Redação Pragmatismo
Política Externa 14/Jan/2019 às 13:08 COMENTÁRIOS
Política Externa

Como Itália e Bolívia driblaram o governo brasileiro no caso Battisti

Publicado em 14 Jan, 2019 às 13h08

Chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno garantiu que Cesare Batitsti faria escala no Brasil antes de ser extraditado para a Itália. Um avião chegou a ser enviado para a Bolívia. Autoridades brasileiras queriam foto ao lado do italiano

cesare battisti chega itália
Battisti desembarca na Itália (Imagem: Max Rossi/Reuters)

Depois de horas de informações desencontradas, o governo brasileiro foi obrigado a admitir que o italiano Cesare Battisti seguiria diretamente da Bolívia, onde foi preso nesse sábado (12), para a Itália, onde cumprirá sua pena.

A Polícia Federal chegou a enviar um avião para buscá-lo. A aeronave, porém, voltou para casa sem ele. Ele foi entregue a autoridades italianas no início da noite de domingo (13) no aeroporto de Viru Viru, em Santa Cruz de la Sierra.

“O Brasil ofereceu facilitar o embarque pelo território nacional e devido à urgência foi encaminhada uma aeronave da Polícia Federal brasileira à Bolívia. No entanto, optou-se pelo envio direto do prisioneiro à Itália”, diz nota conjunta dos ministérios da Justiça e Segurança Pública e das Relações Exteriores, sem detalhar os motivos.

O chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, anunciou ontem que Battisti faria escala no Brasil antes de ser extraditado para a Itália.

Mais cedo, o primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, chegou a informar que um avião do governo italiano estava a caminho da Bolívia para buscar Cesare Battisti.

Heleno, no entanto, reafirmou que Battisti seria trazido para o Brasil num avião da Polícia Federal e trocaria de aeronave antes de seguir para a Itália. Heleno justificou que o avião que buscaria o italiano na Bolívia não tinha capacidade de voar até a Europa.

Na verdade, interlocutores afirmam que havia grande expectativa do governo brasileiro de exibir Cesare Battisti como um troféu antes de enviá-lo à Itália.

Esse era um anseio pessoal do presidente Jair Bolsonaro (PSL). A intenção do Planalto era trazer Battisti à Brasília para ser antes fotografado com as autoridades brasileiras, incluindo o presidente da República.

A extradição do italiano era uma das bandeiras do presidente Jair Bolsonaro. Neste domingo (13), pelo Twitter, o presidente comemorou a captura do fugitivo e fustigou o PT, partido que deu apoio a ele em sua passagem pelo Brasil.

SAIBA MAIS: O que a mídia brasileira não publicou sobre Cesare Battisti

Drible

Desde que o atual governo tomou posse, o Ministério de Relações Exteriores (MRE) se vê cercado por episódios controversos. Um deles foi o impasse da exoneração do então presidente da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex), Alecxandro Carreiro, na semana passada.

A demissão foi anunciada pelo ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, mas, segundo Carreiro, o único que poderia exonerá-lo seria o presidente – que o fez horas depois.

Outro assunto que tem colocado a pasta sob os holofotes é a possibilidade de o Brasil abandonar o Acordo de Paris, mesmo com votos contrários como o do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles.

Seja como for, já está certa a extinção da Subsecretaria-Geral de Meio ambiente, Energia, Ciências e Tecnologia, que comandava a divisão de Mudança Climática, no MRE.

Portanto, a extradição de Battisti parecia ser a oportunidade ideal para que o Itamaraty e a Justiça (que tem enfrentado uma crise de segurança nos estados, em especial no Ceará) mudassem o rumo das manchetes.

O presidente boliviano Evo Morales, por sua vez, se reposiciona politicamente com a prisão do italiano. Morales busca em 2019 seu quarto mandato como presidente, e tenta não se indispor politicamente com o novo governo brasileiro. O trunfo de eficiência na prisão de Battisti ninguém tira dele.

Se quisesse, Evo Morales, o primeiro indígena a presidir a Bolívia, poderia ter concedido asilo político a Battisti. Mas ele não quis. O italiano chegou a pedir asilo político por escrito à Bolívia.

Ao entregar Battisti ao governo de direita da Itália, Morales reforça seus laços com a Comunidade Econômica Europeia, ao mesmo tempo em que fica bem com o recém-instalado governo de direita do Brasil.

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