João Miranda
Colunista
Contra o Preconceito 11/Dez/2017 às 13:45 COMENTÁRIOS
Contra o Preconceito

Na capital da “Reaçolândia”, audiência pública defende tese sobre “ideologia de gênero”

João Miranda João Miranda
Publicado em 11 Dez, 2017 às 13h45
Reaçolândia audiência pública defende tese sobre ideologia de gênero ponta grossa reaçolândia

João da Silva*, Pragmatismo Político

Não seria necessária uma lupa para constatar que movimentos conservadores e reacionários têm espalhados os seus tentáculos sobre a educação brasileira, com o intuito de reconstruí-la de formas perniciosas. No último sábado (9), vimos em Ponta Grossa (PR) mais um capítulo dessa caminhada de duran. Ocorreu nesse dia na câmara pública da cidade a audiência pública “Ideologia de gênero”, na qual foi defendida a tese fantasiosa de que existe um “grande plano comunista”, supostamente coordenado pelo movimento LGBTTQ.

Com argumentos sem fundamentos e fontes sem referência, procuraram demonstrar as “doutrinações” que supostamente ocorrem em sala de aula. O MEC, para esse grupo, é concebido como uma entidade comunista subversiva que quer destruir os preceitos morais da família brasileira e os seus valores cristãos.

Durante longas exposições, foi sendo apresentando um discurso de ódio, fantasioso e delirante totalmente contrário a qualquer proposição séria de inclusão dos estudos de gênero nas escolas e muito aquém da universalidade e diversidade do debate científico inerente ao tema gênero nas escolas.

Assim, com o respaldo de falsos “aparatos científicos”, os dom-quixotes intimam jovens e velhos de mãos desarmadas, por medo das palavras de uma gente que não faz o jogo sujo dos poderosos e que não lambe as botas de duran. Por tudo isso e muito mais, a audiência prestou um grande desserviço à sociedade, atacando a liberdade ideológica, de expressão e sexual, determinada pela Constituição – e que está sendo solapada na prática do dia a dia por ações como essa.

O mais curioso é que essa patrulha de histéricos “inteligentinhos”, de temperamento autoritário, aparentam crer serem moderninhos, na “vibe” do “prafrentex” simulando de forma afetada uma tolerância que simplesmente não possuem. Portam-se como paladinos salvadores da pátria combatendo cavalos de troia que supõe existirem. Talvez seria de bom grado lembrar a turma que perdeu a noção do ridículo que não se combate o que não existe.

Trata-se de mais um acontecimento lamentável ocorrido na cidade que ficou conhecida como a capital da “Reaçolândia”. Ponta Grossa é a mesma cidade onde a sua Associação Comercial, Industrial e Empresarial, no início de outubro, publicou num jornal de grande circulação na região uma carta de apoio ao general Antonio de Hamilton Mourão, o qual falou na possibilidade de uma intervenção militar no Brasil.

No ano passado, a mesma entidade patrocinou uma chuva de ovos sobre um cartaz do deputado federal da cidade que votou contra o impeachment de Dilma Rousseff, na esquina mais movimentada do centro da cidade. A entidade é a mesma que, em 2014, defendeu que beneficiários do Bolsa Família não deveriam ter direito ao voto nas eleições.

Mais recentemente, houve outra demonstração de reacionarismo: um vereador-pastor ameaçou prender a cantora Pabllo Vittar se ela “inventar de sair nas ruas” da cidade.

E essas são só algumas das manifestações do conservadorismo profundamente incrustado na cidade. A audiência pública foi mais um efeito disso que só serve para incitar o ódio e dar mais um passo nas cruzadas anti-minorias e anticomunista.

Entretanto, a Casa Grande se ilude ao crer que estamos acuados. Todos nós estamos com a cabeça já pelas tabelas por causa da exacerbação do preconceito classista e da amargura provocada pela consciência emergente de injustiça social. Ao trabalhador e a trabalhadora que correm atrás do pão, é humilhação de mais que não cabe neste refrão. Engana-se quem acha que, diante de tudo isso, ficaremos quietos.

*João Da Silva é um morador de Ponta Grossa e revoltado com o conservadorismo da cidade.

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Comentários

  1. Movimento espírita: cegueira, idolatria e desinformação Postado em 22/Fev/2018 às 12:54

    […] existe “ideologia de gênero” – este é um termo criado por setores conservadores da Igreja Católica e depois adotado pelas […]