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Notícias 31/Jan/2026 às 18:22 COMENTÁRIOS
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Brasileiros nos EUA pedem ajuda ao governo Lula para voltar: "Estamos desesperados, não há segurança"

Publicado em 31 Jan, 2026 às 18h22

Brasileiros que foram para os EUA "em busca de uma vida melhor" pedem ajuda ao governo brasileiro para retornar. Até mesmo os que estão legalizados dizem que não há segurança, pois influenciadores, agentes e grupos de extrema-direita que dão suporte ao governo Trump tratam todos os estrangeiros como figuras indesejadas

lula da silva

por Felipe Borges

Brasileiros que migraram para os Estados Unidos “em busca de uma vida melhor” têm recorrido ao governo brasileiro para pedir ajuda consular e, em muitos casos, para retornar ao país. O movimento ganhou força nas últimas semanas diante do avanço de operações federais de imigração associadas ao governo Trump, marcadas por abordagens agressivas, mortes de civis e um ambiente de hostilidade generalizada contra estrangeiros — inclusive aqueles em situação legal.

A situação é particularmente tensa em Minneapolis, no estado de Minnesota, onde uma operação conduzida por agentes federais de imigração desencadeou protestos em todo o país após resultar na morte de cidadãos americanos. O clima de apreensão se espalhou rapidamente pela cidade e atingiu de forma direta comunidades imigrantes, entre elas a brasileira, que passou a buscar informações, apoio jurídico e orientação consular diante do aumento das detenções e da sensação de insegurança cotidiana.

Segundo relatos, influenciadores, agentes e grupos de extrema-direita que dão suporte ao governo Trump têm tratado estrangeiros de forma indistinta como figuras indesejadas, criando um ambiente no qual até imigrantes regularizados relatam medo de circular livremente. O receio não se limita à possibilidade de deportação, mas envolve abordagens arbitrárias, uso excessivo da força e a violação de garantias constitucionais.

O endurecimento das políticas migratórias

A professora de Direitos Humanos e cônsul honorária do Brasil em Minnesota, Kathya Cibelle Dawe, que vive nos Estados Unidos há 16 anos, descreve um cenário que rompe com padrões mínimos de previsibilidade institucional. Segundo ela, o medo “vai além de quem não tem documentos” e afeta famílias inteiras, trabalhadores presenciais e estudantes.

“Existe uma tensão permanente. Pessoas que sempre circularam livremente agora pensam duas ou três vezes antes de sair de casa”, afirma. Dawe relata que redes de solidariedade passaram a se formar entre imigrantes e também entre cidadãos americanos, como resposta ao aumento das ações federais.

A operação em Minneapolis foi justificada oficialmente como uma resposta a supostas fraudes em programas sociais envolvendo comunidades somalis. No entanto, Dawe ressalta que esse tipo de investigação não é atribuição principal do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE). Na prática, afirma, o que se tem observado são detenções em massa e ações violentas que culminaram na morte de civis, como Renee Good e Alex Pretti.

Mortes, abusos e violações legais

Nos primeiros dias de 2026, ao menos oito pessoas morreram em confrontos com agentes federais ou sob custódia do ICE, segundo levantamento de veículos internacionais, em meio a protestos e tensões crescentes em cidades como Minneapolis. Os casos se somam ao recorde de 32 mortes sob custódia do ICE em 2025 — o maior número em mais de duas décadas, de acordo com organizações que monitoram detenções relacionadas à imigração.

Além das mortes, há denúncias recorrentes de uso de força letal e de desrespeito a direitos constitucionais básicos, como o devido processo legal e a proteção contra buscas arbitrárias. O gabinete consular brasileiro tem recebido relatos de pessoas detidas sem explicação clara, sem acesso a advogados e impedidas de apresentar documentos, inclusive cidadãos americanos.

“Uma das principais preocupações, tanto do ponto de vista dos direitos humanos quanto da legislação dos Estados Unidos, é a violação do devido processo legal, garantido pela Quinta Emenda”, afirma Dawe. Ela menciona casos de abordagens sem mandado judicial válido e de detenções feitas apesar de o ICE não ter jurisdição sobre os indivíduos.

Em um episódio recente, agentes do ICE arrombaram a porta de uma casa em St. Paul, apontaram armas e algemaram um homem de 56 anos, que foi retirado da residência na neve usando apenas shorts e sandálias. Horas depois, ao constatarem que se tratava de um cidadão americano naturalizado, os agentes o liberaram sem qualquer explicação.

Um memorando interno do ICE, obtido pela agência Associated Press, indica que agentes federais tentam alterar normas para permitir a entrada forçada em residências mesmo sem mandado judicial — uma ruptura com orientações anteriores que buscavam respeitar limites constitucionais.

A controvérsia se intensificou após decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, em setembro de 2025, que autorizou, por 6 votos a 3, o uso de fatores como raça aparente, cor da pele e idioma — incluindo sotaque espanhol — durante abordagens investigativas. A prática, conhecida como perfilamento racial, é alvo de críticas severas.

Para Dawe, tais procedimentos são ilegais ou claramente inconstitucionais. “O ICE aplica leis migratórias federais. Não tem autoridade para avaliar aparência física ou sotaque”, afirma.

Brasileiros entre o medo e a solidariedade

O impacto sobre a comunidade brasileira tem sido direto. Segundo a cônsul honorária, aumentou de forma significativa o número de contatos de brasileiros em pânico após parentes ou amigos serem detidos e transferidos para centros de detenção em estados como Texas e Louisiana. A transferência constante dificulta a localização dos detidos e o acesso de familiares e advogados.

“Muitos brasileiros estão pedindo ajuda para renovar documentos ou até mesmo para voltar ao Brasil, porque simplesmente não veem mais segurança em ficar aqui”, relata.

Ao mesmo tempo, surgem respostas que contrastam com o clima de medo imposto pelas operações federais. Em Minneapolis, grupos comunitários organizam mutirões para arrecadar alimentos, oferecer apoio jurídico e auxiliar imigrantes que evitam sair de casa.

“Essa solidariedade mostra um espírito de acolhimento que contrasta com o clima de medo gerado pelas operações federais”, diz Dawe. Para ela, a mobilização comunitária revela uma sociedade civil que tenta preservar laços humanos e direitos básicos em meio a um cenário de endurecimento político e institucional.

Enquanto o governo federal amplia o cerco, brasileiros e outros imigrantes se veem diante de uma escolha cada vez mais concreta: permanecer em um país onde a legalidade já não garante proteção ou buscar, no retorno ao Brasil, um mínimo de segurança e previsibilidade.

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