Redação Pragmatismo
Cultura 18/Nov/2019 às 20:15 COMENTÁRIOS
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Filme bolsonarista e série esdrúxula são autorizados a captar milhões via lei Rouanet

Publicado em 18 Nov, 2019 às 20h15

Filme pró-Bolsonaro e seriado emburrecedor rejeitado por historiadores e pesquisadores são autorizados a captar milhões via lei Rouanet

Mauro Donato, DCM

Prepare-se. Aquele cunhado cheio de convicções surrealistas e certezas esdrúxulas vai continuar torrando sua paciência. E quem estará pagando a conta é você mesmo.

Pode estar vindo aí a segunda temporada da série Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil.

Baseada no livro de Leandro Narloch, a primeira temporada – transmitida em 2017 pelo History Channel – teve fuga em massa de historiadores e pesquisadores respeitados quando souberam de que se tratava.

E por que é você quem paga? Porque assim como na primeira, a segunda temporada também teve autorização para captação de recursos via lei de incentivo.

Exatamente, veja como o mundo é injusto. Aquele cunhado que saliva quando fala da lei Rouanet e considera esse tipo de iniciativa um estímulo à vadiagem e fonte de renda para o Chico Buarque, vai acumular novos argumentos ‘comprovados’ para debater no almoço de domingo pois ele viu no History Channel.

O Guia Politicamente Incorreto II está autorizado a captar, até 2021, a quantia de R$ 1.784.795,07 (processo 01416.003317/2018-16 que pode ser consultado aqui).

É um pouco menos do que os R$ 1.895.710,00 que a agência autorizou para a primeira temporada, mas a julgar pela sinopse de apresentação do projeto a pegada continuará a mesma.

“Segunda temporada da série de história do Brasil exibida em 2017 no History Channel. A segunda temporada contará com 8 episódios de história do Brasil, América Latina e Mundo; sempre sob o ponto de vista nacional. Como nós, brasileiros, entendemos e reagimos aos eventos históricos do nosso mundo? Como isso nos afetou e ajudou a construir a nação que somos hoje. A série continuará contando com a comunicação visual moderna e animações dinâmicas que atraem o público que mais deve se interessar pelo Brasil: o jovem. O apresentador da série é o youtuber Felipe Castanhari, jovem que tem mais de 10 milhões de seguidores e aborda temas de interesse geral, sempre com respeito e responsabilidade no conteúdo. A história do Brasil sempre foi muito mal tratada, e agora com essa nova linguagem pensamos poder atingir o maior número de brasileiros interessados. Sempre com leveza, bom humor, e responsabilidade acima de tudo.”

Bem, na apresentação da primeira temporada, o próprio Felipe Castanhari admitiu que seria arriscado falar sobre o autor da obra que servia de base para a série:

“Será que não é melhor não falar do Narloch?”, disse o youtuber simulando um making off. Era uma confissão jocosa sobre o fato de nenhum dos participantes ter sido informado previamente.

Após o primeiro episódio ir ao ar, nomes consagrados como Laurentino Gomes, Mary Del Priore, Isabel Lustosa, Lilia Schwarcz e Lira Neto entraram em contato com o canal e pediram que seus depoimentos não mais fossem utilizados.

É que o livro de Narloch é do tipo pega-trouxa, voltado para o leitor que não possui nem senso crítico nem conhecimentos mínimos. Ele faz o que se convenciona chamar de ‘releitura’, sem constrangimento algum de distorcer fatos, contando uma pseudo-história e reforçando preconceitos.

Assim, descontextualizado, até Zumbi dos Palmares vira um escravocrata nas páginas de Narloch. A comunidade acadêmica rejeitou participar da patifaria.

É aquele tipo de narrativa sob encomenda para quem sai repetindo que o nazismo foi um movimento de esquerda, gente que bota fé que a Lava Jato era contra a corrupção, que Sergio Moro é ilibado e que Bolsonaro não tem nada a ver com milicianos.

Gente que crê que o óleo derramado nas praias é culpa do PT, que peixe é inteligente, e que acredita em ‘jornalistas’ como Augusto Nunes e se escandaliza com a notícia dada por ele de que Lula – esse cruel comunista – não visitou o túmulo de dona Marisa após deixar a prisão… sendo que ela foi cremada.

Enfim, não é pouca gente.

O inusitado nisso tudo, é que essa audiência é composta pela parcela da sociedade que se diz contrária às leis como a Rouanet. Entretanto, o filme “Nem Tudo se Desfaz”, que conta a ascensão do bolsonarismo, foi autorizado a captar R$ 530 mil (ainda que Bolsonaro tenha feito tipo e dito que desaconselhava, em agosto a Ancine liberou).

Ou seja, a agência está impedida pelo governo de apoiar filmes com temática LGBT, mas um documentário chapa-branca, dirigido por Josias Teófilo (o mesmo diretor de “O Jardim das Aflições”, sobre Olavo de Carvalho) e um seriado emburrecedor recebem ok.

Enquanto isso, a estreia do filme sobre Marighella, que seria depois de amanhã, continua suspensa (saiba mais). É censura, não há outra definição.

“Nem tudo se desfaz”: Filme pró-Bolsonaro captou R$ 530 mil via lei Rouanet. Seriado baseado em livro de Narloch tem aprovação para captação de recursos. Valor somado das produções ultrapassa marca dos milhões

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