Redação Pragmatismo
Notícias 30/Jan/2026 às 19:52 COMENTÁRIOS
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Cadela comunitária esfaqueada em SP mostra que 'caso Orelha' pode ter sido apenas a ponta do Iceberg

Publicado em 30 Jan, 2026 às 19h52

Cadela comunitária esfaqueada no litoral de São Paulo mostra que 'caso Orelha' pode ter sido apenas a ponta do Iceberg de um sistema de dessensibilização da violência a partir de desafios ao vivo na plataforma 'Discord'. Em apenas uma semana, há registros de mais de 10 cães comunitários mortos ou feridos, sem considerar os casos que não foram documentados

cadela comunitária

por Felipe Borges
para o Pragmatismo Político

A internação de uma cadela comunitária esfaqueada em Praia Grande, no litoral de São Paulo, nesta quinta-feira (29), ampliou o alerta sobre a escalada de violência contra animais no país e reforçou a percepção de que o assassinato do cão Orelha, em Florianópolis, pode não ter sido um episódio isolado. Em apenas uma semana, organizações de proteção animal e ativistas contabilizam mais de dez cães comunitários mortos ou feridos em diferentes regiões — número que não inclui casos que não chegaram a ser registrados oficialmente.

No caso mais recente, a cadela vira-lata conhecida pelos guardas como “caramelo” foi encontrada gravemente ferida nas proximidades da base da Guarda Costeira, na Praia do Canto do Forte. Segundo a prefeitura de Praia Grande, agentes chegaram para assumir o serviço pela manhã e notaram uma mancha de sangue próxima à estrutura. Ao perceberem a ausência do animal — que costumava recepcioná-los diariamente — iniciaram buscas pela área.

A cadela foi localizada embaixo de um contêiner usado para armazenar equipamentos. Ela apresentava múltiplos ferimentos provocados por faca e estava bastante ensanguentada. Os guardas acionaram a Divisão de Controle de População Animal, que prestou os primeiros atendimentos e encaminhou o animal a uma clínica veterinária particular credenciada pela prefeitura. A reportagem apurou que a cadela passou por cirurgia ainda na tarde de quinta-feira e permanece sob cuidados médicos.

A administração municipal informou que imagens das câmeras de monitoramento da orla estão sendo analisadas pelo Centro Integrado de Comando e Operações Especiais (Cicoe), na tentativa de identificar os responsáveis pela agressão.

Um padrão que preocupa

O episódio ocorre poucas semanas após a morte do cão comunitário Orelha, em Florianópolis, um caso que gerou comoção nacional. Orelha, um cachorro de aproximadamente dez anos, conhecido por moradores como dócil e considerado mascote do bairro, foi encontrado agonizando na noite de 4 de janeiro, na Praia Brava — uma área turística de alto padrão da capital catarinense. O animal chegou a ser levado a uma clínica veterinária, mas precisou ser submetido à eutanásia no dia seguinte, em razão da gravidade dos ferimentos.

De acordo com a Polícia Civil, Orelha foi atingido na cabeça com um objeto contundente. A investigação identificou quatro adolescentes como responsáveis pelo ato. Dois deles permanecem em Florianópolis e tiveram celulares e computadores apreendidos para perícia. Os outros dois viajaram para os Estados Unidos logo após o episódio, em uma excursão que a defesa afirma ter sido previamente programada para a Disney. Eles retornaram ao Brasil nesta quinta-feira (29) e devem prestar depoimento nos próximos dias.

Para especialistas, a sucessão de episódios indica algo mais amplo do que crimes isolados. A juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, estuda há anos processos de radicalização de adolescentes e afirma que a violência contra animais tem aparecido como um elemento recorrente em comunidades digitais extremistas.

“Eu teria zero surpresa se, depois da perícia, se concluísse que isso não foi apenas a ação de cinco meninos isolados, mas parte de uma comunidade maior, com liderança, incentivo e busca por status”, afirma a magistrada.

Segundo Cavalieri, práticas de violência extrema, incluindo tortura de animais, têm sido transmitidas e estimuladas em ambientes online, especialmente em plataformas como o Discord, muitas vezes por meio de desafios ao vivo que premiam choque, engajamento e visibilidade.

“As pessoas estão divorciadas da realidade. Elas não têm ideia de que o que aconteceu acontece todas as noites em muitas casas do Brasil”, diz.

Dessensibilização e riscos

Para a juíza, a exposição contínua de crianças e adolescentes a conteúdos extremos contribui para um processo de dessensibilização da violência, no qual atos cruéis deixam de ser percebidos como moralmente inaceitáveis e passam a ser encarados como entretenimento, desafio ou forma de pertencimento a um grupo.

Ela ressalta que muitos dos jovens envolvidos nesses episódios vêm de classes médias e altas, o que desmonta a ideia de que a violência extrema estaria associada apenas à exclusão social. “Há uma combinação perigosa de acesso irrestrito a conteúdos violentos, ausência de supervisão familiar e validação social em ambientes digitais”, afirma.

Ao mesmo tempo, Cavalieri e os advogados dos adolescentes envolvidos no caso Orelha fazem um alerta sobre os riscos da exposição pública dos investigados. A defesa critica a divulgação de nomes, imagens e endereços nas redes sociais, apontando violação ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e o estímulo a um “linchamento virtual”.

A magistrada concorda que a exposição indiscriminada, além de configurar crime, pode produzir efeitos colaterais graves. Segundo ela, esse tipo de reação coletiva reforça o chamado “efeito manada” e pode, paradoxalmente, incentivar novos ataques, ao transformar a violência em espetáculo.

Enquanto as investigações avançam em Santa Catarina e no litoral paulista, o acúmulo de casos levanta uma questão incômoda: a de que a morte de Orelha pode ter sido apenas a face mais visível de um fenômeno silencioso, alimentado pela normalização da crueldade em ambientes digitais e pela incapacidade do Estado, das plataformas e das famílias de reagir à altura.

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