Redação Pragmatismo
Esquerda 20/Mar/2018 às 13:12 COMENTÁRIOS
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Texto de historiadora portuguesa "de esquerda" sobre Marielle é puro "lugar de fala"

Publicado em 20 Mar, 2018 às 13h12

Foto de Marielle Franco que viralizou com comentários sobre sua morte escritos por uma historiadora portuguesa que mora no Brasil e se reivindica 'de esquerda' é uma das manifestações mais reacionárias sobre o assunto

Texto de historiadora sobre Marielle é puro lugar de fala

Daniela Haj Mussi, Opera Mundi

Existe uma foto de Marielle Franco circulando, com mais de 2,3 mil curtidas e 1.770 compartilhamentos, com comentários sobre sua morte escritos por uma historiadora portuguesa que mora no Brasil e que se reivindica de esquerda. Trata-se de uma das manifestações mais reacionárias sobre o assunto que eu li, exemplar do tipo de discurso ao qual se é possível chegar quando se rejeita a centralidade da negritude e do feminismo negro nas discussões sobre a vida política brasileira hoje.

Para negar o uso do conceito de “lugar de fala”, que chama jocosamente por “treta”, o texto constrói a imagem de Marielle e dos moradores de favelas no melhor estilo “povo do abismo” de Jack London, desprovidos de qualquer forma de inteligência ou mesmo de capacidade expressiva. Em outras palavras, para negar o conceito a historiadora se vale dele em uma versão completamente mistificada e conservadora: Marielle seria um golpe de sorte, uma “mãe adolescente saída do buraco”, não poderia ser a representante legítima de um movimento autônomo dos de baixo, não teria individualidade política alguma. Em seguida, o texto articula o espaço de fala dos jovens de classe média, os brancos, como aqueles que deveriam começar a se mover, “tomar as dores” dos pretos humilhados e sem capacidade política própria. O texto é puro “lugar de fala”, já que não se trata do lugar de fala enquanto espacialidade e subjetividade contraditórias e históricas, mas como lugar subjetivo construído a priori e abstratamente.

O texto é tão violento em sua investida contra a categoria analítica, que termina por abraçar-se com ela e absolutizá-la em uma narrativa “engajada” mas conservadora (e tal engajamento parece encontrar seu público).

Esse é um excelente exemplo, cristalino, do problema político dos intelectuais. Todo/a intelectual está conectado/a a lutas e grupos sociais específicos, por escolha, por vivência ou pelos dois. O que não existe é intelectualidade “desconectada”. Contudo, muitas vezes os/as intelectuais se negam a reconhecer suas conexões sociais, acreditando ser possível existir apenas como “intelectual”, como crítico de conceitos tomados “em si”, sem história. Esta é uma atitude típica, aliás, da intelectualidade nascida e formada em meios culturais “tradicionais”. (No caso português, isso poderia ser estudado tomando como hipótese a forte e duradoura influência da contrarreforma em certos grupos intelectuais, inclusive socialistas).

Como nenhum/a intelectual pode ser desconectado da história, já que não existe história intelectual fora da história dos grupos sociais, quanto mais “engajado/a” e ativista se torna o discurso do intelectual “puro”, mais evidentes são as conexões que este nega ou tenta esconder.

O que leva ao segundo aspecto do problema da intelectualidade brasileira hoje, tanto a acadêmica quanto a intelectualidade ativista dos partidos, organizações políticas e movimentos sociais. Trata-se de estabelecer de maneira precisa quais conexões sociais estão estabelecidas e quais precisam ser construídas. No caso das organizações políticas, isso é um problema urgente já que o que as diferencia de qualquer outra forma de associação civil é fato de que estas “elaboram os próprios componentes”. Ou seja, tem como principal característica partir do “senso comum” no qual todos nascemos e crescemos para desenvolver o “bom senso” ativista e coletivo.

Contudo, apenas molecularmente esta “função” específica pode ser realizada “fora” dos ciclos de protestos e de seus repertórios (para emprestar uma terminologia especializada). Quando realizada dentro destes ciclos, à quente, essa função se potencializa e se amplia em escala, para ser depois consolidada e racionalizada em textos, programas, documentos, etc.

Conclusão: a crise é também um momento de desenvolvimento ativo (em grande escala) de intelectualidades e subjetividades políticas novas. Quem não apostar nisso vai colher o velho, num lugar de fala há muito cantado entre nós:

Eu é que não me sento no trono de um apartamento
Com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar.”

(*)A postagem com o texto e a foto pode ser visto aqui.

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