Redação Pragmatismo
Racismo não 05/Oct/2017 às 15:50 COMENTÁRIOS

Assistir “13ª Emenda” é ganhar anos de conhecimento em 100 minutos de arte

Parece impossível assistir “13ª Emenda” e não pensar em nosso momento político atual. “13ª Emenda” não é apenas um documentário, é uma aula de história, um grito de alerta e uma lição de vida

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Mariana Santos de Assis, Geledés

Já ouvi muita gente falar das diferenças entre o racismo nos EUA e no Brasil, como se por lá as coisas tivessem sido muito piores que aqui, como se nossos processos tivessem sido infinitamente mais suaves. Já pensei que esse tipo de opinião é apenas mais um sintoma de um pobre coitado vitimado pelo vírus do mito da democracia racial, que o cegou para os horrores e mutilações causados pelo racismo à brasileira. Mas, na verdade, isso não passa de mais uma canção de ninar que nossa elite branca canta para si mesma, na tentativa, sempre bem-sucedida, de se sentir melhor diante dos muitos crimes cometidos em sua história de sangue e terror. Infelizmente, também é cantada por muitos negros e negras, ainda apavorados com a própria identidade e buscando avidamente uma ilusão que os torne imunes às dores que deveras sentem, porém, como bons fingidores, seguem enlaçados à negação de si mesmos e de sua história, sem perceber ou percebendo que seguem, de forma servil e indulgente, defendendo seus senhores e algozes.

A dita cordialidade brasileira e aceitação das diferentes raças que, supostamente, compõem o povo brasileiro e constituem a cultura nacional foi uma mentira tão bem contada e repetida que convenceu até mesmo aqueles que estão sendo açoitados, perseguidos pela polícia, linchados e expostos em praça pública, impedidos de frequentar espaços públicos, longe das universidades, das posições de destaque social, encarcerados e perseguidos como animais, ridicularizados e marginalizados pela mídia…

Curioso é que não consigo ver grande diferença entre essa situação e aquela enfrentada pelos negros nos EUA durante o período das Leis Jim Crow. O processo de segregação racial no Brasil é tão antigo quanto nos EUA, a grande diferença entre nós é a configuração da luta do Movimento Negro. No caso do Brasil, nosso inimigo precisou ser primeiro apresentado e isso foi feito por meio do reconhecimento de que, apesar da ausência de leis declaradamente segregacionistas, estamos sendo mortos e torturados pelo racismo ao longo de toda a nossa história. Aqui precisamos provar para o povo que o racismo existe de forma estrutural e tem um projeto CLARO e bem definido para nos manter na condição de servidão para a qual fomos designados “desde que o primeiro negro foi sequestrado em uma praia africana”.

É lamentável ver a devoção dos brasileiros aos EUA, como se fossem um modelo a ser seguido, um exemplo de ordem e progresso com o qual sempre sonhamos, mas nunca alcançamos. De fato, agora tudo faz sentido, estamos mesmo pisando nas pegadas do Império e como bons colonizados cometeremos os mesmos erros e seguiremos o mesmo caminho de violência, corrupção e preconceito trilhado por nossos heróis genocidas, estupradores e saqueadores.

Parece impossível assistir “13ª Emenda” e não pensar em nosso momento político atual. Perceberam que os discursos de ódio, cada dia mais presentes e intensos nos discursos dos políticos brasileiros, por acaso, não estão acompanhados da temática mais esperada: pena de morte. Isso porque nossxs senhorxs aprenderam com seus mestres outras formas de nos manter produtivos e interessantes economicamente, nos mantendo encarcerados e justificando esse encarceramento em massa e todos os horrores decorrentes disso através da renovação do discurso racista que animaliza povos não brancos, mudando o rótulo “negro” para “criminoso”, assim não há mais racismo, há apenas justiça! Porém ninguém nos explica a absurda predominância de negros rotulados como “criminosos” e, portanto, desprovidos novamente de sua humanidade e cidadania.

Nós voltamos a ser um bom negócio e a luta por nossa liberdade será ainda mais árdua, pois passou a ser uma luta contra o medo, não mais apenas o medo dxs senhorxs de uma revolta escrava, mas também o medo de nossos irmãos e irmãs, o medo de perder suas poucas propriedades, única forma de ser feliz nessa sociedade doente; o medo de ser assassinado, mesmo que já esteja completamente morto por esse modo de vida doentio e castrador que nos transforma em zumbis batedores de ponto; medo de ser confundido com o negro criminoso, medo do estigma, medo da história, medo de existir.

O sentido da justiça foi totalmente subvertido nessa nova ordem do medo. O sistema prisional, que não passa de um excelente negócio criado para reparar xs senhorxs pela perda de suas propriedades (escravizados libertos), passou a ser pintado como a tábua de salvação para a população encurralada pelo terror imposto pelos monstros negros à solta nas ruas, com seus instintos malignos e tendências criminosas. Nenhum ser humano merece ser escravizado ou assassinado, mas será que um criminoso merece o status de ser humano? Em nossa sociedade CLARAMENTE não! E como tudo que é negativo, horrendo, assustador e sórdido, a criminalidade também tem uma cor, tem A cor, lá ou aqui, estamos todos presenciando a escravidão, o encarceramento e o genocídio de nossos homens NEGROS.

Vimos esses homens serem atirados em uma sociedade patriarcal despidos de sua masculinidade, incapazes de defender suas famílias, reduzidos à condição de procriadores, um pedaço de carne lucrativo e sem alma, feito apenas para servir. Quando foi liberto, essa condição torna-se ainda mais terrível, uma vez que a partir dali, teoricamente, não havia impedimento legal para que ele fosse o “homem da casa”. Porém, a marginalização permaneceu, analfabetismo, despreparo, lei de vadiagem, polícia racista e vimos esse homem, novamente sem alternativas, cometer o grande erro de acreditar que poderia errar, que poderia ser fraco, como se pudesse dispor da humanidade que nunca teve e que, certamente, não seria ofertada como perdão por erros que ferem, de alguma forma, terceiros, ainda mais se esses terceiros são xs senhorxs que, tão generosamente, lhe concederam a liberdade.

“13ª Emenda” não é apenas um documentário, é uma aula de história e uma lição de vida, um grito de alerta para o fato de que estamos aceitando e contribuindo para a manutenção da escravidão. Fechamos os olhos para o fato de que a segregação nunca acabou nos EUA e no Brasil fingimos não ver que ela sempre existiu. Aceitamos genocídio, tortura, violência e racismo contra criminosos como sinônimos de justiça, mas Ava DuVernay nos deu um soco no estômago e nos tirou a desculpa da ignorância, colocou diante de nós não apenas a humanidade daqueles que acostumamos a ver como animais, mas também a brutalidade e a alma criminosa daqueles que chamamos de heróis.

Assistir “A 13ª Emenda” é ganhar anos de conhecimento em 100 minutos de arte. Não percam essa oportunidade!

*Mariana Santos de Assis é Consultoria Linguística Licenciada em Letras e Mestra em Linguística Aplicada pela Unicamp.

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