Luis Soares
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Corrupção 09/May/2012 às 14:24
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Em depoimento à CPI, delegado da Monte Carlo acusa esposa de Roberto Gurgel

Em depoimento à CPI do Cachoeira, o delegado da Polícia Federal Raul Alexandre disse que a decisão de não levar adiante as evidências reunidas na Operação Vegas, em 2009, foi da subprocuradora da República Cláudia Sampaio Marques; ela é esposa do procurador-geral da República, Roberto Gurgel

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Esposa de Roberto Gurgel também seria adepta ao "engavetamento"

O depoimento do delegado federal Raul Alexandre Marques de Souza na CPI do Cachoeira, na noite de terça-feira 8, colocou mais pressão sobre o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e sobre sua mulher, Cláudia Sampaio, subprocuradora da República. Souza foi responsável pela Operação Vegas, que investigou os negócios de Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Sob sigilo, deu indícios, segundo parlamentares do governo e da oposição, de que Gurgel e Cláudia tinham, há três anos, informações sobre o envolvimento de políticos com Cachoeira.

As cobranças mais incisivas contra os procuradores partem da bancada do PT. Antes mesmo do depoimento do delegado Souza na terça, Cândido Vaccarezza (SP) já cobrava explicações de Gurgel, que recusou convite inicial da CPI para conversar com os parlamentares. Após o depoimento de Souza, Vaccarezza fez novas cobranças. “[A omissão] é um fato grave, porque essa quadrilha poderia ter sido desbaratada em 2009 e 2010. Foi preciso outra operação [Monte Carlo], com os mesmos nomes, para que tomássemos conhecimento dos crimes”, disse Vaccarezza. Para o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), “não há nenhuma justificativa para essa demora de três anos” para a procuradoria abrir a investigação contra os parlamentares. “Ele [Gurgel] vai ter de se explicar. Esse depoimento resulta na conclusão de que Gurgel deve depor na CPI”.

Há acusações contra o PT de que as críticas do partido contra Gurgel seriam uma forma de enfraquecer o procurador antes do julgamento do mensalão, previsto para este ano. O depoimento do delegado da Polícia Federal, entretanto, fez até oposicionistas cogitarem a ida de Gurgel e Cláudia à CPI. “O delegado não afirma, mas ficou no ar: o procurador-geral não sabia? Se sabia, por que nada fez?”, disse o deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS). “Talvez seja o caso de chamá-la a depor na CPI, vamos avaliar”, disse Onyx.

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Para Rubens Bueno (PPS-PR), “pareceu ser esse o recado do delegado [de que a procuradoria demorou demais para fazer a denúncia], embora ele não tenha sido explícito”. Outro oposicionista, o senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), mudou de posição após o depoimento de Souza. Antes, dizia que chamar Gurgel para depor seria “abrir o cofre aos bandidos”, pois daria indícios da apuração criminal contra os investigados que vão depor na CPI. Depois, afirmou que a subprocuradora da República Cláudia Sampaio deveria dar explicações aos parlamentares. De acordo com a Folha de S.Paulo, a data exata em que a Procuradoria-Geral da República recebeu informações sobre o envolvimento do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) e dos deputados Sandes Junior (PP-GO) e Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO) com Cachoeira é 15 de setembro de 2009. Reportagem do site Congresso em Foco também afirma que o inquérito da Operação Vegas (comandada pelo delegado Souza) estava com a PGR desde 2009.

Na semana passada, Gurgel recusou o convite feito pelos parlamentares para participar da CPI a convite alegando que “eventual depoimento à comissão poderá futuramente torná-lo impedido para atuar nos inquéritos em curso e ações penais subsequentes.” Se prestar depoimento, diz Gurgel, ele seria testemunha e acusador no mesmo processo caso seja instado a denunciar parlamentares após a conclusão do relatório final da CPI do Cachoeira.

Também na semana passada, o relator da CPI, Odair Cunha (PT-MG), afirmou que Gurgel deixou abertas as portas para um possível depoimento na CPI. Na terça-feira, Cunha afirmou que novas convocações para CPI serão debatidas pelos 32 membros da comissão na próxima reunião administrativa, marcada para o dia 17.

CartaCapital

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Comentários

  1. José Lara Postado em 09/May/2012 às 18:50

    O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, rebateu nesta quarta-feira críticas por não ter pedido abertura de inquérito para investigar as relações do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO). Segundo o procurador, as críticas foram feitas por "pessoas que estão morrendo de medo do julgamento do mensalão". Sem citar nomes, Gurgel disse que é compreensível que pessoas "ligadas a mensaleiros" queiram atacá-lo e também atacar ministros do STF (Supremo Tribunal Federal), que serão responsáveis por julgar o caso do mensalão. "É compreensível que algumas pessoas ligadas a mensaleiros tenham essa postura de querer atacar o procurador-geral --e até atacar ministros do Supremo-- com aquela afirmação falsa de que eu estaria investigando quatro ministros do Supremo Tribunal Federal", disse o procurador. Segundo ele, os ataques sofridos seriam uma "tentativa de imobilizar o procurador-geral da República para que ele não possa atuar como se deve, seja no caso que envolve o senador Demóstenes e todos os seus desdobramentos, seja preparando-se para o julgamento do mensalão, caso que, repito, classifiquei nas alegações finais, como talvez o mais grave atentado à democracia brasileira". Gurgel também disse que os mentores das críticas são, "se não réus, protetores de réus", além de pessoas que já foram alvos do Ministério Público e que agora querem retaliar. Questionado se haveria alguém específico por trás das críticas, ele se limitou a dizer que são "fatos notórios, que independem de prova". "São pessoas que já foram alvo do Ministério Público e ficam querendo, compreensivelmente --é humano--, retaliar. E há outras pessoas com notórias ligações com réus do mensalão", disse. "Agora, minha preocupação é de continuar trabalhando, continuar investigando e de continuar levantar o véu e revelar cada vez mais fatos extremamente graves que estão submetidas também à Comissão Parlamentar, mas que parece mais preocupada com o julgamento do mensalão", finalizou. O procurador-geral também disse que as críticas tem o objetivo de desviar o foco das discussões. Segundo ele, se ele tivesse tomado qualquer atitude em 2009, não teria existido a Operação Monte Carlo e todos os fatos relacionados a autoridades envolvidas não teriam vindo à tona agora. "São pessoas que na verdade aparentemente estão muito pouco preocupadas com as denúncias em si mesmo, desvio de recurso, corrupção, etc, e ficam preocupados com a opção que procurador-geral, como o titular da persecução penal, tomou em 2009, opção essa altamente bem sucedida. Não fosse essa opção nós não teríamos Monte Carlo, não teríamos todos esses fatos que acabaram vindo a tona. Desvio de foco que eu classificaria como no mínimo curioso", afirmou Gurgel. Gurgel aproveitou para criticar o vazamento de informações sigilosas colhidas pela Polícia Federal. "Não há dúvida que esse é um dos casos de vazamento mais escandalosos da história . É preciso que se pare, no país, de achar que o sigilo é pra inglês ver, uma coisa formal".

  2. José Lara Postado em 09/May/2012 às 18:52

    Há de se sopesar

  3. Moderação Postado em 09/May/2012 às 20:26

    José Lara, o discurso de Gurgel soa como uma tentativa de misturar as bolas com o objetivo de desviar o foco para um fato evidenciado: o Procurador-Geral engavetou, sim, todas as denúncias que envolviam o bicheiro Cachoeira e as autoridades que com ele mantinham relações. Isso é incontestável porque consta do inquérito da PF. Enfim, o processo do mensalão é uma outra história, que virá a julgamento agora no STF e não há nada que também impeça este fato. De modo que confundir processos, pessoas, julgamentos e posturas não elimina o fato de que ele continua responsável por arquivar um dos casos mais graves de corrupção, jogo de influências e interesses na história recente deste país

  4. Adilson Postado em 10/May/2012 às 07:27

    Com as vênias de estilo, quero dizer a todos: O Ministro Joaquim Barbosa do STF – relator da Ação Penal 470 (mensalão), já disponibilizou digitalmente a todos os ministros da Suprema Corte, ao Procurador-Geral da República e aos réus o seu relatório. Eis a seguir o link que contém o relatório do relator Joaquim Barbosa: http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/relatorioMensalao.pdf Ao ler o relatório do Ministro Joaquim Barbosa pode-se constatar a manifestação do PRG e dos advogados dos réus, falta apenas o Ministro Barbosa proferir seu voto. Pois o relatório é como se fosse uma síntese dos fatos narrados pelo PRG e a versão apresentada pela defesa. Assim sendo, o Ministro Joaquim Barbosa ao divulgar o seu relatório colocou por terra abaixo o argumento de que ” há uma tentativa de fragilizar o papel do Procurador-Geral por conta do julgamento do mensalão”. O Procurador-Geral já apresentou sua denúncia contra os réus do “mensalão”, em plenário ele falará o que escreveu, ou Gurgel se for convocado para depor na CPMI do Cachoeira vai falar uma versão diferente daquela que o próprio já apresentou e que consta do relatório do Ministro Joaquim Barbosa? Além disso, por qual razão o Procurador depois de falar para o Brasil inteiro com tanta desenvoltura sobre o “mensalão”, Gurgel se recusa a falar numa sala secreta sobre a quadrilha criminosa composta por “empresários”, “políticos” e o PIG. Portanto ao Ministério Público é defeso retardar, cochilar, descuidar, omitir, desvirtuar, dormir, inventar, mancomunar, negligenciar…ou seja, não agir de ofício diante de indícios de crimes, sob pena de cometer crime de prevaricação. Se o Senador Collor estiver correto nas suas afirmações: “Gurgel está procurando políticos e falando à imprensa para não ir depor”, no meu sentir está cometendo um segundo crime, crime de exploração de prestígio, capitulado no CP art. 357 que assevera: Solicitar ou receber dinheiro ou qualquer outra utilidade, a pretexto de influir em juiz, jurado, órgão do Ministério Público, funcionário de justiça, perito, tradutor, intérprete ou testemunha: Pena – reclusão, de um a cinco anos, e multa. EM TEMPO: Prevaricação – É um dos crimes praticados por funcionário público contra a administração em geral que consiste em retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal. A pena prevista é de detenção, de 3 meses a 1 ano, e multa. Veja Art. 319 do Código Penal.