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Eleições 2022 27/Dez/2021 às 05:48 COMENTÁRIOS
Eleições 2022

Mexeu com o Alckmin, mexeu comigo

Publicado em 27 Dez, 2021 às 05h48

Há em favor de Alckmin, nessa avaliação de superfícies, a percepção de que é uma figura acessível, autêntica e educada. Pode não significar nada em tempos de normalidade, mas é muito em tempos de ódios, grosserias e incivilidades

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Imagem: Ricardo Stuckert

Moisés Mendes*, em seu blog

Arranjem seus argumentos para acolher Geraldo Alckmin e gritar seu nome em 2022 no palanque com Lula. Tenho os meus pretextos pessoais, intransferíveis e, por causa do momento, terrivelmente natalinos.

Primeiro, confesso que me agradam muito os políticos de centro. Sem eles, a redemocratização teria sido muito mais demorada e traumática.

Gosto de amigos, parentes, vizinhos e colegas de centro. Participo de uma confraria em que metade dos confrades são de centro-direita.

São algumas das pessoas mais adoráveis e solidárias que conheço. Interioranos, gaúchos fronteiriços, genuínos. Não são bolsonaristas, nem foram golpistas.

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Alckmin se parece com alguns deles e isso é meio caminho andado para que eu possa assimilá-lo sem constrangimentos. Sim, é uma questão pessoal, mas bem inserida na questão política.

Segundo, e agora vem a questão política de fato, aprecio a opção Alckmin porque fui sensibilizado há muitos anos pela tese de Renato Janine Ribeiro.

O Brasil poderia começar um projeto de salvação a partir da convergência de forças dos tucanos democratas (nem precisa ser social-democrata) com o PT, os outros partidos de esquerda e o que ainda existe de aproveitável no MDB.

Se essa conexão tivesse acontecido, como ele pregava, há mais de 10 anos, Bolsonaro, a ascensão dos milicianos, a volta dos militares, tudo isso que está aí teria ficado no ovo.

O golpe contra Dilma não foi dado pelo mesmo centro que abriga Alckmin, mas pelos 300 picaretas, pelo centrão, pelo Brasil arcaico e pelas milícias. O centro só aderiu, no final, porque a onda o arrastou.

Nas circunstâncias brasileiras de 2018, por falta de um centro vigoroso, Bolsonaro conseguiu ser o que Jose Antonio Kast tentou e não conseguiu ser no Chile, Manini Rios tentou no Uruguai, Keiko Fujimori no Peru, Luis Fernando Macho Camacho na Bolívia.

Bolsonaro é a criatura das cavernas do fascismo que sai à luz pela degradação política do centro, depois de oito eleições perdidas (contando primeiro e segundo turnos) e frustrações que se tornaram insuportáveis, bem no momento em que o líder deles era um medíocre do porte de Aécio Neves.

Políticos de centro existem para, levando bordoadas de todo lado, cuidar das mediações que justificam suas existências como centristas. É difícil fingir-se de centro por muito tempo sem ser desmascarado.

São em menor número do que na ditadura, mas eles estão por aí. Por isso Alckmin deve ser saudado, com seu conservadorismo de costumes, o estigma de que não interfere no colesterol de ninguém e a sua história tucana sem máculas.

Alckmin pode inspirar outros movimentos de gente com índole semelhante, como os dissidentes da ditadura fizeram a partir de 68. Não precisam ficar ao redor de Lula, mas que se despluguem de quem está muito perto da extrema direita.

E o terceiro motivo para me entusiasmar com Alckmin é o mais pessoal e o mais singelo de todos. É a sua capacidade de ser inspirador de cordialidades, nesse mundo da política tomado pelas grosserias de civis e fardados.

Conto um episódio

No segundo turno de 2006, quando enfrentou Lula, Alckmin votou e saía do Colégio Santo Américo, no Morumbi, em direção à rua.

Mais de 10 fotógrafos o cercavam enquanto caminhava no pátio. Era uma presença física ostensiva e nervosa de uma turma sempre competitiva.

Me aproximei dele e me apresentei. Quando a conversa iria engrenar, um dos fotógrafos caiu sobre um colega e outros foram caindo. Formou-se no chão uma pirâmide-entrevero de gritos, chutes e empurrões. Foram apartados como se aparta briga de cachorro.

Desisti da entrevista e caminhamos até o portão. Pouco antes de entrar no carro, percebi que Alckmin olhava para os lados. Estava a uns seis ou sete metros. Procurou, me achou, fez um sinal com a mão e disse:

Gaúcho.

Eu era um jornalista da periferia, apenas um gaúcho. Confirmava-se para mim o que mais se sobressai nele, o jeito de caipira de Pindamonhangaba preocupado em ser educado e prestativo com todos, incluindo um jornalista que ele nunca tinha visto.

É assim que o imagino quando guri, nos anos 70, quando os líderes do MBD da cidade estavam atrás de novos nomes para fortalecer a oposição numa cidade ultraconservadora.

O então prefeito João Antonio Salgado Ribeiro me contou a descoberta de Alckmin pelas raposas de Pinda.

Minha conversa com o prefeito aconteceu pouco antes da eleição, quando fui à cidade com a missão de escrever para Zero Hora o perfil do tucano trabalhador que havia espalhado o PSDB por São Paulo e pretendia vencer Lula.

Me lembro do prédio da prefeitura caindo aos pedaços (nunca vi um prédio público tão degradado), da conversa numa sala com paredes descascadas e de Ribeiro admitindo: o preferido para fazer carreira não era ele, mas um colega dele, mais carismático e assertivo.

Mas Alckmin apareceu junto com o preferido, foi crescendo e também foi no fim quem mais prosperou, elegendo-se vereador e mais tarde prefeito com apenas 24 anos. Ninguém se lembra do outro.

Há em favor de Alckmin, nessa avaliação de superfícies, a percepção de que é uma figura acessível, autêntica e educada. Pode não significar nada em tempos de normalidade, mas é muito em tempos de ódios, grosserias e incivilidades.

O perfil pessoal de Alckmin, e não o de Lula, é o contrário do que são os perfis ogros de Bolsonaro, Sergio Moro e todos os representantes da extrema direita, assumidos ou dissimulados, que estão ou já passaram pelo poder fascista que destrói o país. Lula é outro departamento.

O aviso está dado: mexeu com Alckmin, mexeu comigo.

*Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre. Foi colunista e editor especial de Zero Hora. Escreve também para os jornais Extra Classe, Jornalistas pela Democracia e Brasil 247. É autor do livro de crônicas ‘Todos querem ser Mujica’ (Editora Diadorim).

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