Redação Pragmatismo
Mundo 08/Jan/2020 às 12:35 COMENTÁRIOS
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Vladimir Putin exibe sua influência no Oriente Médio em plena crise entre Irã e EUA

Publicado em 08 Jan, 2020 às 12h35

Em Damasco, Putin exibe sua influência em plena escalada de tensão no Oriente Médio. Líder russo se reúne com Assad, aliado do Irã, e visita tropas mobilizadas por Moscou na Síria

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Putin em encontro com Assad (divulgação)

María Sahuquillo, El País

O presidente russo, Vladimir Putin, viajou nesta terça-feira de surpresa a Damasco, e se reuniu com o líder sírio, Bashar al-Assad.

Putin — que em 2015 mobilizou sua Força Aérea na Síria — aproveitou para visitar um dos quartéis russos no país árabe, coincidindo com a escalada de tensão entre o Irã, um dos aliados do regime de Assad, e Washington depois do assassinato no Iraque do general iraniano Qasem Soleimani por um drone norte-americano.

Os EUA mantêm uma base no leste de Síria com 600 soldados, o que faz desse país outro foco de turbulências.

Putin, cujo apoio a Assad foi decisivo na guerra síria e que se tornou uma potência e árbitro na zona, não viajava ao país desde 2017, quando visitou tropas russas na base de Khmeimim para anunciar uma paulatina volta para casa, que depois não se concretizou.

Nesta ocasião, que coincide com as celebrações do Natal ortodoxo, o líder russo visitou a sede do grupo das Forças Armadas do país na capital síria. Lá, presenciou um desfile militar e foi recebido por Assad, segundo o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.

“Os dois líderes ouviram relatórios militares sobre várias regiões do país”, acrescentou Peskov. Putin estava acompanhado do seu ministro da Defesa, Serguei Shoigu, segundo as imagens divulgadas pela agência estatal de notícias síria SANA. As tropas sírias e russas estão envolvidas em uma ofensiva aérea e terrestre na província de Idlib (noroeste), último bastião da oposição no país, controlada pelos jihadistas do grupo Hayat Tahrir al Sham.

O patrocínio russo e iraniano foi crucial para ajudar Assad a recuperar quase todo o território das mãos dos insurgentes que tentaram derrubá-lo durante a guerra civil que começou há quase nove anos e deixou mais de 400.000 mortos, 5,7 milhões de refugiados e 6,2 milhões de deslocados.

Em 2012, as tropas regulares sírias tinham perdido 55% do território; em 2020, com o pacto selado em outubro passado com as tropas curdo-sírias sob o patrocínio de Moscou — depois da ofensiva turca desencadeada pelo anúncio da retirada de tropas dos EUA —, já recuperaram 90%.

Durante a reunião desta terça-feira, o líder russo mencionou a Assad os “progressos imensos” do país. “Putin afirmou que agora podemos dizer com confiança que se percorreu uma grande distância para restaurar o Estado sírio e a integridade territorial do país”, comentou o porta-voz do Kremlin, citado pela agência estatal Tass.

A viagem do presidente russo à capital síria em um momento de grandes turbulências na região é toda uma demonstração de influência, embora alguns analistas, como Nawar Oliver, do centro de estudos Omran de Istambul, afirmem que já estava prevista anteriormente.

O líder russo não se limitou a visitar suas tropas e a se reunir com Assad. Ele também compareceu com o presidente sírio à Grande Mesquita de Damasco e à Igreja Ortodoxa da Santíssima Virgem Maria.

Unidos por Damasco, mas sem serem chamados de aliados, Teerã e Moscou se tornarão competidores por seus interesses econômicos em uma futura era de reconstrução síria.

“Os russos tentaram conter o expansionismo iraniano na Síria, mas o Irã conseguiu se infiltrar nas estruturas militares sírias com as milícias locais que treinou. Agora tenta ganhar o apoio da sociedade síria e aumentar sua popularidade nas áreas em que está presente”, diz o especialista Oliver em uma conversa por telefone.

Putin, que está fazendo uma complexa dança diplomática na região para expandir e defender os interesses russos, já assinou um acordo pelo qual al-Assad concedeu à Rússia direitos exclusivos para a produção de gás e petróleo. É na competição pela futura exploração e transporte dos recursos do setor petrolífero que os especialistas preveem que as divergências entre a Rússia e o Irã na era pós-Estado Islâmico se acentuarão.

Depois de visitar Damasco, Putin viajou para Istambul, onde se reunirá na quarta-feira com seu colega turco, Recep Tayyip Erdogan, um dos grandes rivais de Al Assad e outro ator fundamental no tabuleiro regional. Nessa cidade Putin participará da ativação do gasoduto Turk Stream, que transportará combustível russo para a Turquia através do Mar Negro.

Os últimos acontecimentos também atingem a Síria e seus aliados. Os analistas temem o impacto do assassinato do general Soleimani na Síria. No nordeste do país o rio Eufrates tornou-se a linha divisória entre as zonas de influência que o Irã mantém junto às tropas regulares sírias ao sul; e os EUA juntamente com as milícias curdo-sírias na margem norte. Nas últimas 72 horas ambos os atores movimentaram suas tropas.

Os EUA reforçaram duas bases militares na província de Deir Ezzor. Depois de anunciar uma retirada da Síria, a Administração Donald Trump decidiu reforçar sua presença em Al Omar, onde estão as mais importantes reservas petrolíferas da Síria. Enquanto isso, Teerã está evacuando sua sede militar em Abu Kamal (cidade síria na fronteira com o Iraque) e bases periféricas por medo de possíveis bombardeios nos EUA, segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos.

General assassinado era figura-chave no tabuleiro sírio

Aliados dos Assad há décadas, Irã e Rússia desempenharam um papel complementar em seu apoio ao Exército regular sírio. Teerã apoiou o governo de Assad em 2012 enviando tropas terrestres.

A Rússia — que também defende seu único acesso ao Mar Mediterrâneo — o fez em 2015, fornecendo um apoio aéreo decisivo. Teerã ficou encarregado do sistema de milícias que exportou à Síria, como ponta de lança nas ofensivas terrestres; e Moscou foi responsável pelos bombardeios internos e pelo sistema defensivo externo.

Foi precisamente Soleimani o artífice e ideólogo das forças paramilitares pró-iranianas — entre 30.000 e 50.000 milicianos paquistaneses, iraquianos, afegãos e libaneses — que em 2012 combateram na Síria para suprir a falta de efetivos de seu Exército regular. Depois de treinar milícias e tropas sírias, Teerã retirou grande parte de seus combatentes estrangeiros, incluindo milicianos do Hezbollah na Síria, segundo fontes próximas ao partido-milícia libanês.

Vestido de uniforme, Soleimani supervisionou pessoalmente a expulsão em 2017 do autodenominado Estado Islâmico de Abu Kamal, uma importante cidade fronteiriça com o Iraque, determinante não apenas para restaurar o comércio entre os dois países, mas também estratégica na rota terrestre de abastecimento que liga o chamado “eixo da resistência” do Irã ao Líbano, passando pelo Iraque e pela Síria.

O papel do general iraniano foi tão decisivo que seu rosto está presente em abrigos de ponto de ônibus na Síria ao lado de outros aliados de Damasco, como Putin e o líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah. Soleimani tinha acabado de chegar ao Iraque vindo da Síria por terra quando o ataque de um drone norte-americano o matou nas imediações do aeroporto de Bagdá.

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