Redação Pragmatismo
Mulheres violadas 10/May/2019 às 15:11 COMENTÁRIOS

Médico quase mata a companheira após ela decidir pela separação

"Nunca mais serei a mesma". Vítima chegou ao hospital com corte profundo no pescoço, levou cinco pontos no rosto e tratou hematomas por todo o corpo. O caso foi registrado como lesão corporal, mas ela espera que seja convertido em tentativa de feminicídio

Jéssica Piel de Oliveira
Jéssica Piel de Oliveira, antes e depois das agressões

Jéssica Piel de Oliveira, de 27 anos, foi vítima de violência doméstica no último dia 15 de abril em Caxias do Sul (RS). O agressor é o médico Guido Luiz Gehrke Júnior, seu ex-companheiro.

Tudo começou quando a jovem descobriu a infidelidade de Guido. Eles viviam em união estável há um ano e quatro meses e Jéssica anunciou sua vontade de colocar um ponto final no relacionamento.

“Ele marcou de tomar vinho com uma representante de laboratório no hotel dela. Nas mensagens, disse que não poderia chegar em casa antes da meia-noite ‘porque não podia acostumar mal a esposa’. Quando eu questionei sobre as mensagens que eu tinha visto, disse que não tiraria mais o DIU para termos filhos. Esse era um plano nosso. Eu estava com consulta marcada para dali a uma semana”, revelou Jéssica.

“Discutimos, mas ele pediu desculpas e combinamos que retomaríamos nossa vida normal no dia seguinte. Fomos ambos trabalhar normalmente, mas, quando voltei para casa, estava decidida a terminar. Não aceitando o rompimento da nossa relação, ele deu início às agressões físicas. Acredito que os vizinhos escutaram e preferiram não intervir. Senti medo, pânico e certeza de que ele me mataria”, contou a vítima.

“Após as agressões, ele fugiu. Fui socorrida por familiares. A polícia chegou à nossa casa, me acompanhou até a delegacia e depois fui até o hospital para receber os primeiros socorros. Resolvi denunciar porque eu sabia que ele tentaria me calar com dinheiro, poderia arruinar minha vida profissional ou mandar alguém me matar. Ele sempre foi uma pessoa com muita influência, sempre conseguiu tudo o que queria com dinheiro”, afirmou.

Jéssica chegou ao Hospital Virvi Ramos com um corte profundo no pescoço, levou cinco pontos no rosto e tratou hematomas por todo o corpo. O caso foi registrado como lesão corporal, mas Jessica espera que seja convertido em tentativa de feminicídio.

“A nossa relação era boa, mas ele era uma pessoa controladora, ciumenta, possessiva, mas nunca achei que se tornaria alguém agressivo a esse ponto. Sempre achei que o ciúme era insegurança dele por eu ser 18 anos mais nova”, disse a jovem.

Tentando preservar a si mesma, Jéssica decidiu expor o caso nas redes sociais e recebeu o apoio de amigos, mulheres e até de outras vítimas de Guido.

“Depois que postei a primeira foto mostrando as agressões, comecei a receber relatos de várias outras mulheres, vítimas dele, narrando situações que aconteceram e não foram denunciadas. Infelizmente ter dinheiro, uma profissão respeitável e contatos influentes poderia ser o suficiente para fazer mais um ato cruel desaparecer. Ele calou quatro mulheres com ameaças. Elas, por medo, nunca denunciaram. Mas eu sabia que morreria se fizesse silêncio”.

A jovem acredita que nunca mais será a mesma pessoa depois de ter sido vítima de violência doméstica. “Não saio mais sozinha, estou sempre alerta. Aviso às pessoas de confiança para onde vou e quanto tempo pretendo demorar. Depois de ter passado por isso, essa dor não vai se apagar.”

Ajuda

Jéssica trabalha como extensionista de cílios e recebeu apoio da Patrulha Maria da Penha. Ela procurou a delegacia da Mulher após as agressões em busca de proteção. A exposição do seu caso nas redes sociais foi importante porque o agressor continua em liberdade.

“A violência doméstica está em todos os lugares, em todas as classes sociais, em todos os grupos, ninguém, nem uma mulher está livre disso. Não tem um perfil de agressor, tanto pessoa com escolaridade “rico”, como sem escolaridade “pobre”, não tem uma regra. Eu vou gritar e tentarei ajudar as outras vítimas mulheres dele que não denunciaram”, disse.

Apesar dos traumas, Jéssica tenta retomar a vida com a filha de 4 anos, enquanto espera a conclusão do inquérito policial. Em nota, o advogado de Guido Luiz Gehrke Júnior afirma que o seu cliente é a verdadeira vítima.

“Guido foi agredido com um bastão de hóquei que somente não pôs em risco sua vida por não ter atingido áreas letais”, explica o advogado do médico. Diante da manifestação do advogado, Jéssica afirma que estava apenas lutando para sobreviver.

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