Redação Pragmatismo
Política 17/Feb/2017 às 14:14 COMENTÁRIOS

Mitos e verdades sobre a morte do irmão de Kim Jong-un

O que realmente sabemos sobre a morte súbita do meio-irmão de Kim Jong-un que vivia em exílio? Confira as principais perguntas e respostas sobre o assassinato

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Kim Jong-nam e o meio-irmão, líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un (Montagem: Pragmatismo Político)

Por Foster Klug, da Associated Press em Seul

O que realmente sabemos sobre a morte súbita de um membro da família do governo da Coreia do Norte que vivia em exílio? Além das especulações fervilhantes da mídia e da reação instantânea de “a culpa só poder ser de Pyongyang“, por parte de uma agência de espionagem da Coreia do Sul, não muito.

Enquanto a investigação prossegue, o mistério sobre o que exatamente aconteceu com o meio-irmão do ditador norte-coreano, Kim Jong-un, enquanto ele esperava o avião em um aeroporto da Malásia, não para de crescer.

Kim Jong-nam foi envenenado? As duas mulheres suspeitas de um possível ataque são assassinas treinadas ou apenas bodes expiatórios? Como podemos ter certeza de que a Coreia do Norte, que parece a mais provável culpada, esteve envolvida?

O Serviço de Inteligência Nacional da Coreia do Sul –uma agência nada amiga de Pyongyang– e repórteres apressados de toda a Ásia criaram um perfil dramático, quase cinematográfico, sobre a hora final de vida de Kim. Mas o número de perguntas sem resposta ainda é imenso.

Abaixo, algumas delas:

Kim foi envenenado?

Essa pergunta talvez seja respondida em breve.

Kim se queixou antes de morrer de que alguém havia borrifado alguma espécie de produto químico em seu rosto. Presumivelmente a autópsia das autoridades malasianas, que ainda está em curso, determinará se Kim foi morto por um veneno e, caso isso tenha acontecido, que veneno.

Uma grande questão é de que maneira os possíveis assassinos teriam aplicado uma dose fatal de um produto químico contra uma pessoa que estava em um movimentado aeroporto.

O serviço de inteligência da Coreia do Sul diz que Kim quase certamente foi envenenado, mas não está claro se isso teria acontecido por meio de uma agulha ou de um spray, e os sul-coreanos não ofereceram outros detalhes.

Uma possibilidade é que o veneno seja brometo de neostigmina, que as autoridades da Coreia do Sul afirmam ser aplicável por meio de uma arma semelhante a uma caneta, usada em uma tentativa frustrada norte-coreana de assassinar um ativista hostil à Coreia do Norte em 2011.

Ou o veneno poderia ser cianeto ou gás sarin, de acordo com um professor de uma universidade de Seul que pediu que seu nome não fosse mencionado porque os resultados da autópsia de Kim ainda não foram divulgados.

O gás sarin foi usado em um atentado no metrô de Tóquio em 1995.

E o que acontece caso Kim não tenha sido envenenado? Bem, a mídia deve recuar tão rápido quanto acelerou, e a agência de espionagem da Coreia do Sul terá que oferecer explicações embaraçosas.

Foi mesmo a Coreia do Norte?

Responsabilizar a Coreia do Norte, claro, é a resposta fácil.

O serviço de espionagem sul-coreano considera a Coreia do Norte como culpada por todos os problemas e, em um briefing quase imediato a legisladores em Seul, responsabilizou agentes norte-coreanos pela morte, afirmando que Kim Jong-nam vinha sendo atacado há cinco anos por causa da “paranoia” de Kim Jong-un.

A maioria dos veículos noticiosos adotou essa explicação, mas até agora as autoridades da Malásia não apontaram para vínculos sólidos com a Coreia do Norte.

Quando questionado, na quinta-feira (16), se a Coreia do Norte estava por trás do homicídio, o ministro assistente do Interior malasiano, Zahid Hamidi, disse que “isso é especulação“.

O que não significa que a Coreia do Norte não poderia ter orquestrado um ataque como esse. O atentado se enquadra a um determinado perfil: agentes norte-coreanos em diversas ocasiões realizaram ações na Coreia do Sul, matando desertores, em certos casos por envenenamento, e críticos do regime.

Quem são as mulheres que foram detidas?

As duas mulheres detidas em conexão com a morte de Kim foram apanhadas pelas câmeras de vigilância do aeroporto nas imediações dele, quando adoeceu.

As duas parecem estar na casa dos 20 anos. Uma tem passaporte indonésio, e a outra porta documentos de viagem vietnamitas e foi vista, em imagens de baixa definição, esperando um táxi e usando um macacão no qual se lia “LOL” (jargão de Internet para “rindo alto”).

Mas seu possível envolvimento na morte de Kim ainda é incerto.

Será que simplesmente estavam no lugar errado na hora errada? Seriam agentes norte-coreanas, e até quem sabe cidadãs norte-coreanas usando passaportes falsos? Kim Jong-nam, em um dos momentos mais desanimadores de sua vida, passou por humilhação ao tentar entrar de fininho no Japão para visitar a Disneylândia de Tóquio –com um passaporte da República Dominicana.

A polícia está tentando verificar se os documentos de viagem das mulheres eram originais, de acordo com o ministro malasiano. A polícia disse ter detido também um terceiro suspeito, de nacionalidade malasiana, que ao que se sabe namora a suspeita que porta passaporte indonésio.

Se esse foi um homicídio cuidadosamente planejado –fruto de uma trama iniciada há anos, de acordo com os serviços de inteligência da Coreia do Sul– há ainda outras questões a responder: agentes norte-coreanos se deixariam prender com tamanha facilidade? (Uma das mulheres foi detida no aeroporto dois dias depois da morte de Kim). E fugiriam da cena do crime de táxi?

Outros exilados norte-coreanos podem estar em perigo?

O governo da Coreia do Sul disse que estava reforçando a segurança dos mais conhecidos desertores norte-coreanos que vivem no país, muitos dos quais já contam com proteção policial.

Kim Jong-nam foi protegido por muito tempo pela China, em sua base em Macau, de acordo com o serviço de espionagem sul-coreano. Agentes sul-coreanos dizem que ele deixa dois filhos e uma filha, de duas mulheres diferentes, que vivem em Pequim e Macau.

Ha Taekeung, legislador sul-coreano que luta pelos direitos humanos na Coreia do Norte, declarou em entrevista no rádio quinta-feira que Kim Han-sol, filho de Kim Jong-nam, pode estar em perigo, porque sabe de segredos delicados sobre a vida pessoal de Kim Jong-un.

Kim Han-sol, que vivia com o pai em Macau, descreveu Kim Jong-un como “ditador” em uma entrevista em 2012.

O que a China fará?

A China, mais importante aliada da Coreia do Norte, pouco disse oficialmente sobre a morte. Pequim ao que se sabe via Kim Jong-nam como potencial líder caso o governo da Coreia do Norte entre em colapso.

Um editorial do “Global Times”, o jornal em inglês do Partido Comunista chinês, afirmou na quinta-feira que a China expressaria condenação caso surja confirmação de que Kim foi assassinado.

Independentemente de o quanto a disputa política interna de um país seja intensa, não existe dúvida de que não se deve depender de assassinato político como forma de avançar em direção de objetivos“, diz o editorial diz.

Embora ainda não tenha emergido uma conclusão final sobre a morte súbita de Kim Jong-nam, as especulações até agora apontam firmemente na direção de Pyongyang“.

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