Redação Pragmatismo
Mulheres violadas 21/Jul/2017 às 16:20 COMENTÁRIOS

"Sofri um estupro coletivo e quase morri no dia do meu casamento"

"Sobrevivi a um estupro coletivo no dia do meu casamento. Os homens se revezaram para me violentar. Sabia que ia morrer, mas estava lutando por minha vida..."

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Quando a queniana Terry Gobanga – então Terry Apudo – não apareceu no dia do seu casamento, ninguém poderia imaginar que ela havia sido sequestrada, estuprada e deixada à beira da morte no acostamento de uma estrada. Foi a primeira das duas tragédias a atingi-la. Mas ela sobreviveu. Veja abaixo o seu depoimento:

“Seria um grande casamento. Era pastora, então, todos os membros da nossa igreja haviam sido convidados, assim como nossos parentes. Harry, meu noivo, e eu estávamos muito ansiosos – afinal, nos casaríamos na Catedral de Todos os Santos de Nairóbi (capital do Quênia) e eu havia alugado um lindo vestido.

Mas na noite anterior ao casamento, percebei que algumas das roupas de Harry estavam comigo, incluindo sua gravata. Ele não poderia se casar sem ela, então, uma amiga que havia passado a noite na minha casa se ofereceu a levá-la para ele logo de manhã. Acordamos durante a madrugada e eu a levei até o ponto de ônibus.

Quando estava voltando para casa, passei por um homem que estava sentado no capô de um carro. De repente, ele me segurou por trás e me jogou no banco traseiro. Havia mais dois homens dentro do veículo, que partiu.

Tudo aconteceu numa fração de segundo.

Um pano foi enfiado na minha boca. Chutava, me debatia e tentava gritar. Quando consegui me livrar da mordaça, gritei: “É o dia do meu casamento!” Foi quando levei o primeiro soco. Um dos homens me disse para “cooperar ou eu morreria“.

Os homens se revezaram para me estuprar. Sabia que ia morrer, mas estava lutando por minha vida, então quando um dos homens tirou o pano da minha boca, mordi o pênis dele. Ele gritou de dor e outro me esfaqueou na altura do meu estômago. Então, eles abriram a porta e me jogaram para fora do carro em movimento.

Estava a quilômetros de casa, fora de Nairóbi. Mais de seis horas se passaram desde que havia sido sequestrada.

Uma criança me viu sendo lançada para fora do carro e chamou sua avó. As pessoas vieram correndo. Quando a polícia chegou para verificar minha pulsação, ninguém conseguiu. Pensaram que estava morta, me envolveram num lençol e começaram a me levar ao necrotério. Mas, no caminho, engasguei e tossi. O policial me perguntou: “Você está viva?” Então, ele deu meia volta e me levou ao maior hospital público do Quênia.

Cheguei em choque, murmurava palavras incoerentes. Estava seminua e coberta de sangue, e meu rosto estava inchado por causa do soco. Mas algo fez a enfermeira-chefe desconfiar de que eu era uma noiva. “Vamos às igrejas perguntar se não há uma noiva desaparecida“, disse ela às enfermeiras.

Você estão dando falta de uma noiva?”, perguntou a enfermeira em telefonema para a Catedral de Todos os Santos.
Sim, havia um casamento às 10h e ela não veio“.

Quando eu não apareci na igreja no horário marcado, meus pais entraram em pânico. As pessoas saíram para me buscar. Boatos se espalharam. Alguns se perguntaram: “Será que ela mudou de ideia“. Outros afirmaram: “Não é do feitio dela…o que aconteceu?”

Depois de algumas horas, eles retiraram a decoração para que a próxima cerimônia fosse realizada. Harry foi colocado na sacristia para esperar.

Quando eles ouviram onde eu estava, meus pais vieram para o hospital com praticamente todos os convidados.

Harry estava carregando meu véu. Mas a imprensa rapidamente ficou sabendo da história e jornalistas passaram a cercar o hospital.

Fui encaminhada a outro hospital onde tinha mais privacidade. Foi quando os médicos trataram dos meus ferimentos e compartilharam uma das piores notícias da minha vida: “O ferimento foi muito profundo e atingiu seu útero, e você não poderá ter filhos“.

Recebi a pílula do dia seguinte, além de retrovirais para evitar que contraísse HIV. Fiquei sem reação, me recusava a aceitar o que havia acontecido.

Harry continuava a dizer que queria se casar comigo. “Quero cuidar dela e garantir que ela volte para casa com saúde“, disse ele.

Verdade seja dita, não estava numa posição de dizer Sim ou Não porque ainda não havia conseguido esquecer o que tinha acontecido comigo.

Dias depois, quando a sedação diminuiu, pude olhá-lo no olho. Não parava de pedir desculpas. Sentia que eu o havia desapontado. Algumas pessoas disseram que foi minha culpa sair de casa de manhã. Foi bem doloroso, mas minha família e Harry me apoiaram.

A polícia nunca conseguiu prender os estupradores. Por diversas vezes, fui chamada para identificar possíveis suspeitos, mas nenhum deles se parecia com meus agressores. A cada vez que ia à delegacia, era um sofrimento e acabava prejudicando minha recuperação. No final, disse aos policiais: “Você sabe de uma coisa? Estou farta disso“.

Três meses depois do ataque, recebi o resultado negativo do meu teste de HIV e fiquei muito feliz, mas eles me disseram que eu deveria esperar mais três meses para garantir. Ainda assim, eu e Harry começamos a planejar nosso ‘segundo’ casamento.

Embora tenha ficado muito zangada com a pressão da imprensa, alguém leu minha história e me pediu para se encontrar comigo. Seu nome era Vip Ogolla, e ela havia sobrevivido a um estupro. Conversamos e fui informada de que ela e seus amigos queriam me dar uma festa de casamento de graça.

Faça o que você quiser“, disse ela.

Fiquei paralisada. Escolhi um tipo diferente de bolo, muito mais caro. Em vez de um vestido alugado, agora eu poderia comprar um.

Em julho de 2005, sete meses depois do que seria o nosso primeiro casamento, eu e Harry nos casamos e saímos de lua de mel.

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Quase um mês depois, estávamos em casa numa noite bem fria. Harry acendeu um aquecedor a carvão e o colocou no quarto. Depois do jantar, ele o tirou de lá porque o quarto já estava bem aquecido. Me joguei debaixo das cobertas e ele trancou a casa. Então, ele veio para a cá e disse que estava um pouco tonto, mas não nos demos muita importância.

Estava tão frio que eu não consegui dormir, então sugeri que pegássemos outro cobertor. Mas Harry disse que não conseguiria, pois não tinha forças. Estranhamente, eu não conseguia me levantar. Percebemos que algo estava errado. Ele desmaiou. Eu desmaiei. Ainda guardo na memória o que aconteceu. Eu me lembro de falar com ele. Em alguns momentos, ele me respondia, em outros não. Saí da cama e vomitei, o que me recobrou as forças.

Engatinhei até o telefone. Chamei minha vizinha e disse: “Algo está errado. Harry não está respondendo“.

Ela veio até a minha casa imediatamente, mas me levou muito tempo para engatinhar e abrir a porta da frente, pois desmaiava a todo instante. Vi uma multidão de pessoas entrando, gritando. E, então, desmaiei novamente.

Acordei no hospital e perguntei onde meu marido estava. Me disseram que estavam cuidando dele no outro quarto.

Eu disse: ‘Sou pastora, já passei por muitas situações na minha vida, preciso que vocês sejam diretos comigo.’

O médico me olhou e disse: “Desculpe, seu marido morreu“.

Não conseguia acreditar.

Voltar à igreja para o funeral foi horrível. Um mês antes, estava lá usando meu vestido branco. Harry me esperava no altar, com seu terno. Agora, estava vestida de preta e ele estava dentro de um caixão.

As pessoas pensavam que eu estava amaldiçoada e impediam seus filhos de se aproximar de mim. “Há um mau presságio sobre ela“, diziam. Em determinado momento, cheguei a acreditar nisso.

Outros me acusaram de matar meu marido. Isso realmente me deixou muito mal – eu estava de luto.

A necropsia mostrou o que realmente aconteceu: envenenamento por monóxidos de carbono.

Entrei em colapso. Me senti traída por Deus, traída por todos. Morri para mim mesma.

Um dia, estava sentada na varanda olhando para os pássaros e disse a mim mesma: ‘Deus, como o Senhor pode cuidar dos pássaros e não de mim?

Naquele instante, lembrei que o dia tem 24 horas – ficar trancada em casa com as cortinas fechadas é um desperdício de tempo. Antes de você perceber, passaram-se semanas, meses e anos. A realidade é dura.

Disse a todo mundo que nunca me casaria de novo. Deus levou meu marido, e o pensamento de passar por uma nova perda era demais para mim. É algo que eu não desejaria para ninguém. A dor é tão intensa, você a sente em todas as partes do seu corpo.

Mas havia um homem – Tonny Gobanga – que continuava a me visitar. Ele me incentivava a falar do meu marido e dos bons momentos que passamos juntos. Uma vez, ele não me telefonou por três dias e eu fiquei muito chateada.

Foi quando percebi que estava apaixonada por ele.

Tonny me pediu em casamento, mas disse a ele para comprar uma revista, ler minha história e dizer se ele ainda me amava. Ele voltou e afirmou que ainda queria se casar comigo.

Mas eu disse: ‘Escute, há outra coisa – eu não posso ter filhos, então, não posso me casar com você‘.

Crianças são um presente de Deus‘, respondeu ele. ‘E se nós os tivermos, amém. Caso contrário, vou ter mais tempo para te amar‘.

Depois disso, disse ‘sim‘.

Tonny foi contar sobre o casamento a seus pais, que ficaram muito entusiasmados, até ouvirem minha história. ‘Você não pode se casar com ela – ela é amaldiçoada‘, disseram eles.

Meu sogro se recusou a vir ao casamento, mas nós decidimos seguir com os planos. Tínhamos 800 convidados – muitos vieram movidos pela curiosidade.

Três anos após meu primeiro casamento, estava com muito medo. Quando estávamos trocando votos, pensei: ‘Estou aqui de novo, Pai, por favor, não o deixe morrer‘.

Quando a congregação rezou por nós, chorei compulsivamente.

Um ano depois de nos casarmos, me senti mal e fui ao médico – para a minha surpresa, soube que estava grávida.

Os meses se passaram e me colocaram de cama, por causa do ferimento à faca no meu útero. Mas tudo correu bem, e nós tivemos uma menina, que chamamos de Tehille. Quatro anos depois, tivemos outra, Towdah.

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Hoje, eu e meu sogro temos um ótimo relacionamento.

Escrevi um livro, Crawling out of Darkness (Rastejando para Fora da Escuridão, em tradução livre), sobre a minha vida. Meu objetivo era dar esperanças às pessoas. Também montei uma ONG, chamada Kara Olmurani.

Trabalhamos com sobreviventes de estupro, como gosto de chamá-los, não vítimas de estupro. Oferecemos terapia e apoio. Queremos construir um abrigo, onde eles possam permanecer até conseguir encarar a realidade novamente.

Perdoei meus agressores. Não foi fácil, mas percebi que não valia a pena. Minha fé me estimula a perdoar e não pagar o mal com o mal, mas com o bem.

O mais importante para mim foi o luto. Passe por cada etapa dele. Fique triste até você conseguir lidar com a situação. Você tem de continuar em frente, mesmo que tenha de rastejar. Mas siga na direção do seu destino porque ele está te esperando. ”

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