Ramon Brandão
Colaborador(a)
Academia 25/Feb/2017 às 12:00 COMENTÁRIOS

Carta aos pensadores errantes

A experiência de uma reflexão errante não está além do mundo e, tampouco, é o reflexo do mundo; ela é, antes, a presença de algo no mundo antes que o mundo o seja, de fato; é a irrupção que resta quando tudo desaparece; é o estupor daquilo que aparece quando já não há nada.

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Ramon Brandão*, Pragmatismo Político

Nietzsche, filósofo alemão, apelava para que nós, os pensadores do futuro, refletíssemos e desenvolvêssemos “o outro” que habita em nós, para além dos limites da razão, da moral e da verdade de nosso tempo. Razão, moral e verdade que tentam, ainda hoje e desde a muito, suprimir aquilo que designaram como a “parte maldita” da existência.

Por isso, não resta outra coisa aos pensadores singulares, àqueles que adotam e que compreendem a vida como experimentação, como um ensaio a partir do próprio conhecimento, senão a errância; resta a eles senão o abandono das crenças e das metafísicas enraizadas em nossa subjetividade que bloqueiam qualquer abertura para a constituição de formas outras de viver e de se comportar no mundo.

O trabalho de tais pensadores errantes é, sobretudo, árduo, e são muitos os que desistem dessa difícil responsabilidade. É um trabalho que exige a transmutação do pensamento, o desmonte das certezas que, até agora, carregávamos. No fim, exige um estado de questionamento permanente de si e do mundo.

Apesar do fardo pesado, tais pensadores gozam de algo que poucos indivíduos são capazes: descobrem uma potência que somente o conhecimento é capaz de fazer sentir. Reconhecem, como nenhum outro, a vastidão dessa potência e se dão conta, como poucos, do quão insuficientes são as relações no mundo.

Tais pensadores sentem, e somente eles, uma espécie de mansa alegria frente ao desconhecido, frente ao que há de vir – apesar de todo o risco e de todo o perigo que viagens sem destino podem trazer. No entanto, a irresistível vontade de conhecer e de, posteriormente, tanto viver quanto disseminar aquilo que se conheceu supera qualquer fagulha de medo, de desconfiança, de desespero e/ou desejo de quietude.

Edgar Allan Poe, em seu fantástico conto “Manuscrito encontrado numa garrafa”, registra esse momento sublime, essa potência arrasadora que toma o coração de indivíduos errantes:

Conceber o horror de minhas sensações é, presumo, inteiramente impossível; contudo, a curiosidade de penetrar o mistério dessas regiões espantosas chega a dominar meu desespero e me consola dos mais hediondos aspectos da morte. É evidente que estamos a precipitar-nos para alguma estonteante descoberta, para algum segredo irrevelável […] cujo alcance significa [nossa] destruição. A tripulação percorre o tombadilho com passos trêmulos e hesitantes; mas em sua fisionomia e em sua expressão há mais avidez de esperança do que apatia de desespero”.

Essa avidez de que fala Edgar A. Poe é a mesma que deve possuir os pensadores da atualidade. Uma espécie de intenso desassossego frente às verdades que nos foram herdadas, frente às ideias que nos foram transmitidas, como se já nascessem prontas. E a história, com toda a sua contundência, nos prova que nenhuma verdade, uma única sequer, perdura intocável ao longo dos séculos.

Por isso a experimentação do que nos foi amaldiçoado e a errância para com o pensamento e os modos de vida, estão entre as únicas possibilidades de deslocamento, de transmutação do que está cristalizado, de desmantelamento do que nos dizem sólido. É a vontade de renunciar ao território já conhecido e explorado da verdade de nosso tempo (em prol de um território outro, ainda a ser descoberto e apreendido) que motivou não somente algumas das reflexões de Nietzsche e, mais tarde, de Michel Foucault mas que, hoje, deve motivar a nossa atualidade e os nossos pensadores. A mesma vontade de movimento, a mesma ânsia por tudo aquilo que é inexplorado.

Não nos enganemos, meus caros. Tudo aquilo que é solido hoje, se desmanchará no ar de amanhã.

Por isso, aliás, as ciências humanas e as artes em geral são tão fundamentais para o mundo. Elas nos ajudam a conhecer as formas e as possibilidades de se pensar e de se viver distintamente, ao invés do fácil e preguiçoso trabalho de reproduzir aquilo que está impregnado em nós.

Neste mundo, o nosso mundo, não existe repouso (por mais que, em alguns momentos, o desejemos). A calmaria sempre anuncia uma nova tempestade e o pensamento, no interior dessa imagem, é como o vento que nos impele uma série de rajadas e de abalos, anunciando a tormenta que está por vir. Como diria o filósofo alemão Leibniz: “Pensava-se estar no porto, e de novo se é lançado ao alto-mar”.

Aos pensadores errantes da atualidade, por vezes tidos como loucos, intelectualmente violentos, pessimistas, pós-modernos e abruptos, resta a vocês a transformação da atividade intelectual em uma experiência abismal, temerária, pois nesta espécie de jogo é a própria vida que se desloca para a zona de risco. Resta a vocês, pensadores, deixarem ao mundo as ferramentas necessárias para a futura transformação do olhar, viabilizando futuras experiências-limite, radicais, que jamais se deixarão cristalizar numa única forma.

De que valeria a obstinação do saber se ela assegurasse apenas a aquisição dos conhecimentos e não, de certa maneira, e tanto quanto possível, o descaminho daquele que conhece?”, pergunta Foucault.

O mundo agoniza, e neste sofrimento ele clama por experiências que sejam transformadoras; experiências que possam deslocar o sujeito e a verdade de nosso tempo; reflexões conduzidas tanto com o pensamento quanto com o próprio corpo.

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Até que ponto os pensadores da atualidade suportarão esses novos ensaios e quais serão os limites desses experimentos, ainda não sabemos. Como disse, trata-se de lançar-se nas profundezas do des-conhecimento. O que sabemos é que a experiência é uma ferramenta fundamental no exercício de elevação do modo de ser de um indivíduo. Sabemos que ela não se resume a um instrumento impessoal. Que não se trata, para dela usufruir, de uma simples aquisição de conteúdo, de informações ou de interpretações sobre o mundo. Sabemos, ainda, que ela não se reduz à mera circulação de corpos. A experiência, junto ao conhecimento, é o pilar de sustentação do sujeito ético. É, sobretudo, uma prática, um exercício, uma atividade que se realiza sobre si mesmo. O sujeito que pratica a experiência e o conhecimento é, digamos, uma cobaia do seu próprio experimento, pois testa em si aquilo que passa a conhecer.

Os pensadores errantes, que engajam suas vidas na tarefa de abrir mares e que, de fato, compreendem a linguagem dos ventos e das tempestades do pensamento, são um e, ao mesmo tempo, muitos. Os pensadores a quem o mar revela e partilha os seus segredos acabam se transformando e abandonando o porto seguro da identidade e das verdades produzidas em solo firme.

Colocar-se fora de si e fora do mundo é, antes de tudo, inaugurar uma experiência outra na qual as coisas não são, ainda. A experiência errante carrega consigo um porvir, um “ainda não” que marca a sua possibilidade. Ela escancara os indivíduos em sua indeterminação original. A experiência de uma reflexão errante não está além do mundo e, tampouco, é o reflexo do mundo; ela é, antes, a presença de algo no mundo antes que o mundo o seja, de fato; é a irrupção que resta quando tudo desaparece; é o estupor daquilo que aparece quando já não há nada.

*Ramon Brandão é mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e colabora para Pragmatismo Político

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