Redação Pragmatismo
Educação 23/Nov/2018 às 17:11 COMENTÁRIOS

José Saramago e outros autores que seriam banidos pelo 'Escola sem Partido'

Alguns autores expressivos e de relevância incontestável seriam banidos caso já estivesse em vigor o texto do projeto Escola sem Partido

escola sem partido saramago paulo freire milton santos
Saramago, Paulo Freire e Milton Santos

Apelidado de “Lei da Mordaça”, o projeto Escola sem Partido pode ser aprovado no Congresso Nacional nos próximos dias com o apoio da bancada conservadora.

Apesar do nome ‘sem partido’, a proposta é patrocinada por partidos políticos como o DEM, PSL, PSC e outras siglas que integram o chamado ‘centrão’.

Segundo Leandro Karnal, professor da Unicamp, o projeto é a expressão máxima da ignorância humana.

“É uma asneira sem tamanho, uma bobagem conservadora, de gente que não é formada na área e que decide ter uma ideia absurda, que é substituir o que eles imaginam que seja uma ideologia por outra ideologia. É uma crença fantasiosa de uma direita delirante e absurdamente estúpida de que a escola forme a cabeça das pessoas e que esses jovens saem líderes sindicais”, descreveu Karnal.

“Os jovens têm sua própria opinião. Os jovens não são massa de manobra. Toda a opinião é política, inclusive a ‘escola sem partido’. A demonização da política é a pior herança da ditadura militar, que além de matar seres humanos, ainda provocou na educação um dano que vai se arrastar por mais algumas décadas”, continuou o professor.

Caso já estivesse em vigor, alguns autores clássicos poderiam ser banidos com base no que determina o texto do ‘Escola sem Partido’.

José Saramago — Prêmio Nobel de Literatura, o escritor português é autor de obras como ‘Ensaio sobre a Cegueira’, ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’ e ‘Intermitências da Morte’. Militante histórico do Partido Comunista Português, a veia política do autor é um de seus destaques.

Embora seja lembrado pelo flerte com o socialismo, Saramago foi um dos principais críticos da esquerda. “Antes gostávamos de dizer que a direita era estúpida, mas hoje em dia não conheço nada mais estúpido que a esquerda”, afirmou em 2007, 2 anos antes de morrer.

Em um dos artigos publicados pelo site da Escola sem Partido, Saramago é descrito como “um autor sem nenhuma preocupação metafísica, antirreligioso, anticatólico, marxista de carteirinha, defensor de ditaduras comunistas e de regimes populistas e demagógicos”.

Antonio Gramsci — Autor italiano, Antonio Gramsci foi um dos grandes defensores de uma transformação social por meio de uma mudança da mentalidade das pessoas. Para isso, ele dizia que só as escolas eram espaço no qual o cidadão pleno poderia ser formado, pois por meio da educação as pessoas poderiam construir sua visão de mundo.

Cofundador do Partido Comunista Italiano, o autor, entretanto, é uma das principais influências do teórico do liberalismo Giovanni Arrighi e de Norberto Bobbio, defensor da social democracia e crítico de Marx. No Brasil, um de seus seguidores foi Paulo Freire, que colocou em prática as ideias do autor italiano.

Para o movimento, porém, a técnica de Gramsci pode ser usada para emburrecer os estudantes. É isto o que argumenta um dos vídeos publicados na plataforma da Escola sem Partido. Para o grupo, foi com Gramsci que os socialistas perceberam a distância de uma revolução armada e resolveram dominar a cultura.

Paulo Freire — Patrono da educação brasileira, Paulo Freire seria um dos primeiros a serem banidos das escolas se a Escola sem Partido estivesse em vigor. Autor do principal método de combate ao analfabetismo usado no Brasil, no qual se usam palavras do cotidiano para ensinar os alunos, o educador foi responsável pelo processo de alfabetização de milhares de pessoas na década de 1960.

Uma das principais queixas de Freire era a de que as escolas tradicionais não deixavam os alunos pensarem. Eles eram apenas repositórios do conhecimento. O fato e o viés de esquerda acabou pesando contra o autor. Simpatizantes da Escola sem Partido citam a obra ‘Pedagogia do Oprimido’ para justificar as críticas. Para eles, há no método do educador uma estratégia socialista.

Karl Marx — O alemão Karl Marx, responsável pela origem do termo marxismo e um dos autores do Manifesto do Partido Comunista, é um dos fundadores da Sociologia. O estudo das ciências sociais é fundamentado em termos e conceitos do autor cunhados em obras como ‘O Capital’ e ‘A Ideologia Alemã’.

Apesar de ser um dos principais nomes para a esquerda, no campo da ciência, Marx foi responsável por termos usados e estudados também por pensadores liberais, assim como outro fundador da Sociologia, o alemão Max Weber.

Marx trouxe para o campo da política moderna a interpretação econômica da História. Para defensores da Escola sem Partido, entretanto, as ideias de Marx têm contaminado o ensino na rede pública.

Milton Santos — Único brasileiro vencedor do Prêmio Vautrin Lud, o Nobel de Geografia, Milton Santos ficou conhecido por ter sido um dos grandes questionadores do processo de globalização na década de 1990. Ele é autor de um dos grandes clássicos mundiais da Geografia ‘O Espaço dividido’, publicado em 1979, no qual aborda a economia urbana nos países subdesenvolvidos.

O problema é que o escritor segue a corrente de estudos da teoria marxista e é um dos grandes críticos ao capitalismo. E para os simpatizantes da Escola sem Partido, ele é ideólogo.

com informações de HuffPost Brasil

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook

Comentários