Redação Pragmatismo
Justiça 26/Feb/2018 às 11:20 COMENTÁRIOS

Ex-deputado que matou 2 no trânsito vai a júri popular

Depois de muita pressão de meios de comunicação independentes, familiares e entidades, ex-deputado que matou 2 jovens no trânsito vai a júri popular. Caso era acobertado pela grande mídia e judiciário. Mãe de vítima segue inconsolável: “Terei de provar a inocência do meu filho?”

Luiz Fernando Ribas Carli Filho
O ex-deputado Luiz Fernando Ribas Carli Filho tinha 25 anos na época do acidente

Nove anos depois de matar dois jovens no trânsito, o ex-deputado estadual Luiz Fernando Ribas Carli Filho, herdeiro de uma influente família da política no Paraná, vai a júri popular.

A tragédia que tirou a vida de Carlos Murilo, de 19 anos, e Gilmar Rafael Yared, de 26, aconteceu em 7 de maio de 2009. A perícia concluiu que Carli Filho estava a uma velocidade entre 161 e 173 km/h. O carro em que ele estava decolou e caiu sobre o veículo das vítimas.

Carli Filho estava com a carteira de motorista suspensa, com 130 pontos e 30 multas, a maioria por excesso de velocidade, e também apresentava teor alcoólico quatro vezes além do tolerado. No único depoimento que deu à Justiça, em 2010, ele assumiu que bebeu antes de dirigir.

O julgamento terá início nesta terça-feira (27/2) e deve se estender pela semana. A acusação pede pena de até 30 anos de prisão. A defesa tenta transformar a denúncia em homicídio culposo (quando não há intenção) e se valer de uma eventual prescrição do crime.

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Nos últimos nove anos, a defesa do acusado impetrou 35 recursos e conseguiu adiar o julgamento duas vezes – uma por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e outra por determinação do ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF).

“É quase uma afronta à Justiça. Um bom escritório de advocacia vai até onde as leis e suas brechas permitem. Mas, agora, com a marcação do júri, eles não têm para onde sair. Vão ter de prestar contas. A sociedade pede que seja prestada conta de tudo isso. Essa luta não diz respeito somente a mim, mas ao país”, ressaltou Christiane Souza Yared, cujo filho, Gilmar, perdeu a vida na tragédia.

Depois da morte do filho, Christiane criou uma organização não-governamental de apoio a famílias que sofrem com a perda de seus entes em acidentes e de educação para a paz no trânsito. Em 2014, com 200 mil votos, surpreendeu ao ser eleita a deputada de maior votação na bancada do Paraná.

A caminho do fim de seu primeiro mandato, a parlamentar paranaense do PR já viu dois de seus projetos virarem leis, ambas voltadas para o trânsito e vê, com esperança, a possibilidade de o responsável pelo desastre que matou seu filho ser, enfim, punido pela Justiça.

Para Christiane, o julgamento não é apenas do ex-deputado Carli Filho. É também seu e de seu filho. E, mais do que isso, um divisor de águas na questão da impunidade no trânsito.

“Se ele for inocentado, certamente entrará com um processo indenizatório contra mim. Vão querer que eu pague a plástica dele, o carro destruído dele, a exposição dele à mídia”, disse, em entrevista ao site Congresso em Foco.

“Tenho que provar que meu filho é inocente? Vivemos um pesadelo todos esses anos. Esse pesadelo continuará até o fim de nossas vidas. Não temos como nos livrar disso. Meu filho não tinha uma gota de álcool no sangue, estava engatando a segunda marcha, estava de cinco de segurança, com a carteira em dia. Vamos por tudo isso numa balança?”

Christiane conta que pessoas ligadas à família Carli tentam jogar a opinião pública contra ela, acusando-a de ter se promovido na política à custa da morte do filho.

“E ainda tentam me colocar no banco dos réus como se eu fosse julgada por estar deputada federal. Comentam na mídia local que a mãe de uma das vítimas, no caso eu, teria se beneficiado da morte do filho, do cadáver do filho, saindo na política e sendo deputada. Como se eu pedisse para isso acontecer. Então, numa noite, sai um jovem que vai beber, vai matar meu filho para eu me candidatar a deputada federal? Daria tudo para ter meu filho de volta”, desabafou.

“Hoje sou uma voz no Congresso. Luto por vidas. Algumas pessoas não compreendem”, finalizou.

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