Redação Pragmatismo
Cultura 04/Mar/2013 às 17:10 COMENTÁRIOS
Cultura

Mulheres, segundo Graciliano Ramos

Publicado em 04 Mar, 2013 às 17h10

Texto resgatado do escritor Graciliano Ramos trata do papel das mulheres no Nordeste da época, quando foi realizada a primeira eleição em que as mulheres tiveram o direito ao voto

No dia 20 de maio de 1933, Graciliano Ramos, um dos maiores literatos da língua portuguesa, publicou no Jornal de Alagoas o texto que segue. Nele aborda, dentre outros aspectos do papel das mulheres no Nordeste da época, a primeira eleição em que as mulheres tiveram o direito de voto.

A frase com que termina o artigo ganha interesse singular ao vivermos, 80 anos depois de escrito este artigo, sob o comando da primeira mulher a assumir a Presidência da República, Dilma Rousseff. Nesse mesmo ano, ele publicou seu primeiro livro, Caetés.

graciliano ramos mulheres

O escritor Graciliano Ramos, um dos maiores nomes da história da literatura brasileira (Foto: Arquivo)

O artigo foi extraído de “Garranchos, textos inéditos de Graciliano Ramos”, organizado por Thiago Mio Salla e publicado ano passado pela Record.

Mulheres

Por Graciliano Ramos

Afinal temos aqui vencedor o nosso pequeno feminismo caboclo. Pouco importam as opiniões irritantes que pessoas biliosas manifestam a respeito do cérebro da mulher. A esta hora nas mais distantes povoações do Estado senhoras decididas se aprumam, projetam vestidos e discursos de aparato, organizam comissões para atenazar o governo.Exatamente como os homens. Os mesmos pedidos, as mesmas embromações, mas aparência muito melhor.

É possível que bom número delas se esteja preparando para a futura assembleia estadual e imaginando alterações em códigos de posturas e orçamentos municipais, que sempre foram ruins, apesar da competência dos conselhos e dos prefeitos. Por baixo dos cabelos curtos, como os nossos, fervilham programas que os homens não souberam executar em quarenta anos ou, se acharem pouco, em quatrocentos e trinta.

Para usar da franqueza, tudo pelo interior está desorganizado, e a culpa não é delas. Ninguém tem o direito de julgá-las incapazes. Podem fazer as promessas mais elásticas. A verdade é que as nossas matutas estão muito mais preparadas que os matutos. Até a idade de 12 anos, vão à escola, enquanto os meninos arrastam a enxada ou se exercitam, em calçadas ou em bilhares de ponta de rua, para uma vida fácil de malandros. Crescem um pouco, e os ardores da puberdade as levam para os romances amorosos, que lhes corrigem a sintaxe.

Leia também

Um dia dão uma topada sentimental, casam-se e, algum tempo depois do casamento, quase nunca menos de nove meses, passam à categoria de mães. São agentes de correio, telegrafistas, professoras interinas, datilógrafas num banco popular e agrícola, mulheres de negociantes. Como mulheres de negociantes, tomam conta da loja, compram, vendem escrituram, arrumam, desarrumam, varrem espanam, brigam com o caixeiro (ou não brigam), escrevem bilhetes de cobrança, entendem-se com os representantes dos fornecedores.

Enquanto isso acontece, os maridos passam oito meses do ano jogando gamão, discutindo os telegramas dos jornais, atacando o governo e o imposto nas barbearias, nas farmácias, nas esquinas.

É assim na cidade pequena, que hoje, por desconto dos nossos pecados, tem eletricidade, cinema, automóvel, gasolina, outras infelicidades americanas que nos deixam de esmola.

No campo é diferente. Em cada sítio, quando falta a professora pública, há uma velha sabida, perita em décimas e ladainhas. É ela que ensina as quatro espécies de contas às meninas e lhes mete o almanaque entre os dedos. O almanaque resume a ciência toda.

Os meninos sapecam-se na queimada, enegrecem na coivara e, logo que ficam taludos, dançam o coco em festas de S. João e bebem aguardente nas sentinelas de defuntos. Casam-se novos e entregam às companheiras tudo quanto exige pensamento: correspondência, palestras com as visitas, explicações das coisas da natureza, leituras piedosas, comunicações com a Divindade e com o vigário da freguesia.

A consequência disso é existirem no sertão mulheres terríveis, que transformam os maridos em Quincas, administram propriedades, arengam com os coronéis, têm cabroeira, mandam matar gente e protegem criminosos no júri.

Há a mulher chefe político. Sempre houve. Tem um cunhado secretário da prefeitura, um irmão delegado de polícia, muitos afilhados cobradores de impostos municipais e um marido que serve para pedir ao governo a demissão do promotor e a remoção do cabo comandante do destacamento.

As senhoras não votavam. Agora votam. As matutas foram à eleição de 3 de maio e comportaram-se perfeitamente. Assinaram as folhas com desembaraço, entraram no gabinete, meteram a chapa no envelope e, em conformidade com os conselhos da Liga de Ação Católica, sufragaram os candidatos do Partido Nacional, do Partido Democrata e do Partido Socialista.

Os matutos em geral não se comportaram bem. Sentaram-se tremendo e estiveram dez minutos sujando os dedos com tinta e procurando tirar um fiapo inexistente no bico da pena. Fizeram borrões no papel, foram à saleta secreta, voltaram e deitaram o título de eleitor dentro da urna.

Vão agora pensar que esses pobres homens continuarão a atrapalhar a política e a administração do Estado. Não continuam. Os municípios serão dirigidos por mulheres. Dirigidos claramente. Porque em alguns, conforme ficou dito, já elas dominavam à socapa no tempo em que só os homens podiam votar.

Imaginem a que nos reduziremos para o futuro.

Carlos Pompe

Recomendações

Comentários

  1. Dario Postado em 04/Mar/2013 às 17:47

    è quasi uma profecia. Sempre pensei que se as mulheres dominaram o mundo seria por meio do amor , não existiria tanta morte e destrução pois elas são a origem da vida de toda a humanidade. Deixando as religiões de lado eu tenho certeça que sou uma criação da minha mãe com a presiosa colaboração do meu querido pae

  2. Jesus Postado em 04/Mar/2013 às 18:40

    Com quanta sabedoria e lucidez tinha Graciliano Ramos,em pleno sertão onde só os homens eram considerados os preparados para dirigir a sua cidade. E Gracilianos Ramos enxergava muito além, as mulheres sim, essas são preparadas.E só 80 anos depois é que conseguimos eleger a primeira mulher presidente do Brasil.

  3. py porã Postado em 05/Mar/2013 às 05:49

    Os desdobramentos do plano de consistência nas agências formais e/ou contundentes dos espinhos dolorosos da violência são os mesmos para homens e mulhers, o que muda em geral são os nomes de vítimas e de seus agressores (homens e mulheres). O resultado é um enlaçamento incómodo que em geral não interessa discutir, é o que se vê no brasil onde a tabus abundam e o embate estético insuficiente no que abarca... Aguém viu a agulha de croche?

  4. NADILZA MOREIRA Postado em 05/Mar/2013 às 12:54

    Adorei o texto de Graciliano Ramos sobre as mulheres. O autor as valorizou sem pieguices, sem sair do espaço sócio-cultural feminino à época, PARABÉNS. O texto nos chama a atenção por estar não somente à frente do tempo em que o autor o escreveu, mas, em especial, se pensarmos que o autor, G.R., era um "matuto", criado no interior nordestino e passível da assimilação da forte cultura patriarcal nordestina que, ainda hoje, no século XXI, predomina nesta região. Este texto com características quase "confessionais" expressa o pensamento de um grande intelectual brasileiro e nos mostra que na Net há também PÉROLAS. Nadilza.