Redação Pragmatismo
Fotografia 16/Feb/2017 às 15:11 COMENTÁRIOS

Negativo fotográfico mais antigo da história registrou um 'momento perfeito'

Uma janela de uma abadia do século XIII, rodeada de árvores e iluminada pelos raios do sol se pondo num verão de 1835, foi aprisionada para sempre por um cientista em busca da permanência: William Henry Fox Talbot

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Primeiro negativo do mundo registra janelas da abadia em 1835 e a imagem atual da Abadia de Lacock (Montegem: Pragmatismo Político)

William Henry Fox Talbot preservou para sempre a imagem da janela de sua residência, a Abadia de Lacock, em Wiltshire, na Inglaterra, no mais antigo negativo fotográfico de que se tem notícia, criado em 1835.

A abadia era o lar de sua família desde 1574, herdado de pai a filho, século após século.

William Henry Fox Talbot nasceu em 1800 numa família aristocrática. Diz-se que quando o rei Charles 2º voltou à Inglaterra para a restauração da monarquia, seu antepassado John Talbot foi a primeira pessoa que o recebeu.

Porém, antes de nascer, o pai de Fox Talbot acumulara uma enorme dívida, o equivalente hoje a cerca de US$4 milhões (R$12,4 milhões). Além disso, Talbot perdeu o pai quando tinha apenas 5 meses.

Sua mãe, Lady Elisabeth, viúva aos 27 anos, tinha apenas uma opção diante da pressão dos credores: alugar a casa e ir embora. Ela e seu filho passaram os 25 anos seguintes mudando-se de casa em casa, vivendo em mansões de amigos e familiares.

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William Henry Fox Talbot e família deixaram de morar na casa

A importância do duradouro

A ameaça que pairava sobre sua própria casa, que poderia ser perdida a qualquer momento, impactou fortemente Fox Talbot.

O jovem certamente tinha interesse na permanência. Quando começou a escrever cartas no internato de Harrow, aos 8 anos, expressou um desejo muito específico: “Diga a mamãe e a todos que guardem as cartas, não as queimem“.

O inglês guardava tudo: ainda se conservam seus cadernos, cartas e anotações. Graças a isso que sabemos que, aos 11 anos, ele já escrevia a sua mãe em francês, salpicado de latim e grego.

E também era curioso. Durante seus anos no internato, ele convenceu um ferreiro da cidade de Harrow a deixá-lo fazer experiências químicas em sua oficina.

Na Universidade de Cambridge, continuou desenvolvendo seu interesse por diferentes áreas. Ganhou uma medalha em estudos clássicos e um prêmio por seus versos gregos, enquanto se dedicava a aprender matemática e ciência.
Quando se graduou, a Abadia de Lacock continuava alugada. E Talbot foi viajar.

Em 1828, a família recuperou a casa. Dois anos depois, Fox Talbot se casou com uma mulher chamada Constance; e em mais dois anos, eles tiveram sua primeira filha, Ela, em memória à condessa que fundou a Abadia de Lacock, em 1232.

Quando sua vida tinha finalmente endereço fixo, Fox Talbot começou a pesquisar como tornar a luz efêmera em imagem permanente.

Não era a única pessoa em busca desse feito. Na Europa e nos Estado Unidos, vários se esforçavam em encontrar uma mistura química apropriada que reagiria com a luz para capturar imagens e firmá-las em papel ou vidro.

Sabia-se que a luz produzia um efeito em certas tintas e produtos químicos – as cores do papel de parede perdiam sua intensidade nos lugares expostos à luz, um contraste que se notava ao mover um móvel de lugar.

Só que era preciso um pigmento que reagisse de forma muito precisa e que deixasse de reagir quando necessário.
Experimentos químicos

Fox Talbot fez experimentos com a câmera escura, um equipamento que refletia uma imagem do mundo real num papel branco.

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Mas essas imagens não eram fixas, mudavam constantemente, tanto que ele as chamou de: “imagens de fadas, criações de um momento destinadas a desaparecer com a mesma rapidez“.

Fox Talbot, que foi a criança que não queria que suas cartas fossem queimadas, que recuperou a casa da família e que finalmente alcançou estabilidade, tratou de usar os produtos químicos para fazer com a imagem o mesmo que com sua vida: fixá-la.

Por experiências passadas, ele sabia que o nitrato de prata era “uma substância peculiarmente sensível à ação da luz“, de modo que ele cobriu um papel com o produto e o expôs à luz do sol. Não funcionou.

Ele tentou com cloreto de prata; com uma solução salina; mudou as proporções; usou tudo numa ordem diferente… Notou que as bordas do papel escureciam mais rapidamente.

Suponho que as bordas absorvam uma quantidade menor de sal, e por alguma razão isto as fez mais sensíveis à luz“.

Ele tinha razão: o sal evitava que o papel escurecesse, assim, o usou como fixador. Banhou o papel sensível à luz em água salgada para evitar que a imagem escurecesse mais do que o desejado.

Fixação da imagem em negativo

O problema com um papel que escurece quando recebe luz é que as partes mais brilhantes do mundo real são negras no papel, e vice-versa. Fox Talbot chamou esta imagem ao contrário de “negativo“.

E chegou a uma solução engenhosa: “se o papel é transparente, o primeiro desenho serve para produzir um segundo desenho em que as luzes e sombras estarão ao contrário“.

Talbot percebeu que a luz atravessava o “negativo” e se fixava num papel sensível à luz, formando a imagem com luzes e sombras no lugar correto.

Além disso, os negativos podiam ser usados mais de uma vez para criar cópias do mesmo momento.

Com mais cópias, mais difícil seria destruir no futuro o momento captado do passado – um conceito poderoso para alguém que havia crescido com o temor de perder o lar que há séculos pertenceu a sua família.

Então, em 1835, Talbot chegou ao que hoje é o mais antigo negativo do mundo: uma fotografia de uma das janelas da Abadia de Lacock numa tarde de verão, que poderia ser replicada para sempre.

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“Janela de treliça (com a câmera escura). Agosto de 1835. Quando foi feita, os quadrados de vidro, uns 200 em número, podiam ser contados com a ajuda de uma lente”.

O desejo de Talbot de se agarrar ao passado não era incomum. A rápida reprodução de fotografias foi um êxito instantâneo.

E 175 anos depois que Fox Talbot inventou o processo negativo/positivo, continuamos obcecados com a capacidade de registrar, reproduzir e difundir fotografias.

Naomi Alderman, BBC

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