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As lágrimas de Orlando e o cinismo universal

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Para os que acreditavam que a homofobia era algo abstrato, as mortes em Orlando talvez tenham evidenciado a situação em termos mais concretos. O massacre deu cores e contornos visíveis à homofobia.

Manifestante exibe cartaz em solidariedade à comunidade muçulmana LGBT (reprodução)

Luis Gustavo Reis*, Pragmatismo Político

O mundo amanheceu chocado com a notícia da morte de 50 pessoas em uma boate LGBT, em Orlando, na madrugada deste domingo (12/6). Fortemente armado, Omar Matten invadiu a boate Pulse e emplacou a maior chacina com arma de fogo da história dos Estados Unidos. Uma tragédia não só para a comunidade LGBT de Orlando mas para todos aqueles que se preocupam com um mundo onde a homofobia seja varrida para a lata do lixo da história.

De Buenos Aires a Sidney, houve diversas manifestações de solidariedade e apoio aos familiares das vítimas, além do profundo pesar pelo assassinato brutal de pessoas inocentes.

As autoridades políticas fizeram jus ao oportunismo cotidiano e logo se apressaram em repudiar o atentado. O presidente da França, François Hollande, publicou uma nota em que condenava “o horror do massacre na Flórida [expressando] apoio pleno da França e dos franceses às autoridades e ao povo americano nesse momento difícil”. Quanta humanidade, senhor presidente! O dirigente poderia aproveitar o ímpeto de sinceridade e condenar os países que mantêm acordos comerciais bilionários com a França, entre eles Arábia Saudita, Nigéria e Irã, onde a homossexualidade é crime e dezenas de LGBT são barbaramente assassinados anualmente.

No Brasil, o cinismo não foi diferente. Uma lacônica nota emitida pelo Itamaraty destaca que “o governo brasileiro reafirma seu mais firme repúdio a todo e qualquer ato de terrorismo. Nenhuma motivação, nenhum argumento justifica o recurso a semelhante barbárie assassina”. A tragédia de Orlando é corriqueira no Brasil. Em 2014, 326 gays, lésbicas e travestis foram brutalmente assassinados por aqui. É como se a chacina de Orlando ocorresse 6,5 vezes por ano em território brasileiro. Quantas notas as autoridades governamentais emitiram repudiando tamanho descalabro?

Os pseudointeletuais tupiniquins também vociferaram seus impropérios. O “menino maluquinho”, suprassumo do neoconservadorismo, Kim Kataguiri, disparou a seguinte pérola: “Não foi uma ‘cultura da homofobia’ que matou as 49 pessoas em Orlando. (…) Existe homofobia no Ocidente? Figuras como Trump diriam que não. A verdade é que existe, sim, mas ela mais cerceia direitos do que mata, e é preciso que se conheça o mal que se combate para que se indique o remédio correto”. Sugiro ao filósofo da revista Caras uma análise honesta da realidade LGBT no Brasil. Relatórios divulgados por agências internacionais em 2014 apontam que dos assassinatos cometidos contra transexuais em todo o planeta, 50% aconteceram em território brasileiro, legando ao país o título de lugar mais perigoso do mundo para os gays. Matam-se mais LGBTs no Brasil do que nos 78 países onde ser gay ainda é crime. Há ou não um morticínio em curso, senhor Kataguiri?

Já o pastor evangélico multimilionário e deputado federal, Marcos Feliciano, atacou a comunidade LGBT dizendo que o massacre foi usado pela comunidade como forma de se promover, inclusive dizendo que a culpa do atentado era o apoio à causa palestina. Quanta compaixão desse nobre cristão! Jesus certamente está envergonhado, sobretudo ao constatar que os fariseus ainda atuam despudoradamente no mundo contemporâneo, mas agora usando seu nome como referência para objetivos perniciosos. Tipo midiático, que transita entre a religião e a autoajuda e age como animador espiritual do eleitorado, Marcos Feliciano coleciona barbeiragens. Não é de hoje sua indiferença aos direitos humanos, apóstolo contumaz do vaticínio “olho por olho, dente por dente”.

O atentado em Orlando acontece no mês do orgulho LGBT nos EUA, celebrado há mais de 40 anos. Cansados dos insultos e das frequentes abordagens truculentas da polícia, gays e travestis se revoltaram e partiram para o confronto aberto com policiais em um bar na cidade de Nova York (EUA), em julho de 1969. O episódio ficou conhecido como Revolta de Stonewall, e o dia 28 de junho se internacionalizou como o “Dia do Orgulho Gay”.

Há pessoas que acreditam que homofobia não existe, que se trata de uma invenção dos homossexuais para ganhar visibilidade. Cinicamente silenciam e não enxergam que o ódio aos LGBT não apenas existe como faz dezenas de vítimas, e que, neste exato momento, há pessoas presas por serem gays, outras sendo executadas por serem lésbicas, além daquelas que estão sendo torturadas por serem transgênero.

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Para os que acreditavam que a homofobia era algo abstrato, as mortes em Orlando talvez tenham evidenciado a situação em termos mais concretos. O massacre deu cores e contornos visíveis à homofobia. Mostrou que os gays assassinados na boate são parte do tecido social: têm nome, família e amigos.

Passados quase 36 anos da morte de John Lennon, sua célebre frase continua atual: “Vivemos num mundo em que precisamos nos esconder para fazer amor, mas a violência é praticada à luz do dia”.

*Luis Gustavo Reis é professor, editor de livros didáticos e colaborou para Pragmatismo Político

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