Redação Pragmatismo
Esquerda 06/Jul/2017 às 13:00
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A miséria da esquerda ex-governista

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João Miranda*, Pragmatismo Político

Acho curioso o asco que a esquerda ex-governista tem em relação ao Aécio. Ficam apontando a série de denúncias que envolve esse político criminoso e contam ad infinitum todas as vezes que ele foi citado na Lava-Jato, mas, parecem não se lembrar que toda essa aversão ao psdbista não impediu que parte considerável dessa mesma esquerda ajudasse, indiretamente, esse mineiro nas eleições de 2014.

Vale recordar que durante essas eleições a esquerda ex-governista abraçou o discurso da polarização petismo e antipetismo. Objetivavam através desse antagonismo identitário aplacar o avanço de Marina Silva que, após a morte de Eduardo Campos, cresceu nas eleições. Então, quando o ex-governismo percebeu que a candidata ambientalista tinha chance de ir para o segundo turno, começou uma campanha baixa e sectária baseada em mentiras, de modo a evitar um possível segundo turno entre Marina e Dilma – dois nomes oriundos da militância de esquerda. Assim, rapidamente a seringueira negra e ambientalista da Amazônia foi convertida em monstro fundamentalista e neoliberal.

Na época, o marqueteiro do PT, João Santana, levava a baixaria para novos patamares, taxando Marina como neoliberal disfarçada, enquanto que defendia que o PT teria implementado medidas neoliberais apenas pelas circunstâncias. Em consequência, toda essa campanha contra Marina deslocou Aécio para o segundo turno, alguém que durante a campanha esteve em vias de renunciar. Curiosamente, então, o psdbista contou com a cooperação indireta de onde menos se esperava: a esquerda ex-governista, a qual participou de uma operação de destruição da figura pública de Marina e, dessa forma, beneficiou o candidato mineiro.

De um lado, parte da esquerda ex-governista aderiu a essa campanha um tanto ingenuamente, quase sem querer, por espontaneísmo fruto da falta de uma formação política mais aprofundada. Do outro lado, essa campanha contra Marina foi tocada deliberadamente, por gente que sabe o faz. Em ambos os lados, as eleições de 2014 se tornaram um espetáculo de idiotização formado por um teatro de péssimos atores incapazes de ouvir e levar a sério outras vozes que não fosse o seu próprio eco.

Depois dessa campanha suja, desonesta e mentirosa, tudo fica explicado quando Dilma vence e, à revelia de todo discurso que fez nas eleições, afirmando que não permitiria a contenção do crescimento, a recessão, o desemprego, o arrocho salarial, o aumento da desigualdade e toda a submissão que o Brasil tinha no passado ao FMI, ela faz totalmente o contrário, adotando o programa neoliberal da oposição. Esse estelionato eleitoral explica porque o alarme do ex-governismo soou quando Marina aumentou as suas possibilidades de ir para o segundo turno. A guinada à esquerda que entre os ex-governistas não passava de pura fantasia, e o estelionato eleitoral é prova cabal disso, com Marina, para o temor dos rentistas, talvez poderia se tornar real. Precisaram, então, tirá-la do páreo.

Tenho inúmeras ressalvas à Marina e, por eu pertencer a uma esquerda radical e ela, assim como o PT, ter um caráter centrista, não votaria nela, mas isso não me impede de dar o real nome aos bois e de apontar a hipocrisia dessa esquerda que ancora as suas construções discursivas numa falsa polarização vitimista criada pelo PT. Alguns ex-governistas dizem que querem ver Aécio preso, mas na realidade precisam dele solto para que esse discurso de vitimização possa ser perpetuado.

Numa época difícil em que somos soterrados pelos ataques cotidianos perpetrados pelo governo de Temer, a tese de que os governos petistas foram “anos dourados” é reforçada. Tendo em vista isso, creio ser fundamental recordar, ainda que de forma breve, os erros cometidos por parte considerável do ex-governismo, especialmente num país como o nosso em que a desmemória parece tomar conta de tudo. Como disse o intelectual Idelber Avelar em sua rede social, um capítulo da história da esquerda brasileira terá que ser dedicado a esse estranhíssimo fenômeno que, a meu ver, elucida a miséria de parte considerável da esquerda ex-governista.

*João Miranda é acadêmico de História na Universidade Estadual de Ponta.

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