Redação Pragmatismo
Capitalismo 01/May/2019 às 12:04 COMENTÁRIOS

Morreu na contramão atrapalhando o desfile da São Paulo Fashion Week

Seu nome era Tales Cotta Soares. A Morte não faz despencar bolsas. Nem a Bovespa dos quatrocentões nem a Prada das quatrocentonas. Estamos muito, muito doentes

são paulo fashion week
Jovem modelo de 26 anos morreu na São Paulo Fashion Week (Imagem: Reprodução/Instagram/Ultrajano)

No último domingo, 28 de Abril, o modelo Tales Cotta Soares, 26 anos de idade, teve um mal súbito enquanto desfilava para a marca Ocksa no evento de moda São Paulo Fashion Week.

Horas depois, mesmo com a confirmação do seu falecimento, a organização, as marcas e demais envolvidos decidiram pela continuidade do cronograma de desfiles, observando-se um minuto de silêncio na abertura de cada um.

A marca Cavalera encerrou o evento com um desfile que trouxe modelos trans e não binários. Estava escalada ainda uma performance do rapper Rico Dalasam. De posse do microfone, Rico fez um protesto contra a continuidade do evento a despeito da morte de Tales Cotta.

VÍDEO:

Em sua página no Facebook, o escritor Ricardo Domeneck escreveu o seguinte texto sobre o episódio:

Esta semana um rapaz de 26 anos, que trabalhava como modelo, despencou em si, de si, caiu em plena passarela da São Paulo Fashion Week. Foi sim prontamente socorrido, ainda que inutilmente.

Não era a velha Cacilda Becker tendo um derrame ainda vestida de Estragon em uma encenação de ‘Waiting for Godot’, não era Ayrton Senna esbugalhando-se em TV aberta contra um muro, era um rapaz que alugava de forma legítima seu corpo para as roupas da nova moda, dizia-se “manequim” antigamente, um manequim, nós manequins sobre os quais colocamos roupas, maquiagens, manequim: o rapaz despencou em si, caiu de si, morreu.

Está morto. Seu nome era Tales Soares. A Morte não faz despencar bolsas. Nem a Bovespa dos quatrocentões nem a Prada das quatrocentonas.

O desfile seguiu. Não. Não apenas seguiu. Foi reiniciado para que a plateia pudesse ter a experiência do desfile tal qual fora planejado, sem aquela interferência inoportuna da morte.

Estamos todos muito, muito doentes.

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Comentários

  1. chichano goncalvez Postado em 06/Jul/2019 às 00:39

    Até quando chegaremos ? A era da barbarie ? Muitas perguntas e nenhuma resposta.

  2. Mone Postado em 06/Jul/2019 às 00:39

    Estamos muito doentes , o mundo vai mal

  3. Apocalipsis 13 Postado em 06/Jul/2019 às 00:39

    O que esperar de um evento que celebra e fomenta a ostentação e a futilidade?

  4. Jaqueline Lopes Lago Queiroz d Postado em 06/Jul/2019 às 00:39

    Isso nos remete a outro absurdo, o caso da menina Gabriela, que morreu no parque de diversões Hoppi Hari em 2012, por ter caído de um dos brinquedos. No dia seguinte o parque abriu as portas normalmente, como se nada tivesse acontecido. Lembro que na ocasião fiquei chocada. Estamos sim, muito doentes. E não é de hoje.

  5. Eduarda vieira Postado em 05/Jul/2019 às 16:36

    Legal o texto. Seria melhor ainda se vc tivesse pesquisado a veracidade das informações citadas com quem realmente estava lá, e não com mídias sensacionalistas. Porq em primeiro lugar o spfw disse que ele estava bem q so tinha passado mal e estava sendo cuidado, por isso o desfile foi reiniciado. Eu estava lá, eu abri o desfile. 20m depois tds disseram sobre a morte, um dos fatos é q a maioria q estava desfilando era amigo dele é óbvio q ninguem reiniciaria se soubesse q ele corria risco de morte, principalmente a marca q considera ele muito. Antes de filosofar vão atrás das informações correta

  6. Roberto Pedroso Postado em 05/Jul/2019 às 16:36

    Senhoras e senhores eis o capitalismo!!! sistema que não se importa e nem se emociona e muito menos sente empatia/apreço pela vida humana, assim é na industria da moda assim é em toda a escala da cadeia produtiva,a vida senhores nesse sistema importa pouco,muito pouco, quase nada.

  7. Claiton Luiz Machado Postado em 05/Jul/2019 às 16:36

    Show de texto , expôs, ,a hipocrisia dos desfiles e donos das marcas..

  8. Lucia Ayello Postado em 05/Jul/2019 às 16:36

    O texto, cru e nu, está perfeito. A vida nada vale, e a morte... bem, a morte não importa.