Redação Pragmatismo
Cultura 31/Jan/2017 às 15:21 COMENTÁRIOS

Ministério da Cultura rompe parceria com escola de cinema de Cuba

Para ex-secretários do Ministério da Cultura, fim da parceria entre o Brasil e a Escola Internacional de Cinema e TV de Cuba representa grande perda ao cinema nacional e revela 'preconceito ideológico'

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Ivana Bentes e João Brant comentam o fim da parceria com a EICTV (Imagem: Pragmatismo Político)

Gabriel Valery, RBA

A decisão do Ministério da Cultura (MinC) é tacanha, baseada em uma visão ideológica tacanha de preconceito contra Cuba. Vamos ter uma perda, sem dúvida”, afirmou o ex-secretário executivo do MinC João Brant, que trabalhou na pasta até o fim do governo Dilma Rousseff (PT), sobre a descontinuidade do convênio de 30 anos entre o governo e a Escola Internacional de Cinema e TV de San Antonio de Los Baños (EICTV), em Cuba. “É lamentável que o ministério acabe com essa política de trabalho conjunto”, acrescentou, sobre ato governo de Michel Temer (PMDB).

A EICTV é referência no ensino de audiovisual do mundo, vista como a melhor escola da área na América Latina. Fundada em 1986, teve como pioneiro e principal investidor o escritor ganhador do prêmio Nobel de literatura Gabriel García Márquez. “García Márquez e seus amigos cineastas contaram com a decisiva contribuição do Estado cubano (…) Não foi o bastante e o colombiano doou seu Nobel para a nova escola”, afirma o ex-diretor geral da EICTV Orlando Senna, em seu prefácio para a terceira edição da obra Como Contar um Conto (1997), de García Márquez. Da instituição saíram importantes nomes do cinema nacional, como Erik Rocha, vencedor do prêmio Olho de Ouro em Cannes pelo documentário Cinema Novo (2016).

O MinC oferecia bolsas de até 75% do valor do curso para os brasileiros que passavam pelo processo seletivo da escola. O curso completo tem o valor de 15 mil euros (cerca de R$ 70 mil), incluindo despesas como hospedagem, alimentação e transporte. O coordenador-geral de seleção da EICTV Brasil, Guigo Pádua, explicou que o fim do convênio não foi formalizado, e sim descontinuado. “Não houve uma comunicação. O processo do convênio vinha sendo revisto e com as mudanças na Secretaria do Audiovisual (SAV), a discussão simplesmente não foi retomada”.

Brant, que atuou na pasta durante a gestão do ministro Juca Ferreira até sua exoneração, em maio do ano passado, afirmou que “estava acertada a continuidade da parceria. Existiam diálogos durante o governo Dilma para garantir a continuidade e aprimorar o sistema do convênio. Este era o objetivo”. Pádua disse que estão tentando retomar o diálogo, mas “ainda não houve uma posição formal”. De acordo com matéria do jornal O Globo, a decisão não é definitiva e o ministro Roberto Freire teria dito que “sabe da importância da escola“.

Entretanto, os interessados em ingressar na renomada instituição, que contou com docentes como Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão, 1972) e o próprio García Márquez, devem arcar com os custos até o momento, de acordo com a própria instituição. “Para o próximo triênio as pessoas devem prestar a prova e, se passarem, conseguir ou um patrocínio ou bancarem. Começamos nesta semana as inscrições para as turmas de 2017 a 2020, e vão até o dia 3 de março”, disse Pádua.

‘Boçalidade não tem limite’

Ivana Bentes, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e ex-secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do MinC, engrossou o discurso de Brant de que o preconceito ideológico deve prejudicar o audiovisual nacional. “A boçalidade não tem limite. Diferentes gerações de brasileiros passaram pela escola, e com cursos de formação que vão dos clássicos do cinema brasileiro, cubano, cinemas de toda a América Latina e do mundo até as técnicas e linguagens do cinema hollywoodiano”, afirmou, em seu Facebook.

O golpismo tupiniquim e provinciano tem medo de Cuba. Cortaram as bolsas para os estudantes brasileiros financiadas pelos dois governos e no Brasil sob encargo do MinC”, disparou. Para Brant, o ato não significa necessariamente um corte nos investimentos, nem possui razões econômicas de austeridade. “O Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) continua, assim como os editais. Não tem relação com recursos, é apenas um preconceito específico contra a EICTV”, concluiu.

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