Redação Pragmatismo
Mulheres violadas 29/Abr/2022 às 10:09 COMENTÁRIOS
Mulheres violadas

"Nunca vou esquecer de uma menina que chorava, pedia para ele parar", diz vítima de Saul Klein

Publicado em 29 Abr, 2022 às 10h09

Além dos atos de violência sexual relatados pelas vítimas, filho do fundador das Casas Bahia obrigava vítimas a assistir filmes de tortura e estupro infantil. Os abusos repetitivos desencadearam uma série de problemas psíquicos nas vítimas. Uma das jovens foi violentada instantes depois de tentar suicídio: "Eu ainda estava com os pontos". Polícia Civil pediu a prisão do empresário nesta quinta-feira

Saul Klein
Saul Klein

A Polícia Civil de São Paulo indiciou o empresário Saul Klein nesta quinta-feira (28) pelos crimes de organização criminosa, trabalho análogo à escravidão, tráfico de pessoas, estupro, estupro de vulnerável, casa de prostituição, favorecimento à prostituição e falsificação de documento público. Também pediu a prisão preventiva de Klein, o que se estendeu a outras nove pessoas suspeitas de estarem envolvidas nos crimes.

No relatório, a delegada Priscila Camargo ressalta que o inquérito tramita por mais de 15 meses e ainda há um “rol extenso de pessoas a serem indiciadas”, referindo-se às pessoas envolvidas no esquema de aliciamento criado por Saul. O caso é tema central do documentário “Saul Klein e o Império do Abuso”, produzido pelo portal Universa.

Assistente de acusação, a advogada Priscila Pamela dos Santos —que ao lado da também advogada Maíra Recchia representa as 14 vítimas que denunciaram o empresário à Justiça— diz que a decisão da delegada vai ao encontro do entendimento de ambas, que acreditavam ter indícios suficientes nos depoimentos das vítimas.

“O indiciamento traz a devida confiabilidade à palavra das vítimas, uníssonas a respeito dos crimes a que foram submetidas”, afirma Santos. “A delegada, ao analisar os fatos como um todo, compreendeu pela ocorrência dos crimes noticiados e era exatamente o que esperávamos. O inquérito já estava instruído com elementos necessários à sua conclusão e posterior oferecimento de denúncia.”

Agora, o relatório vai para o Ministério Público que, por sua vez, também analisará a investigação e poderá apresentar uma denúncia à Justiça, que a aceitará ou não. No primeiro caso, Saul se torna réu.

Não há previsão de data para um possível julgamento. Se a sentença em primeira instância sair após o empresário completar 70 anos —hoje, ele tem 68— a prescrição máxima, que é de 20 anos, cai pela metade, segundo a lei brasileira. Saul pode beirar os 80 quando for julgado em última instância, mas isso só ocorrerá se a denúncia não prescrever até lá. Caso prescreva, mesmo que seja condenado, não haverá punição.

Se for condenado na esfera criminal, a pena vai variar de acordo com os crimes julgados, e o tempo de prisão pode variar entre dois e 12 anos.

Entenda o caso

Saul é investigado pela polícia desde setembro de 2020, em um processo envolvendo 14 jovens que o denunciaram por estupro, lesão corporal e transmissão de doença venérea, entre outros crimes.

Elas fizeram as primeiras denúncias em setembro de 2020 à promotora de justiça Gabriela Manssur e foram encaminhadas ao projeto Justiceiras, idealizado por ela, sob liderança jurídica da advogada Luciana Terra Villar. As vítimas passaram por acolhimento psicológico e orientação jurídica, e as denúncias foram levadas à Delegacia de Defesa da Mulher de Barueri.

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“Eu tinha 17 anos. Uma mulher atrás de mim tirou meu vestido, me levou para o banheiro, me deu um tubo de xilocaína, me mandou agachar e introduzir o [conteúdo do] tubo no ânus. Fui para o quarto e, ali, ele começou tudo. Quando terminou, eu só chorava. Ele tem uma barriga enorme que pressiona, segura a gente. Ele foi colocando, forçando o sexo anal. Comecei a pedir para parar, e ele não parava. Ele [Saul Klein] não gostava de cortar a unha, pedia para a gente lixar. A unha comprida arranhava. Já cortou menina por dentro”, diz uma das vítimas do empresário.

Uma das vítimas conta que se viu pela primeira vez diante de Saul após ser sondada para uma vaga de trabalho como modelo. No encontro, porém, se deu conta de que o emprego era outro: seria acompanhante de um grande empresário e faria um teste com ele. Mas, mesmo dizendo que não queria e pedindo para ir embora, foi estuprada.

“Assim que saí do quarto dele, a Puca [uma das aliciadoras] veio e disse: ‘Amiga, você passou, ele falou que você é ouro’. Como se ela estivesse me dando estrelinha, dizendo: ‘Você fez o trabalho certo'”, relembra a jovem.

“Eu só chorava. Ela dizia para eu parar de chorar, que ia aumentar meu cachê, falando que eu ia para a casa dele. Falei que não queria ir. Continuava chorando, e ela dizendo: ‘Vou aumentar R$ 1.000’. Nunca tinha visto tanto dinheiro na vida, minha mãe é empregada doméstica”, conta.

Cortar as unhas não era um hábito de Saul, segundo relatam diversas vítimas que frequentavam suas residências. E era com as unhas longas que ele machucava as jovens que iam a suas casas, dizem. “Ele colocava o dedo nas minhas partes íntimas, me machucou”, afirma uma vítima. “Quando isso acontecia, já tinham pomadas lá preparadas para as meninas usarem”, relata outra menina.

Os remédios, segundo as vítimas, eram prescritos pela ginecologista Silvia Petrelli e pelo cirurgião plástico Ailthon Takishima, que frequentavam a casa de Saul para atender às garotas. Eram os médicos também que se responsabilizavam pelos tratamentos de doenças venéreas. Segundo as garotas, Saul ou se recusava a usar camisinha ou dizia que usava um preservativo em gel, vindo dos Estados Unidos. “Todo o mundo lá pegou HPV”, diz uma vítima. “Ele tinha clamídia e queria ter relação mesmo assim”, afirma outra.

A clamídia é uma infecção sexualmente transmissível que pode afetar homens e mulheres, atinge especialmente a uretra e órgãos genitais, mas pode acometer a região anal, a faringe e ser responsável por doenças pulmonares. Além disso, é uma das causas da infertilidade masculina e feminina.

“Às sextas-feiras, ele sempre ficava com uma menina nova, e eu acompanhava eles no quarto. No ato, em que ele estava transando com elas, eu tinha que auxiliar. Nunca vou me esquecer de uma menina que chorava, pedia para ele parar. Eu passava a mão nela, falava para ficar calma, dizendo que estava tudo bem, que logo ia acabar”, relata uma vítima.

Além dos atos de violência sexual relatados pelas vítimas, outras situações também as faziam se sentir intimidadas e agredidas sexualmente, mesmo quando não havia contato. “Ele queria assistir a filme de estupro infantil, de tortura, era muito intimidador. Todos do esquema sabiam que as meninas que entrassem lá não vinham de uma família rica, que seriam intimidadas. Ele sabe o alvo que quer”, lembra outra vítima.

“Ele quis ter relações depois que tentei me matar”

“Um dia, falei para a Deia [aliciadora que trabalhava com Saul] que queria me matar, não estava bem. O médico [Ailthon Takishima] estava passando e perguntou: ‘Como assim?’. Me passou o meu primeiro antidepressivo. Um cirurgião plástico”, diz uma das vítimas.

“Tive a primeira overdose de medicamentos. Cortei o pulso, levei 12 pontos. Quando cheguei em casa do hospital, no meu celular tinha um monte de ligação da Marta [Gomes da Silva, apontada por vítimas e por Saul como cabeça do esquema]. Ela disse que eu precisava vir para São Paulo, que o Saul queria me ver. E eu vim. Ele fez sexo comigo com os pontos, sabendo que eu tinha acabado de tentar suicídio, que estava com depressão. Mas diziam que ele era tão bonzinho, que estava preocupado comigo. Eu acreditava”.

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