Redação Pragmatismo
Geral 06/Jun/2018 às 15:11 COMENTÁRIOS

Quando o criador é refém de sua própria criatura: os homens vítimas de machismo

Quando o criador é refém de sua própria criatura homens vítimas de machismo

A virilidade, como se vê, é uma noção eminentemente relacional, construída diante dos homens, para os outros homens e contra a feminilidade, por uma espécie de medo do feminino, e construída, primeiramente, dentro de si. (BOURDIEU, Pierre. In: A dominação masculina).

Marconi Severo*, Pragmatismo Político

Certamente, o título deve causar surpresa: na maioria dos casos, falar de vítimas de machismo é sinônimo de falar de mulheres vítimas de machismo. Afinal, seria possível afirmar que também existem homens vítimas de machismo? Se sim, como isto se observa? Este texto se propõe à análise do machismo, justamente sob esta perspectiva (afinal compreender seu modus operandi nada mais é do que fornecer armas eficazes para combatê-lo). Um preâmbulo necessário: a fim de evitar interpretações adversas, este texto deve ser lido como uma análise dos homens heterossexuais vítimas (implícita ou explicitamente) de machismo.

O machismo é um fenômeno que está diretamente correlacionado com conceitos-chaves como, por exemplo, dominação masculina, sociedade androcêntrica, honra e virilidade. Todavia, e especialmente no caso do Brasil, a palavra “machismo” é duplamente conveniente: primeiro, porque sua semântica corresponde aos conceitos citados; segundo, porque é relativamente usual na sociedade brasileira, tanto formalmente quanto coloquialmente. Analisar os casos, reais e potenciais, nos quais são os homens as vítimas do machismo constitui uma das formas de compreender tanto a produção quanto a reprodução deste fenômeno (a própria palavra macho, devido à sua concepção biológica, soa como arcaica e primitiva no contexto social, o que já ilustra bem com o que estamos trabalhando).

Em outras palavras, parafraseando Stevenson, podemos dizer que o homem criou um monstro; e que hoje o criador é vítima de sua própria criatura. Exemplifiquemos, através do que Bourdieu chamou de violência simbólica – uma espécie de violência que age inconscientemente sobre a vítima, assim como pressupõe a cumplicidade desta última.

Como assim? Por exemplo, entre as mulheres, ela ocorre quando uma mãe diz à sua filha: “Esta forma de sentar-se não é bonita, para uma mocinha.”; e, entre os homens, expressões do estilo “Futebol é coisa de homem; voleibol, de mulher”. Tais julgamentos, ambos proferidos com enorme naturalidade, expressam uma concepção machista “nas entrelinhas”, ou seja, reconhecem (mesmo sem saber ou querer) a dominação masculina. “Não é que eu seja machista, mas que fica chato usar essa roupa, fica!” – quem diz isso pode até não ser machista, mas certamente está apoiado em uma concepção de mundo, no mínimo, masculina.

Segundo esta concepção, o ser homem significa ser reconhecido publicamente enquanto homem. Lógica que lembra o caso da esposa de César, uma vez que não seria difícil de encontrarmos exemplos em que não basta ser viril, tem que se mostrar viril: comentários, fotos, áudios, toda a sorte de irracionalidades que, apesar de não possuírem conteúdo algum, são essencialmente vitais para a comprovação da virilidade, acima de tudo, para outros homens. Eis o típico caso de vítimas de machismo: alguns homens são levados por outros homens a se portarem enquanto homens virilmente reconhecidos.

A vítima do machismo, neste caso, tem que seguir uma série de preceitos obrigatórios, quase ritualísticos, para não ser excluída do convívio social: ela é levada a se portar de forma mais agressiva do que realmente é, a gostar de determinados esportes, músicas, roupas, etc., ou seja, comportamentos condicionados pelo reconhecimento dos seus pares. Inclusive, muitas vezes, o homem vítima de machismo (em especial os jovens) tende a assediar uma mulher não por achá-la atraente, mas para reforçar publicamente a sua ousadia viril: “Esse é fera!” ou “Tirei o chapéu para o fulano!”. Não se trata de idiotas, apenas; mas sim de pessoas que são levadas a agirem de forma distinta, motivadas sobretudo pelos condicionamentos impostos por outras pessoas. Por exemplo, na escola, com o “Duvido, você ‘pegar’ ela!” ou no ambiente de trabalho, com o “Ora se não vai conseguir?! Afinal é homem, ou não?”.

Como pode ser percebido, o perigo maior consiste na propagação do mal: este processo é assimilado e interiorizado a tal ponto que começa a fazer parte da personalidade; o que leva tanto a dispensar a plateia que o legitima, quanto a influenciar as demais gerações (assim, propagando-se). A lógica da virilidade heterossexual resume-se em fazer-se visto e reconhecido: caso o homem esteja sozinho, e veja uma mulher, é bem possível que, além de considerá-la atraente, também a respeite; porém, se estiver em público, tanto mais se entre outros homens, a mesma mulher pode ser vista como um “aperitivo sexual”. Tal lógica é semelhante a do exibicionista: desligue a câmera, que ele irá parar. É óbvio que não se pode generalizar, assim como o preconceito não pode ser tolerado: o oposto do machismo é o femismo, e ambos devem ser combatidos.

O que se quer dizer é que, por mais irracional que possa parecer, alguns homens são levados, às vezes contra sua própria vontade, a portarem-se como imbecis, machistas, retrógrados, etc., apenas para serem aceitos e reconhecidos pelos seus pares (vítimas opressoras de outras vítimas, futuras opressoras e/ou consentidoras – por isso que é preciso quebrar este ciclo). Difícil de engolir? Ora, pensemos o seguinte, amigo leitor: se dependesse apenas das mulheres, não haveria mais machismo; mas não depende só delas. E o mal continua presente. Como…? Ora, este comportamento é uma das principais, senão a principal razão da existência do machismo: ele existe antes para os outros homens do que para as mulheres.

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A virilidade é, assim, uma enorme vulnerabilidade: ela acarreta um ônus de proporções colossais, pois exige a sua constante comprovação. Comprová-la é, em última análise (quase primitiva), atestar publicamente que determinada mulher é um objeto sexual, é beber até a embriaguez, é assumir riscos insanamente letais, etc. Como pode ser percebido, a virilidade está muito próxima ao conceito de violência, de risco. Em instituições totais – forças armadas, internatos, prisões – existem verdadeiros rituais de aceitação pela qual os homens são provados por outros homens, segundo critérios explícitos da ocasião do teste (geralmente com riscos) e implícitos, demonstrados no convívio diário. Mas isso quer dizer, então, que o machista é uma vítima, e por isso deve ser tratado com compaixão?

Não, necessariamente: o machista, o macho-alfa, ou o machão é infinitamente menos presente na sociedade do que são os homens. O primeiro agride, o segundo é agredido; mas o primeiro só agride porque o segundo permite a agressão, assim como permite a existência de uma sociedade na qual se formam pessoas de índole machista. No bullying, por exemplo, o agressor é tão vítima do fenômeno quanto o próprio agredido. Aliás, segundo esta lógica, os comportamentos violentos são mais viris do que os pacíficos. Mas será que uma criança sabe disto? Ou, pelo contrário, ela assimila isto? A intensidade da assimilação e da propagação é que faz um machista. Mas este processo não é isolado; ele é diretamente condicionado pelo ambiente (amigos, família, contexto social, regional, cultural, econômico).

Em determinadas profissões, a exigência de virilidade é exponencialmente superior do que em outras: um executivo ou funcionário público de alto escalão certamente não precisa se preocupar com receptividade de sua virilidade pelos seus pares, ao passo que entre os policiais, mineiros, agricultores, etc., ser viril é uma exigência. Em determinados espaços socais como, por exemplo, entre os construtores civis, forças armadas, traficantes, etc., é exigido dos homens algo além do que sua virilidade: é necessário “ser homem”, mostrar coragem, ousadia. E como isto é obtido, ou melhor, demonstrado? Por meio dos riscos assumidos.

Negar medidas de proteção (EPIs) e “matar no peito”, por meio de “exibições de bravura”, como disse Bourdieu, é a causa de inúmeros acidentes de trabalho. Mas, se há um risco de vida, por que fazer algo tão irracional? Por mais irracional que seja, é compreensível que o indivíduo aja conforme lhe é incentivado/exigido pelo contexto, pelos seus pares. O ônus da virilidade é o medo de perder a estima dos seus pares (ser homem heterossexual é uma coisa, mas ser reconhecido como um homem heterossexual é outra). O desafio aceito, ou seja, a “demonstração de bravura” (tão visível na construção civil e em alguns esportes), se bem-sucedido, aumenta o capital simbólico; se mal-sucedido, acarreta em deficiências físicas e eternos arrependimentos/constrangimentos. E, se o desafio não for aceito? Certamente será taxado de fraco, mulher, medroso (entre outros adjetivos pejorativos que, em nome do bom-senso, não serão escritos). Em resumo: qualquer que seja a opressão, sempre gerará vítimas.

Conforme Bourdieu, esta coragem, muitas vezes possui origem “em uma forma de covardia”. O homem covarde, por medo da repressão de seus pares, é levado a matar, estuprar, torturar, dentre tantas outras aberrações que, não fosse o “ritual de reconhecimento” imposto, certamente não teria metade das atitudes que é levado a ter. São, assim como as mulheres, vítimas; mesmo que de uma forma singular (tanto mais realçada quanto mais precárias forem os espaços sociais e profissionais). Ter em mente uma discussão como esta, é uma forma de combater o machismo em sua essência; é subsidiar uma subversão simbólica. O macho-alfa, além de um Homo primitivus, também é alguém medroso e colossalmente inseguro de si: um coitado, mas um coitado que não é isolado, e sim o fruto mais bem acabado dos excessos de uma sociedade machista. Para combater eficazmente este fenômeno, nada melhor do que quebrar-lhe o ciclo de sua reprodução; e a conscientização é, sem dúvida, o primeiro passo.

*Marconi Severo é Cientista Social & Político e colaborou para Pragmatismo Político

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