Redação Pragmatismo
Lula 10/Apr/2018 às 16:14 COMENTÁRIOS

Ninguém escrevia ao Coronel, mas todos vão escrever a Lula da Silva

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Ricardo Bordalo, Novo Jornal

As cartas que o Partido dos Trabalhadores (PT) está a pedir nas redes sociais que os brasileiros enviem para o cárcere onde está Lula da Silva poderão ser, metaforicamente, o “galo de combate” que o Coronel de Gabriel Garcia Márquez recebeu de herança, a única forma de ganhar a vida enquanto aguardava pela carta a anunciar que iria receber a sua pensão.

Se a carta a anunciar a pensão era vital para o Coronel poder sobreviver, as cartas enviadas a Lula são parte da estratégia de “guerra” do PT para manter o seu candidato na corrida às presidenciais de Outubro.

Mesmo preso, Lula não tem a porta totalmente fechada, embora seja muito difícil, para aparecer no boletim de voto, e, se isso acontecer de facto, provavelmente, como indicam as sondagens, vencer as eleições contra Michel Temer, o atual Presidente da República, que já disse que vai ser candidato.

Dilma Rousseff, a ex-Presidente que foi obrigada a abandonar o cargo por causa de alegados incumprimentos e ilegalidades cometidas na função, já disse que os juízes e os carcereiros pensavam que iriam ser o garante da manutenção de Lula distante do mundo e do povo brasileiro mas vão apenas ser “os seus carteiros“.

Lula da Silva, nos últimos dias de liberdade física, insistiu muito na ideia de que se fosse, como acabou por acontecer ontem, impedido de caminhar, caminharia pelos pés dos seus apoiantes, ou que de nada adiantaria impedi-lo de “concretizar o sonho” porque iria fazê-lo “pela cabeça” dos milhões de brasileiros que o apoiam.

E essa ideia, nas primeiras horas privado de liberdade, parece estar a materializar-se a grande velocidade, primeiro com a insistência do seu partido em mantê-lo como candidato, em segundo pelas sondagens que lhe dão grande vantagem sobre os restantes candidatos, em terceiro porque a prisão, ou Superintendência de Curitiba, por sua causa, está em processo de se transformar num dos pontos centrais da política brasileira.

Desde as cartas enviadas para a prisão às centenas de tendas que começam a dar corpo aos acampamentos já denominados “Lula livre” em redor do edifício que, por ironia, foi inaugurado pelo então Lula da Silva no cargo de Presidente da República, tudo parece estar a emergir para fazer da cadeia onde está Lula um local de romaria e o princípio da construção do mito Lula.

O próprio veio dar uma achega à construção desse mito ao dizer de si próprio que começa a passar da condição de homem para a condição de “uma ideia” para o Brasil.

Mas Lula ainda é humano

Pelo menos no que diz respeito ao futebol, Lula da Silva continua humano, quase terra-a-terra, porque uma televisão na cela para assistir ao desafio entre o Palmeiras e o Corinthians – é fanático pelo Corinthians – foi uma das condições impostas e aceite pelos homens do cárcere.

Esta nota futebolística dá uma dimensão bastante terrena ao quase-mito Lula da Silva, mas também a questão da sua candidatura à Presidência pode não ser de fácil resolução e fazê-lo rapidamente voltar a colocar os pés no chão.

As dúvidas somam-se e as certezas de que pode concorrer à Presidência em Outubro vão se esfumando, embora subsista a possibilidade real de, inclusive, ganhar as eleições ao atual Chefe de Estado, Michel Temer, ou outros dos candidatos.

Para já, avisa: “Não adianta parar o meu sonho, porque, quando eu parar de sonhar, sonharei pela cabeça de vocês“.

Vocês” são os milhares de pessoas que se juntam em repetidas manifestações de apoio a Lula, sempre em maior número que aquelas em sentido contrário organizadas por elementos da direita brasileira, quase sempre extrema e radical, que não querem ver o seu nome no boletim de voto por nada…

Et tu, Brute?

E mesmo dentro do PT, segundo a imprensa brasileira, começam a surgir relatos de que surgem defensores de um afastamento de Lula para criar espaço a uma candidatura alternativa que precisará de tempo para se afirmar no terreno, embora oficialmente o PT mantenha todas as fichas no candidato Luiz Inácio Lula da Silva.

Até porque ainda não existe um desfecho claro sobre o debate em torno da questão da Lei da Ficha Limpa, que, teoricamente, impede quem tenha uma condenação em segunda instância de poder candidatar-se a Presidente ou a qualquer cargo público.

Esta lei que foi, ironicamente visto a partir da perspectiva atual, criada pelo próprio Lula, em 2010, sendo agora aplicável, se seguida à risca, no seu caso, depois de condenado pelo tribunal de Porto Alegre a 12 anos e um mês de cadeia efetiva.

A pena resulta do caso do triplex, um apartamento de luxo que a justiça brasileira entendeu como provado ter-lhe sido oferecido por uma construtora a troco de benefícios em contratos com a petrolífera brasileira Petrobras, corrupção e lavagem de dinheiro.

Seja como for, Lula continua candidato, pelo menos até Setembro, um escasso mês antes das eleições, se o PT não desistir do seu nome, porque a Lei da Ficha Limpa só é confirmada pelo Tribunal Eleitoral durante o processo de verificação das respectivas candidaturas que sucederá a 17 daquele mês.

E como vai o candidato executar o seu direito constitucional de fazer campanha eleitoral? Para já, ninguém sabe, mas, segundo juristas ouvidos pela imprensa brasileira, será a justiça, nomeadamente o juiz que o condenou, Sérgio Moro, a decidir em que moldes isso poderá ser feito, mas muitos consideram difícil conciliar as duas possibilidades, manter a condenação à prisão e as exigências de uma candidatura.

Os próximos dias serão cruciais para definir o futuro de Lula, que, enquanto aguarda, ao contrário do Coronel revolucionário de Garcia Márquez, terá muitas cartas para ler e para escrever…

E uma televisão para ir vendo umas partidas de futebol, as dezenas de manifestações que se fazem diariamente em seu nome por todo o Brasil e ir sinalizando os sinais que lhe chegam dos quatro cantos do país e vão erguendo o mito à sua volta…

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