Fotografia

A incrível história da fotografia que venceu o Prêmio Esso há 35 anos

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"A sensação que tive era de que a Lei Áurea (sancionada em maio de 1888) não valeu de nada". Premiado fotógrafo brasileiro conta a história por trás da fotografia que venceu o Prêmio Esso há 35 anos e repercutiu mundialmente

Milena Buarque, Huffpost

O racismo institucionalizado e cotidiano e a constante violação dos direitos humanos no Brasil podem ser contados e revelados em uma série de imagens emblemáticas, que vão do fim do século 19 ao período pós-redemocratização.

Do retrato do menino Augusto Gomes Leal com a ama de leite Mônica, de João Ferreira Villela (1860), ao rio sangrento do massacre do Carandiru, de Niels Andreas (1992), as fotografias dão conta de uma faceta de nossa identidade tantas vezes subestimada e negada. Uma delas recebeu o Esso de Fotografia há 35 anos. Todos Negros, como ficou conhecida, é de autoria do fotojornalista carioca Luiz Morier.

A imagem, que lhe rendeu o primeiro prêmio (o segundo viria em 1993, consagrando-o como único fotojornalista brasileiro a atingir essa marca) mostra uma blitz policial na estrada Grajaú-Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Todos os homens, negros, estão amarrados pelo pescoço, numa cena que remete diretamente aos tempos da escravidão no País, 94 anos após a conclusão de um longo e penoso processo que levou à abolição da escravatura, em 1888.

Eu estava voltando de uma outra reportagem quando avistei um camburão da PM parado na beira da pista. Pedi ao motorista que parasse para ver o que estava acontecendo. Quando caminhei um pouco para dentro do mato, avistei pessoas sentadas e amarradas com cordas no pescoço“, conta Morier.

O cenário da imagem, de denso e alto capim colonião, denuncia a vida suburbana, mescla de resquícios do campo e da cidade que ainda não chegou por completo.

Na época, repórter-fotográfico no Jornal do Brasil, Morier viu o clique ir diretamente para a primeira página, em setembro de 1982, com a legenda “PM prende favelados pelo pescoço, um tipo inusitado de ‘algema‘”. “Como sempre fiz, fui logo fotografando antes que dissessem que não. Em seguida, o tenente-comandante da operação mandou que os recolhessem para o camburão“, diz.

A sensação que tive quando os avistei era de que a Lei Áurea [sancionada em maio de 1888] não valeu de nada. Estavam sendo carregados pelo pescoço como escravos.” A imagem, feita com lente grande-angular, é parte de uma sequência que, além de enquadrar o policial, apresenta os seis presos no chão até o momento em que são colocados na viatura.

A fotografia correu o mundo e rendeu um barulho ao governo de Chagas Freitas, que comandava o estado do Rio à época. Segundo Morier, depois de apertados no camburão, e no momento da prisão, todos estavam de carteira de trabalho na mão: foi descoberto que se tratavam de moradores e trabalhadores de uma comunidade próxima. Os seis homens amarrados seriam dispensados. “As pessoas humilhadas eram pessoas simples, todos negros.”

Todos Negros evidenciaria o estigma da população pobre e negra do País que permanece sempre à margem. Como tantas outras, retrata o Brasil que mata um jovem negro a cada 23 minutos, segundo dados da ONU de novembro de 2017.

No próximo mês de setembro, Luiz Morier participará do Paraty em Foco 2018, festival internacional de fotografia realizado na cidade há 13 anos. Na série Encontros e Entrevistas, principal atividade do evento, os fotógrafos convidados vão exibir suas produções e serão entrevistados por críticos, jornalistas e pesquisadores.

Conflitos

O Brasil retratado pela crua lente da violência é também tema de exposição que fica em cartaz em São Paulo até o fim do mês de julho, no Instituto Moreira Salles (IMS Paulista).

Conflitos: fotografia e violência política no Brasil 1889-1964” contraria o discurso da pacificidade brasileira e desenha um panorama de revoltas, guerras civis e confrontos envolvendo o Estado e outros atores sociais. Estão na mostra fotografias simbólicas, como a da degola de um governista por ocasião da Revolução Federalista, de Affonso de Oliveira Mello (1894), e as cabeças decapitadas de Lampião e seu bando após combate em Angicos, no Rio Grande do Norte, de autor não identificado (1938).

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