Luis Gustavo Reis
Colunista
Música 22/Jan/2018 às 13:28 COMENTÁRIOS

Forró pé de serra: o ritmo do povo

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Luis Gustavo Reis*, Pragmatismo Político

Joãosinho Trinta, notório e respeitável carnavalesco brasileiro, dizia que o compromisso do Brasil com o mundo é a produção da alegria. Não obstante as mazelas do país, Trinta vaticinava que o povo brasileiro deixava o mundo mais leve com seu modo de vida.

Do Oiapoque ao Chuí, são várias as manifestações culturais que caracterizam essa terra como celeiro de genialidade. A música é uma dessas manifestações, elemento essencial no cotidiano de milhares de pessoas. A mistura de instrumentos, ritmos, sotaques, fazem da música brasileira admirada em diversas regiões do mundo.

Um dos estilos musicais que cativou o Brasil e se espalhou para outros lugares foi o forró pé de serra. Conjugando os sons emanados da sanfona, as batidas da zabumba e o compasso do triângulo, criou-se um ritmo cativante e envolvente.

Não há consenso sobre a origem do forró, mas seu espraiamento ocorreu pelo país em meados de 1940, período em que Luiz Gonzaga despontou como um dos maiores artistas da música popular brasileira.

Gonzaga costurou o som dos instrumentos às letras elaboradas por Humberto Teixeira, advogado residente no Rio de Janeiro que abandonou os tribunais para se dedicar às composições musicais.

Embora Luiz Gonzaga seja considerado o “Rei do baião” – título atribuído pela contribuição que o pernambucano nascido em Exu deu ao forró – há milhares de outros cantores, compositores e músicos que ficaram no anonimato ou são pouco conhecidos do grande público.

Jacinto Silva, Clemilda, João do Vale, Anastácia, Jackson do Pandeiro, Elino Julião, Genival Lacerda, Dominguinhos, Marinês e sua gente, Abdias, Azulão, Trio Nordestino, Trio Nortista, Os 3 do Nordeste e tantos outros intérpretes deixaram sua marca e fizeram a história do forró pé de serra.

Sem deixar de denunciar os graves problemas sociais, os forrozeiros transformaram em poesia e potência de vida uma realidade marcada pelo descaso, mas recheada de virtude e honradez. Grosso modo, as músicas relatam os eventos do cotidiano do povo nordestino.

Descrevem as características da paisagem sertaneja, explicam as teias de relações e sociabilidades entre os moradores dos povoados, narram os eventos do cangaço e seus protagonistas, enaltecem os bailes regados a música, cachaça, namoros e intrigas. As músicas também criticam os poderosos, o preconceito sofrido pelos migrantes nordestinos em grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, além de denunciar a incompetência dos agentes do Estado.

Em uma de suas canções mais ácidas chamada “Eu vou pra lua”, o cantor Ary Lobo dispara:

Já estou enjoado aqui da Terra
Onde o povo a pulso faz regime
A indústria, o roubo, a fome, o crime
Onde os preços aumentam todo dia
O progresso daqui a carestia
Não adianta mais se fazer crítica
Ninguém acredita na política
Onde o povo só vive em agonia

Os versos foram gravados na década de 1960, mas dizem muito sobre o Brasil atual. Um país arrasado pelo avanço do neoliberalismo, devorado pela sanha dos políticos profissionais. São os coronéis e seus capangas do tempo de Ary Lobo, reeditados no século XXI. Desde o tempo em que o coronelismo ruiu como sistema político, seus principais representantes se reinventaram e fundaram milícias poderosas, conhecidas popularmente como partidos políticos.

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Já se passaram sete décadas desde que Luiz Gonzaga mostrou aos brasileiros como se dança o baião. Desde então, o ritmo resiste como um dos mais autênticos gêneros musicais, sobrevivendo aos modismos, às súbitas transformações do mercado fonográfico e ao desaparecimento dos seus principais intérpretes.

É o ritmo do povo!”, dizia o velho Ary Lobo. Povo valente, sofrido, complexo, mas sobretudo forte que produz alegria e torna o mundo um lugar menos desconfortável de habitar.

*Luis Gustavo Reis é professor, editor de livros didáticos e colabora para Pragmatismo Político

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