Redação Pragmatismo
Homofobia 16/Nov/2016 às 15:48 COMENTÁRIOS

Minha infância viada

infância viada gay criança bullying pais

Edson Ferreira Alexandrino Junior, Pragmatismo Político

Que ser gay não é fácil, não é novidade pra ninguém, no entanto, ser uma “criança viada” em uma cidade do interior, faz a fase atual parecer moleza. Não é nada fácil, sem drama… É complicado mesmo.

Quando se é criança, até seu primeiro contato com a sociedade – pré-escola ou ensino básico – na sua cabecinha, tudo é normal, lindo e aceitável. No entanto, a sociedade cruelmente acaba com isso no primeiro momento em que você é exposto à ela.

Começa assim: Meninos brincavam de bola, jogavam vídeo game e lutavam como seus super-heróis favoritos. As meninas, sempre delicadinhas, todas coloridas, brincando com suas bonecas, seus utensílios domésticos e ursinhos de pelúcia.

Até aí tudo “normal”. Mas… E eu? Comecei a perceber que não achava graça nos assuntos e nas coisas dos meninos, porém, também não tinha paciência para as coisas das meninas. Eu, e mais um ou outro, estávamos no meio da linha. Os meninos não queriam brincar com os “viadinhos” que não sabiam jogar futebol. E as meninas, bem… não tinha espaço para os meninos no seu salão de beleza improvisado.

Esta é, sem dúvidas, a primeira lapada que a sociedade da na nossa cara e a gente nem percebe. Ou percebemos e fazemos de conta que não tem nada acontecendo.

Aí depois de um tempo, como se tudo aquilo já não bastasse, as pessoas da sua família começam a perceber que você é diferente dos outros meninos (ou meninas). As coisas começam a ficar chatas em casa, por que você é cobrado, a todo momento, a ser um “menino normal”.

Lembro de uma vez que estava jogando The Sims e meu pai ficou furioso comigo, por que eu deveria estar jogando futebol, nem que fosse só pelo vídeo game igual os filhos dos amigos dele. Mas gente… eu não queria. E outra? Qual o problema nisso?

Resultado: tive que começar a jogar The Sims escondido e procurar uns jogos “de menino” pra jogar na frente das pessoas, se não arriscava ficar sem meu computador e meu vídeo game.

Vocês já pararam pra pensar, como deve ser difícil para um homem que foi criado em uma educação completamente machista, ver seu filho brincando de bonecas? Ou sua filhinha (que deveria ser) delicadinha jogando bola e subindo em árvore? É uma questão bem mais complexa do que certo ou errado.

Enfim, eu não era o mais popular do colégio, tinha um ou outro amigo, e algumas poucas amigas. Me restava brincar com meus primos mais novos (que graças a deus, em sua maioria eram meninas – altas bonecas e carrinhos cor de rosa), jogar vídeo game, assistir TV, ler tudo que é livro e descobrir a internet, que, na época, estava dando suas caras pelo Brasil.

Eu tive muita sorte de nascer em uma família maravilhosa. Embora os conflitos com meu pai ficassem cada vez mais intensos, nunca apenhei por causa da minha orientação sexual ou sofri qualquer tipo de constrangido em público. E, eu fui presenteado com a melhor mãe do mundo.

Mamis percebendo que eu era “diferente” não me cobrava um papel social diferente daquele que me era natural. Eu podia conversar com ela sobre os programas de moda que passavam na TV, podia ir com ela no salão (onde tinham as melhores revistas de fofoca), e fazia parte do seleto grupo feminino, integrado por ela e minha tia.

Antes que falem qualquer coisa nesse sentido, já adianto que minha mãe não incentivou nada, de forma alguma! Ela apenas me respeitou. O ato mais lindo de amor que uma mãe poderia ter. Ela me respeito e me aceitou. E continua fazendo até hoje. E, muitas vezes, nos conflitos com meu pai ela me defendeu.

Não guardo mágoas da minha infância, muito menos traumas e rancores do meu pai. Amo ele mais do que tudo nessa vida, realmente meu herói!! Tudo que eu tenho hoje em dia devo aos esforços e a educação que ele e minha mãe me deram.

A única coisa consistente que guardo dessa fase, além das várias fotinhas “fora do padrão”, um pouco pretty girl, eleganza extravaganza… é uma interminável reflexão de como essa educação machista é prejudicial para a infância das gay.

Infelizmente, grande parte das pessoas, não é agraciada como uma família igual a minha, e, os conflitos com os pais, resultam em espancamento, humilhações, expulsão e morte. Triste né?

Quando se é criança não se pensa “ai bixa, sou bem garota e quero ser a próxima The-Next-Drag-Super Model of the world.” Você apenas é diferente dos outros e isso é absolutamente normal. Tem que ser. É involuntário gente.

Escrevendo esse texto, revivi várias lembranças, que me fizeram rir e marejaram meus olhos. Mas, o objetivo principal dele, não é mostrar o como minha infância foi legal (por que não foi), ou o quanto minha família é perfeita (por que não é). É levar todos aqueles que lerem a um reflexão sobre como lidamos com as nossas crianças.

Uma infância traumática prejudica toda a vida da pessoa. Uma família que não acolhe torna o mundo muito mais atraente do que ele é. Aí já viu né? Então, por favor pais e mães que chegarem a ler esse texto. Acordem pra vida. Amem seus filhos, todos eles são normais!! Não é por que ele tira foto com uma mão na cintura e outra pra cima que ele é pior que o filho machão do seu amigo.

Diariamente tomamos conhecimento daqueles vides “super engraçados” onde filhos “brincam” com suas mães ou pais, falando que são gays. E a reação dos pais, não raras as vezes violentas, é motivo de riso (e apoio) por muita gente. Como pode? Não sei lidar com isso.

Leia também:
Menino de 12 anos chamado de gay grava desabafo emocionante
Menino morre em sala de aula durante sessão de bullying homofóbico
“Ter filho gay é falta de porrada”, diz Bolsonaro
Filho de pais gays morre após ser espancado
Menino negro rejeitado por heterossexuais é adotado por casal gay

Todo o processo de se assumir gay, começando por você mesmo, é bem complicado! Não é uma coisa que muda da manhã pra tarde. Não é uma coisa que deva ser levado na brincadeira. A gente passa anos pensando nas conseqüências desse ato, nos culpando por não sermos “normais” e nos envergonhando com a falsa idéia de não superarmos as expectativas de nossos pais. E ver um vídeo desse só faz lembrar o quão constrangedor é aquele momento.

Precisamos, urgentemente, re-organizar nossa estruturação social. Vamos fazer isso como? Conscientizando as pessoas sobre a normalidade da diferença? Ou afastando, com brutalidade, aqueles que não consideramos normais?

Provavelmente, enquanto eu escrevi esse texto, e, enquanto vocês leram, alguma “criança viada” esta sofrendo num canto desse mundo pela pressão social exercida dentro e fora de casa. Vamos mudar isso? Ou vamos observar o aumento das estatísticas negativas?

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook

Recomendados para você

Comentários