Redação Pragmatismo
Justiça 04/Sep/2019 às 15:45 COMENTÁRIOS

Empresária que deu dinheiro a Dallagnol escapou de ser condenada na Lava Jato

Em novos diálogos, Deltan Dallagnol refere-se a amiga de Eike Batista e de Andre Esteves como “investidora anjo”. Por conta de generosa doação, ela acabou poupada de denúncia

Jornal GGN

No dia 12 de agosto, o Intercept Brasil divulgou uma reportagem mostrando que o coordenador da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol, atuou como diretor informal do “Instituto Mude – Chega de Corrupção”, organização não-governamental que nasceu primeiro para coletar assinaturas em favor das dez medidas contra a corrupção.

Nesta segunda-feira (2), em parceria com a Agência Pública, o Intercept divulga uma nova matéria mostrando que Dallagnol também atuou diretamente para levar grandes empresários a financiarem o Mude, um deles a empresária Patricia Tendrick Pires Coelho, dona da Asgaard Navegação S.A., que fornece navios para a Petrobras.

A empresária já atuou como consultora de Eike Batista. Inclusive seu nome foi citado em alguns jornais, quando, em outubro de 2013, sugeriu para Eike sacar 100 milhões de dólares no BTG Pactual. A retirada do montante foi barrada pessoalmente pelo fundador do BTG, André Esteves. Patrícia é ainda ex-executiva do banco Opportunity, do famoso Daniel Dantas.

O nome de Patrícia Coelho surge nos diálogos trocados entre integrantes do Mude e Dallagnol como “investidora anjo” no dia 29 de julho de 2016. Nas mensagens, o procurador diz que conheceu a empresária em uma viagem, sem dizer para onde estava indo.

“Caramba. Essa viagem de ontem foi de Deus. Além dela, estava um deputado federal que se comprometeu a apoiar rs”, escreveu.

*Os textos das mensagens foram mantidos como no original, sem qualquer tipo de correção ou alteração.

O nome do “deputado federal”, que também foi encontrado na viagem, não é citado na conversa feita no chat do Telegram. O valor doado pela empresária foi de R$ 1 milhão para o Mude.

Alguns meses depois da mensagem de Dallagnol, um dos fundadores do instituto, Hadler Martins, escreveu em 29 de agosto de 2016:

“Talvez vocês já tenham feito isso mas sobre nossa investidora anjo, dei uma boa pesquisada sobre seu histórico e realmente ela parece ser uma grande empresária multimilionária e com grande trânsito com grandes empresários nacionais. Hoje ela é sócia de empresa de frotas de navios (Aasgard) e de mineração e portos (Mlog). Algumas coisas que me chamaram atenção: – sua empresa fornece navios para a Petrobras; – ela é ex-banco Opportunity (famoso Daniel Dantas) – ela foi ou é muito próxima do Eike Batista e também do André Esteves (BTG)”.

Dallagnol ignorou o comentário. No dia 8 de setembro, o procurador, juntamente com outros integrantes do Mude, incluindo Hadler, o pastor Marcos Ferreira, Fábio Oliveira e Patrícia Fehrmann, se encontraram com Patrícia Coelho no Rio de Janeiro.

No dia 11 daquele mesmo mês, Hadler voltou a levantar preocupações. “Sobre nossa reunião com o Anjo, ainda estou com uma pulga atrás da orelha tentando entender a razão do apoio financeiro tão generoso (sendo cético no momento). “Me pergunto se ela quer ‘ficar bem’ com o MPF por alguma razão… Ela já foi conselheira do Eike e pelo que li dela, ela o representa em algumas negociações. Sugestão: fiquemos atentos. Desculpem o provérbio católico, mas quando a esmola é demais, o santo desconfia…”.

Em seguida ele enviou ao grupo o link de a reportagem da revista Exame “Eike tenta sacar uns US$ 100 milhões, mas André barra”, mostrando a relação entre Patrícia Coelho e o empresário.

Deltan teve que responder dessa vez: “Boa Hadler. Mais cedo ou mais tarde descobriremos isso”. Segundo a reportagem Pública-Intercept, minutos depois, o procurador chamou em particular, e também por mensagem, o colega da força-tarefa da Lava jato Roberson Pozzobon.

11 de setembro de 2016 – chat privado

Deltan Dallagnol – 19:45:26 – Robito é essa Patrícia Coelho que vai investir pesado no MUDE. 
Deltan Dallagnol – 19:45:26 – https://exame.abril.com.br/negocios/eike-tenta-sacar-us-100-milhoes-mas-andre-esteves-barra
Deltan Dallagnol – 19:45:42 – Não batemos em nada dela, confirma?
Roberson Pozzobon – 20:11:31 – Vixxe, fiquei preocupado agora
Roberson Pozzobon – 20:11:51 – Não chegamos nela não Delta, mas se tratando de Eike não duvido de nada
Roberson Pozzobon – 20:12:17 – A técnica preferida dele é a cooptação
Deltan Dallagnol – 20:20:16 – Acho que seria prudente rodar uma pesquisa nela e nas empresas dela… pela empresa, ASGAARD, dá para achar o nome dela, Patrícia Coelho, e então as empresas dela e fazer a pesquisa… Vc roda?
Deltan Dallagnol – 20:21:24 – Ela está investindo 1MM no Mude. Não é algo de que se possa abrir mão se ela não estiver enrolada. Por outro lado, se estiver, não queremos chegar perto dela e o MUDE não vai querer, certamente, nenhum aporte vindo daí

No dia 25 de outubro de 2017, Dallagnol, envia outra mensagem para o grupo do Mude atualizando informações sobre Patrícia Coelho:

“Caros, uma notícia ruim agora, mas que não quero que desanime Vcs. A Patricia Coelho apareceu numa petição nossa e me ligou. Ela disse que tinha sociedade com o grego Kotronakis (um grego que apareceu num esquema de afretamentos da petrobras e que foi alvo de operação nossa), mas ele tinha só 1% e ela alega que jamais teria transferido valores pra ele… Falei que somos 13, cada um cuida de certos casos, que desconheço o caso e que a orientação geral que damos para todos que procuram é: se não tem nada de errado, não tem com o que se preocupar; se tem, melhor procurar um advogado rs. Ouvindo sobre o caso superficialmente, não posso afirmar que ela esteve envolvida ou que será alvo, mas há sinais ruins. É possível que ela não tenha feito nada de errado, mas talvez seja melhor evitar novas relações com ela ou a empresa dela, por cautela”, disse.

“Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto, sede prudentes como as serpentes e simples como as pombas”, completou.

Hadler respondeu: “Delta, sobre essa questão, lembro bem como apesar de estarmos felizes com o apoio que estávamos recebendo à época, ficamos com um pé atrás. Especialmente por prestar serviços à petro e por ter sido sócia do Eike. Essa notícia não chega a nos surpreender e também não nos desanima. Obrigado por compartilhar!”.

Mais tarde, em julho de 2019, a força-tarefa da Lava Jato abriu uma denúncia envolvendo a Asgaard Navegação S. A., mas curiosamente Patrícia Coelho não foi envolvida, apenas sócios dela na empresa, o ex-senador pelo PMDB Ney Suassuna e Georgios Kotronakis – filho do ex-cônsul honorário da Grécia no Rio de Janeiro, Konstantinos Kotronakis.

A acusação aberta pelos membros do MPF era do envolvimento de todos eles em um esquema de contratos de afretamento de navios celebrados pela Petrobras com armadores gregos. Ainda segundo a reportagem Pública-Intercept, o grupo estava sendo investigado desde 2015 e, de acordo com o MPF, a primeira menção à Asgaard ou a Patrícia ocorreu em 19 de abril de 2019, quando se verificou que um dos investigados estava ligado a um dos dois nomes.

Os procuradores da Lava Jato dizem que o ex-senador Ney Suassuna “realizou reunião na Petrobras com Paulo Roberto Costa para cooptar o então Diretor de Abastecimento da Petrobras, expondo as intenções e colhendo cenários para obtenção de contratos de afretamento”. A peça de acusação é assinada por Deltan e 15 procuradores da República e, apesar de relacionar o nome da empresária ao de Ney Suassuna, não coloca Patrícia Coelho como alvo da denúncia.

Ainda segundo a acusação, “os contratos que constituíram Ney Suassuna como sócio oculto de Patricia Tendrich Pires Coelho na Asgaard Navegação S/A e nas outras sociedades correlacionadas, correlatas, coligadas, controladas e/ou subsidiárias, ele era referido como potencial e efetivo captador de negócios e angariador de clientes”.

A reportagem lembra que, em 2 de maio de 2014, a Petrobras selecionou a Asgaard Navegação S. A. na sexta rodada do terceiro Programa de Renovação da Frota de Embarcações de Apoio Marítimo (Prorefam). O contrato celebrado tem duração de oito anos, prorrogáveis pelo mesmo período, para a construção de seis embarcações de apoio marítimo.

Na época em que o contrato foi assinado, a Asgaard se encontrava em situação financeira delicada e os contratos com a Petrobras equivaleriam a 60% do seu faturamento.

“De acordo com a acusação, Ney Suassuna se associou a Patrícia Coelho para que ambos se tornassem investidores do Grupo Superpesa, que atuava nas áreas de movimentação rodoviária e marítima de cargas superpesadas, construção e instalação de dutos e equipamentos submarinos, construção de embarcações, navegação de apoio marítimo, operação de terminal marítimo e aluguel de maquinário”, escrevem Aline Maciel e Bruna de Lara, que assinam a matéria Pública/Intercept.

“Segundo os procuradores, Ney Suassuna e Patrícia Coelho, diretamente ou por meio de suas pessoas jurídicas, acordaram com o Grupo Superpesa o aporte de valores milionários na empresa. Patrícia assumiu a vice-presidência do Conselho de Administração e a diretoria do grupo e sua outra empresa, Voga Empreendimentos e Participações Ltda., foi contratada para prestar consultoria à Superpesa”, completam.

Na denúncia, os procuradores apontaram também: “Nesse contexto, cumpre destacar duas medidas adotadas por Ney Suassuna e Patricia Tendrich para tentar salvar o Grupo Superpesa: i. foram recrutados os serviços de Jorge Luz e Bruno Luz, os quais possuíam amplo acesso ao alto escalão da Petrobras (principal cliente do Grupo Superpesa) e, como é sabido hoje, valiam-se da prática de crimes de corrupção e lavagem de dinheiro para conseguir alavancar negócios dentro da estatal; e ii. foram estabelecidas tratativas para captação de investimento do armador grego Tsakos Energy Navigation”.

Atraindo grandes empresários

A reportagem destaca ainda a atuação direta de Deltan Dallagnol para captar recursos de empresários, além de promover palestras para arrecadar recursos ao Instituto Mude.

“Caros acho que vou conseguir uma reunião do Flavio bilionário evangélico do WizeUp com o MUDE”, escreveu no dia 3 de março de 2017. No dia 30 de abril, ele disse que estava agendando um café da manhã com o empresário para 18 de maio: “Caros, estou agendando café da manhã com o Flávio do wise-up para o dia 18/5. Ele vai mudar a data da volta dele para estar conosco. Quem pode ir? Têm sugestão de lugar? Importante preparar algo bacana pra apresentar a ele”.

No dia 7 de setembro de 2016, a co-fundadora do Mude, Patricia Fehrmann, escreveu em um chat:

“Olha a Rosangela Lyra na área gente: Oi Patricia acho que consegui 2 mega hiper Empresários, nao querem ver a palestra necessariamente mas dar um alo para Deltan, e seria importante ter alguem do Mude junto pra explicar rapidamente o que precisamos, eles nao gostam de “perder” tempo entao precisa ser objetivo e rapido ok?”

“Ela está falando sobre terça na Casa do Saber”, completou Fehrmann. A resposta de Deltan à reunião com os empresários foi “bora”.

Rosangela Lyra é empresária e ex-sócia da Dior no Brasil e a palestra citada aconteceu no dia 13 de setembro de 2016, na Casa do Saber, em São Paulo.

No mesmo dia da palestra, Deltan voltou ao grupo e escreveu: “hoje um mega empresário veio falar comigo no aeroporto, um cara de SC com nome diferente. Passei meu e teu tel Pati. Falei pra ele te contatar. Ele tinha uma empresa que acabou de vender com sede em múltiplos Estados, uns 250 funcionários….”.

Ainda no mesmo dia, porém mais tarde, o procurador da Lava Jato prosseguiu: “Pati passei seu contato para um dono de shoppings (Paulo) e pro dono do coco bambu”. No chat, Dallagnol destacou também que poderia conseguir recursos de um empresário da Opus Dei e pediu para os membros do Instituto se reunirem na sede da Procuradoria para discutirem as linhas de atuação do Mude.

Neste momento, Hadler ponderou sobre riscos à imagem de Deltan se o encontro acontecesse e na sede da Procuradoria.

A reportagem Pública/Intercept destaca que o Código de Ética e de Conduta do Ministério Público da União veda aos servidores do Ministério Público da União “utilizar bens do patrimônio institucional para atendimento de atividades de interesse”.

O documento, assinado em setembro de 2017 pelo então procurador-geral da República Rodrigo Janot, diz ainda que os procuradores devem “atuar com imparcialidade no desempenho das atribuições funcionais, não permitindo que convicções de ordem político-partidária, religiosa ou ideológica afetem sua isenção”.

Nas trocas de mensagens analisadas descobre-se também que, Dallagnol usou a sede da Procuradoria em São Paulo para se reunir com empresários convidados pelo Instituto Mude.

“Oi Grazi prazer! para quarta dia 09 temos cerca de 10 empresários de grandes empresas confirmados. Convidados do movimento Mude. Na procuradoria 14h com Dr Deltan. Mas ele disse que podemos ter até 20”, escreveu Patricia Fahermann no dia 7 de maio de 2018, completando que a assessora da organização “passou uma lista de pessoas que ele poderia aproveitar a oportunidade de falar”.

*Clique aqui para ler a matéria publicada na Agência Pública na íntegra.

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