Delmar Bertuol
Colaborador(a)
Esquerda 06/Jul/2018 às 12:14 COMENTÁRIOS

Manuela rodou no Roda Viva

Manuela rodou no Roda Viva D’Avila pcdob Bolsonaro eleições 2018

Delmar Bertuol*, Pragmatismo Político

Assisti à “entrevista” que a pré-candidata à Presidência pelo PC do B, Manuela D’Avila, concedeu ao ex-bom programa Roda Viva.

Não assisti à sabatina ao vivo na segunda dia 25 de junho. O fiz quase uma semana depois, no YouTube. Tive tempo, então, de ler algumas críticas à postura dos perguntadores, fato que me fez colocar entre aspas o caráter entrevistador do programa.

Um dos questionadores é um dos responsáveis pela campanha do Jair Bolsonaro. Nada contra a presença do contraditório. Sobretudo num programa que já deu, palavras do próprio entrevistado, uma ajuda ao Fora Temer, quando ele lá esteve. Mas a conferir se os outros sabatinados terão de enfrentar pessoas assumidamente de antagônica ideologia ou mesmo de quem faz campanha a adversário.

É verdade que a Manuela foi interrompida diversas vezes (falam em sessenta, pelo menos. Não contei. Mas a deselegância foi explícita). Porém, também é verdade que, muitas vezes, ela tergiversou. Vou além. Ela perdeu oportunidade de dar boas respostas a pensamentos banais e superficiais, que beiram o senso comum e deturpam mediocremente a ideia que a população tem de esquerda, socialismo, comunismo e outros conceitos desse campo político.

Frederico D’Ávila, ligado ao agronegócio e o citado coordenador Bolsonete, acusou a CLT (que a Manuela defende em confronto à “Reforma” Trabalhista) de ser um documento fascista, já que cópia da carta Del Lavoro, da Itália de Mussolini.

Nem eu entendi como a Manuela respondeu ao ataque à mais importante legislação protetiva dos trabalhadores. E a réplica, afinal, poderia ser bem simples. A CLT é boa? É excelente! É o que importa. Lamentável que ela tenha sido pensada num contexto fascista, como era o Estado Novo, de Getúlio Vargas. Mas isso não a deslegitima. Pelo contrário. Ela é um entretanto num período autoritário e de perseguições, inclusive aos sindicatos dos trabalhadores.

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Depois foi a vez de insistirem com a história do Comunismo no mundo e no Brasil e também do próprio PC do B. Lembraram que os partidos comunistas estiveram ao lado de violentos governos com essa pretensão de regime. É legítima a provocação, assim como a esquerda brasileira lembra a origem ditatorial dalguns partidos. Não havia motivo pra incomodação com o questionamento. Ora, o globo vivia o contexto da maniqueísta Guerra Fria. Os agentes políticos e os próprios governos deveriam escolher um lado. Quem apoiou a revolução soviete, indiretamente e à revelia concordou com excessos. E quem optou pelo capitalismo representado pelos Estados Unidos, nas mesmas condições que os outros, concordaram com a matança de milhares de inocentes no Vietnã, por exemplo. E, antes disso, o “capitalismo brasileiro”, a nossa Ditadura, perseguiu, expulsou, torturou e matou também milhares. O Bolsonaro reverencia a Ditadura, ela poderia lembrar.

A Queda do Muro de Berlim, no já longínquo 1989, foi justamente uma tentativa de mudar os sangrentos rumos. A candidata cobrou que se falasse de hoje, mas deixou sem resposta os seus debatedores (vamos falar às claras. Não eram entrevistadores), o que os motivou a continuarem com perguntas nessa linha, já que perceberam o mal-estar da convidada.

Ainda sobre muro, Manuela ficou sobre ele quando perguntada sobre o governo de Nicolás Maduro. Claramente ela o defende. Mas novamente fugiu do tema. Pior do que defender algo abominável (adjetivo usado amiúde pelos seus contestadores) é não assumir uma postura firme, pois, com isso, justamente tem seus argumentos enfraquecidos. Novamente viram aí outra fragilidade dela. E insistiram nas perguntas.

Pouco foi falado sobre ideias e programas de governo e de Brasil da candidata. No que ela, com razão, reclamou. Só que sua melhor fala foi justamente não em prol de sua candidatura (que os sabatinadores insistiam em sugerir que não era séria), mas a da defesa de Lula e sua conseguinte liberdade e direito de concorrer. E vencer.

A postura dos perguntadores foi, como disse, deselegante. Mas a Manuela poderia ser mais incisiva no seu direito à fala. É até um elogio, pois foi, ao contrário dos demais, muito educada. Só que, por outro lado, as questões eram rasteiras e superficiais. Algumas se assemelhavam ao pueril. Creio que, se ela respondesse com convicção a todas as perguntas/provocações, sobraria mais tempo pra falar dos seus planos de governo.

No seu primeiro debate, já que foi isso que houve, acho que os desrespeitosos venceram.

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*Delmar Bertuol é professor de história da rede municipal e estadual, escritor, autor de “Transbordo, Reminiscências da tua gestação, filha”

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