Redação Pragmatismo
Mulheres violadas 21/Nov/2018 às 21:00 COMENTÁRIOS

A história não contada do ex-diplomata flagrado espancando atriz

As cenas de espancamento da atriz Cristiane Machado por seu marido, Sergio Thompson-Flores, disse muito sobre a violência doméstica, mas pouco falou do agressor. Empresário coleciona negócios controversos que vão de documentos furtados a trabalho escravo, de relacionamento com espião a calote em banco

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Sergio Schiller Thompson-Flores na cerimônia de casamento com Cristiane Machado (reprodução)

Marcelo Menna Barreto, ExtraClasse

As cenas de espancamento da atriz global Cristiane Machado por seu marido, o empresário e ex-diplomata Sergio Schiller Thompson-Flores apresentadas neste domingo, 18, no programa Fantástico, da Rede Globo, disse muito sobre a violência doméstica e os riscos de feminicídio, que só cresce no país, mas pouco falou do agressor.

Diretor da Agência Financiadora de Inovação e Pesquisa (Finep) no governo Collor de Mello, Thompson-Flores coleciona negócios controversos que vão de documentos furtados a trabalho escravo, de relacionamento com espião a calote em banco estatal.

Em dezembro de 2002, no meio da acirrada disputa entre a empresa Gazeta Mercantil, responsável por jornal de mesmo nome, e o empresário Nelson Tanure que solicitava a penhora da editora, o ex-diplomata acabou sendo envolvido.

Em ação do processo, documentos que teriam sido furtados da Gazeta Mercantil foram apreendidos na residência e no escritório de Thompson-Flores.

Até março daquele ano, Thompson-Flores trabalhava como administrador da Gazeta Mercantil para a família Levy, proprietária da publicação e após desentendimento, passou a prestar serviços para Tanure, então proprietário do Jornal do Brasil.

Sede de sangue e escândalo de espionagem

O jornalista Luis Nassif registra em artigo de 2014 um pouco do perfil do executivo Thompson-Flores:

Funcionário público de carreira, nos anos 90, ele foi beneficiado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento (Bndes), no governo de Fernando Henrique Cardoso, com consultoria na área de privatização. Ganhou dinheiro e sede de sangue. Depois disso, meteu-se em várias embrulhadas sempre buscando a bala de prata, a grande jogada. Jamais se contentou com o trabalho normal de fazer crescer sua empresa”, afirmou o jornalista.

Nassif ao citar por alto o caso da Gazeta Mercantil, ainda declarou que Thompson-Flores “é um ex-diplomata que enriqueceu com privatizações e tentou seguir os passos de Nelson Tanure, de entrar na mídia como reforço para manobras de lobby”.

O português Tiago Verdial, acusado de ter feito monitoramento ilegal de autoridades e de ter corrompido servidores da Receita Federal, da Policia Federal e da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), quando preso em junho de 2004 pela PF trouxe à tona outra faceta de Thompson-Flores, a de funcionário da Kroll, líder global em consultoria empresarial de riscos e investigações corporativas.

Com seu nome descoberto em um CD em posse de Verdial, no jargão da comunidade de inteligência “com a casa caindo”, Thompson-Flores assumiu prestar serviços para a empresa sediada em Nova Yorque e com ramificações no mundo inteiro.

Era a Operação Chacal que investigava atos de espionagem supostamente contratados por executivos da Telecom Itália e o banqueiro Daniel Dantas onde figuravam autoridades do governo brasileiro, como os, na época, ministro da Secretaria de Comunicação do Governo Luiz Inárcio Lula da Silva, Luiz Gushiken, e o presidente do Banco do Brasil, Cássio Casseb. A operação foi arquivada por falta de provas.

Falência e empréstimo não pago

De olho em uma grande oportunidade, no início da febre do etanol, Thompson-Flores estruturou um fundo de investimentos com sede em Londres para captar recursos e comprar usinas antigas.

Segundo o jornalista Luis Nassif, “captou dinheiro de incautos para um projeto amalucado”, pois o problema não seria o fato das usinas serem antigas, mas situadas em regiões economicamente inviáveis. Foi a criação da Infinity Bio-Energy que não chegou a durar quatro anos, mas deixou um estrago considerável no estado do Espírito Santo.

Segundo o jornalista Paulo Cesar Dutra, no jornal ES Hoje, com a decretação da falência da Infinity Bio-Energy em julho de 2017, o Banco do Estado do Espírito Santo (Banestes) “perdeu no ‘Golpe das Tampinhas’”, onde “nele se ganha ou nele se perde”.

O jornalista capixaba, seguindo sua analogia com o famoso jogo de azar denuncia que o banco estatal “levantou a ‘tampinha’ errada e perdeu R$ 57 milhões emprestados sem nenhuma garantia para os ‘aventureiros do etanol’, exímios jogadores de tampinhas”.

A cifra, atualizada pelo Extra Classe, chegaria hoje a cerca de R$ 185 milhões e, de acordo com o jornalista, começou a ser desperdiçada no dia 3 de março de 2007, na Residência Oficial do Governo do Estado, “onde o representante do Infinity, o executivo Sérgio Thompson-Flores, recebido com tapete vermelho pelo governador Paulo Hartung e assessores, destacou que encontrou no Espírito Santo um ‘ambiente fértil’ para a realização de investimentos e disse, sorrindo: “aqui encontramos vantagens competitivas e um Governo local com seriedade e competência, que possibilita a concretização desse empreendimento, com responsabilidade social e ambiental”.

Na realidade, ainda conforme o jornalista, “o Infinity ganhou na maior moleza R$ 57 milhões, sem fazer nenhum gasto, porque tudo foi pago pelo anfitrião” e, ao contrário das promessas de desenvolvimento, o que chegou lá foi apenas o desenvolvimento da falência das usinas de etanol e da quebradeira dos fornecedores.

Trabalho escravo

Mas antes do calote no Banestes e da quebradeira na cadeia de fornecedores, a empresa de Thompson-Flores deixou suspeitas de outra marca que envergonha o Brasil, o trabalho análogo à escravidão e somente acabou não sendo inserida na “Lista Suja” do Ministério do Trabalho e Emprego em julho de 2011 por intervenção da 20ª Vara do Trabalho do Distrito Federal.

Surpreendido pela liminar concedida para suspender o resgate de trabalhadores em condição análoga à de escravo em uma fazenda de cana da Infinity no município de Naviraí, Estado do Mato Grosso do Sul, o procurador do trabalho, Jonas Ratier Moreno, que acompanhava a operação chegou a declarar na época que a Justiça ignorou o laudo técnico que apontava as condições degradantes que fundamentaram a interdição das frentes de trabalho em sua decisão.

Os trabalhadores estavam uns farrapos. A empresa não oferecia nem cobertores diante do frio”, afirmou.

Ao todo, 817 pessoas – das quais 542 migrantes de Minas Gerais e Pernambuco e 275 indígenas de diversas etnias – segundo o procurador estavam submetidas a condições degradantes de serviço.

Na ocasião, a coordenadora da operação, Camilla Bemergui, lembrava que a Infinity já havia sido inserida na “Lista Suja”. Em dezembro de 2010, a empresa passou a figurar nessa base de dados por conta de uma libertação de 64 trabalhadores em outra usina de cana do grupo, em Conceição da Barra (ES).

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