Redação Pragmatismo
Arte 31/Aug/2018 às 13:19 COMENTÁRIOS

Prefeitura de Maringá apaga grafitti com crítica social

Obra pintada pelo artista Paulo Ito numa das laterais do Ginásio Valdir Pinheiro, na Vila Olímpica de Maringá, estava inserida no projeto proposto por Marcelo Goto no 2º Encontro de Graffiti de Maringá

Prefeitura de Maringá apaga grafitti

Jessica de Moraes, MaringáPost

Um dos murais em graffiti feitos por 20 artistas no encerramento do “2º Encontro de Graffiti de Maringá”, no sábado (18) e domingo (19) passados, nas paredes do Ginásio de Esportes Valdir Pinheiro, amanheceu esta segunda-feira (20/8) apagado. O trabalho censurado é do artista paulistano Paulo Ito, que tem obras pintadas em vários países.

O evento foi um dos contemplados pelo Edital Aniceto Matti, financiado pela secretaria municipal de Cultura. Em entrevista à Rede Massa, um servidor da secretaria de Esportes, órgão responsável pelo ginásio, justificou a tinta escura sobre o desenho dizendo que “a pintura é inconveniente devido ao momento eleitoral”.

O grafite apagado reproduzia três situações de agressão, uma contra a mulher, outra contra um negro e a terceira contra um adolescente, com as frases “É melhor já ir se acostumando” e “Contém ironia”, numa alusão ao candidato a presidente da República Jair Bolsonaro (PSL), que nas redes sociais tem feito declarações consideradas preconceituosas, racistas, machistas e em defesa da ditadura militar.

O artista, por sua vez, gravou um vídeo tecendo comentários sobre o “apagão”:

– Muitos que se incomodaram com a pintura que eu fiz, são eleitores do candidato, só que, o que pintei, está presente no discurso dele. Por que quando ele fala, não incomoda nada e quando alguém pinta é tão incômodo? Quando ao senhor Piaza, a arte não é decoração. Em nenhum lugar do edital está escrito que ela tinha que ser bonita.

Piaza seria o nome do servidor que concedeu entrevista à Rede Massa, que não figura no quadro de diretores do órgão. Continua Paulo Ito, que costuma retratar, muitas vezes com frases que levam à reflexões, situações de miséria, política, estilo de vida, violência contra a mulheres, que moram nas periferias:

– Muitas vezes a arte é incômoda sim. E quanto a chamar outro artista, pode ser que o muro, do jeito que está, incomode mais do que ele pintado. Senhor Piaza, tem que chamar outra pessoa para fazer essa seleção, porque o senhor é do Esporte, e não da Cultura.

O caso ganhou repercussão e o Conselho Municipal de Cultura, segundo seu presidente, Tiago Valenciano, “vai fazer uma carta de repúdio e solicitar informações à secretaria de Cultura de porque o mural foi apagado. Estamos indo com um pouco de cautela. No dia 27 teremos uma reunião do Conselho e na ocasião discutiremos mais a fundo”.

O projeto chamado “2º Encontro de Graffiti de Maringá” foi elaborado por Marcelo Goto e trouxe à cidade artistas de diversos lugares do país. Paulo Ito chegou a postar em sua página oficial do Facebook que estava em Maringá participando do encontro.

Marcelo Goto, organizador do evento, não foi encontrado. Foi pedido para retornar, mas não retornaram.

A Prefeitura de Maringá divulgou uma nota oficial

A obra pintada pelo artista Paulo Ito numa das laterais do Ginásio Valdir Pinheiro, na Vila Olímpica de Maringá, estava inserida no projeto proposto por Marcelo Goto, beneficiado pelo Prêmio Aniceto Matti de 2017.

O projeto previa organização do II Encontro de Graffiti de Maringá, realizado entre os dias 17 e 19 de agosto. Entre as atividades, estava a mostra de grafite com 20 obras de 20 artistas de relevância nacional. Telas para as obras seriam as laterais do ginásio.

Paulo Ito é reconhecido não apenas pelo talento do traço, mas principalmente pela crítica social e política que imprime em seus grafites”.

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