alencar na ilustração do post? Foi ele o primeiro a farejar o golpe e cerrar fileiras ao lado de Lula. José Alencar também era alvo de ataques em 2005, porque participou da compra do apoio do PL, nas eleições municipais de 2002.

Curiosamente, depois de morrer, foi bajulado pela imprensa, a mesma imprensa que tramou o golpe anunciado. Talvez por isso a família dele sempre preferiu distância dos políticos, dos bajuladores e principalmente dos abutres da imprensa.

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Comentários

  1. Roberci Postado em 07/Aug/2012 às 00:23

    Logo, deduzo que, para vocês os injustiçados réus deveriam ser premiados com a absolvição, pedidos públicos de desculpas e salario vitalício. E que, sendo do PT e aliados, podem fazer o que quizerem? Ferro neles.

  2. Amarilio Dantas Postado em 07/Aug/2012 às 10:57

    Robercil, Isso é o que deve acontecer com todos aqueles que são injustiçados independente de sua cor partidária, o cara é massacrado e execrado diariamente durante anos sem o direito nenhum de defesa, nada mais justo se inocente cobrar na justiça pelos danos sofridos, ou isso só vale para o outros lado, o lado da mídia e da elite?

  3. Marcos Paulo Postado em 07/Aug/2012 às 13:16

    Ok, o julgamento do mensalão começou. Eu acho que vale a pena colocar alguns pingos nos seus devidos “is”. 1- Sim, julgamento no STF é chato pra cacete. São milhares de páginas de processo e um bando de velho falando. Por isso que dá menos quorum que carnaval. 2- Desista de buscar “cobertura isenta” na imprensa. Ou em qualquer lugar, incluindo a mesa do bar. Isso é virtualmente impossível, posto que todo mundo tem um interesse na vida. - Veja e Carta Capital são dois bons exemplos do que eu disse acima. Demóstenes foi o 2º senador caçado em mais de um século de história e todas as revistas deram capa. A Veja fez uma mera notinha (oh, por que será?). Agora todas dão capa para matérias que analisam o mensalão, um dos julgamentos mais bombásticos da história recente. E a Carta Capital finge que não é com ela, preferindo dar capa para um ataque a um dos juízes do STF (não por acaso, indicado por um ex-presidente que agora é oposição). Ambas prestam um péssimo serviço ao que outrora a gente chamava de jornalismo. 4- Você quer fazer manifestação a favor da condenação de alguém? Boa sorte. Manifestações por aqui causam tanto efeito quanto dar bronca para um bando de panda: ninguém dá bola. E seu eu fosse você não me aliaria a nenhum político em manifestações do tipo. O acusador de hoje pode virar o réu de amanhã. Por aqui é bem comum. 5- Você quer manifestar apoio aos réus? Não faça isso. Eles não precisam da sua ajuda. Eles já têm advogados muito bem pagos para fazer o trabalho. VOCÊ não vai fazer diferença. E eu ficaria envergonhado em apoiar alguém que amanhã pode ser realmente condenado. Tenha motivos além dos ideológicos para defendê-los, pelo menos. - O mensalão não é uma farsa. Não sei ainda o que é, mas algo aconteceu, tá na cara. Deixe que os ministros julguem. Eu, você e seu barbeiro não temos conhecimento para dar muito palpite. Evite filosofar sobre algo que, no fundo, você não domina nem um pouco. 7- Aliás, por favor: se você quiser denunciar a “farsa do mensalão”, fique à vontade. Mas por piedade, use as letras corretas. Farsa é com “s” e não com “ç” como algumas pessoas escreveram por aí. Gostem ou não, esse julgamento precisa ser feito. É um trabalho sujo, chato, mas necessário. Colocar políticos (qualquer um) e empresários na parede faz bem ao país. Pode não dar em nada (bem provável), mas é bom pra assustar o resto da manada.

  4. lilian santos Postado em 24/Aug/2012 às 11:45

    Por favor vamos parar de ilusão, e querer tapar o sol com as mãos, o mensalão exitiu, desde quando não sei,esta sendo julgado, que realmente aconteça a justiça, colocando os verdadeiros culpados na cadeia. Chega de achar que é um assunto midiático e que determinada imprensa manipulou estas informações pra denegrir qualquer pessoa ou partido.Vamos torcer para que seja apurado toda sujeira e mostrar pra sociedade quem são os verdadeiros culpados desta falta de vergonha dos nossos representantes.Espero no futuro um País menos corrupto e mas representantes que tenham vergonha na cara.

  5. Isaac Postado em 28/Oct/2012 às 00:00

    Salsichas, gente, salsichas.

  6. Jânia Paula Postado em 03/Jan/2016 às 12:49

    Desculpe-me, mas uma "investigação [que] mobilizou um conjunto de jornalistas experientes" que conclui "que, apesar da corrupção disseminada, não era possível diferenciar réu, vítima e algoz", ou não foi bem coordenada, ou foi usada para fins partidários (venda de notícias manipuladas). Nossa mídia precisa se modernizar, ser mais técnica, apartidária e ética. Os operadores da mídia tem que parar de se comportar como Raça Ariana, principalmente, alguns (a maioria), tem que deixar de fazer parte de organizações criminosas. Não é possível distinguir uma vitima??? Façam-me o favor!!! Não somos otários!!! Querem usar as investigações para perseguir, assediar, torturar, furtar, retalhar (...) quem??? Temos que acabar com o controle e venda de notícias, temos que ter, além de reprodutores e redatores, estadistas nas redações, não basta escrever direito, tem que fazer conexões e interações para informar direito. Já foi, já era essa coisa de mídia formadora de opiniões...