Redação Pragmatismo
Racismo não 15/Mar/2018 às 22:24 COMENTÁRIOS
Racismo não

Mãe defende filha que usou negros escravizados em festa de 15 anos

Publicado em 15 Mar, 2018 às 22h24

Irritada, mãe de debutante tenta justificar negros escravizados na festa da filha e diz que menina não pode ser acusada de racismo. Cerimonialista volta atrás e apaga pedido de desculpas

Mãe defende filha que usou negros escravizados festa de 15 anos

O tema de um ensaio de aniversário de 15 anos com referências a época de escravidão no Brasil gerou polêmica nas redes sociais nesta quinta-feira (15).

Para o ensaio fotográfico, a debutante se vestiu de sinhazinha e os amigos atuaram como mucamas e escravos. O caso ocorreu em Belém, no Pará, e as imagens geraram o debate entre os internautas.

As primeiras fotos foram publicadas pelo Cerimonial Lorena Machado no Instagram. No entanto, ganharam força quando uma jovem negra replicou o conteúdo no Facebook denunciando o caso como discriminação e racismo.

Na postagem, Tuca Oliveira critica a ideia. “Vocês brincam com nossa dor e depois vêm dizer que foi ‘sem querer’ ou uma ‘homenagem'”, diz. Até o fechamento deste texto, mais de 27 mil pessoas já curtiram a publicação de Tuca.

A princípio, a cerimonialista publicou uma nota oficial pedindo perdão pelas imagens publicadas e também tornou a conta do Instagram privada.

Agora, o site BuzzFeed informa que a cerimonialista apagou o pedido de desculpas. Segundo Lorena Machado, a nota foi apagada porque foi feita por um de seus funcionários e sem a sua autorização.

A cerimonialista também explicou que a festa está agendada para o dia 26 de maio e que está aguardando o posicionamento da família da garota para decidir o que vai fazer.

Mãe defende a filha

Em entrevista ao portal G1, a mãe da debutante disse que a filha não merece ser acusada de racismo e considera que a temática da festa foi mal interpretada.

“O racismo é uma acusação pesada. Em nenhum momento passou pela nossa cabeça menosprezar uma raça, tanto que em nossa família existem negros e índios”, disse a empresária Bianca Castilho.

“Precisam saber o que de fato se passa por trás da imagem, qual o real significado. A escravidão é algo que é fato, sabemos que ainda existe o racismo! E a foto foge do tema real da festa da debutante que é o imperialismo, ‘Jardim imperial’. É fácil criticar sem ter base acerca do assunto, pois é bem mais abrangente!”, disse a mãe.

A empresária disse que estuda processar a jovem que primeiro divulgou as imagens. “Podemos até processar a pessoa que começou todo esse movimento em desfavor do sonho em ter uma festa de 15 anos, que é o momento único para uma adolescente como a minha filha”.

O negro subalterno

A ativista negra Flávia Ribeiro não concorda com a mãe da debutante. Para ela, o episódio traz à tona a naturalização do preconceito racial e a negação da violência do momento histórico que escravizou milhares de africanos.

“É comum naturalizar o negro em posição de serviçal e reproduzir esse discurso, sim, é racismo. Está sendo retratada ali uma pessoa que foi sequestrada, obrigada a trabalhar e que passou anos nessa condição de não ser considerada uma pessoa. Essa é uma dor que durou por quatro séculos e esse povo carrega esse carga até hoje. Ela usaria alguém de um campo de concentração nazista na festa dela? Acho que não”, observa Flávia.

“Há esse mito da ‘boa escravidão’. É bonito ter uma mucama servindo a filha e os convidados. Mas não dá pra fazer uma festa com uma pessoa em condição de violência”, conclui a ativista.

Indignação

Nas redes sociais, muita gente repudiou a ideia da festa. “Escravidão não é tema de festa. Escravidão não é brincadeira. Escravidão é escravidão. Uma opressão aos negros. Morreram por querer liberdade. Escravidão não é brincadeira. Escravidão é escravidão”, escreveu um jovem.

Algumas pessoas ainda fizeram menção à morte da vereadora do Psol, Marielle Franco. “Mulheres pretas morrendo enquanto as brancas brincam de sinhá. #RacistasNãoPassarão”, publicou uma internauta.

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