Luis Gustavo Reis
Colaborador(a)
Europa 14/Mar/2017 às 13:46
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Travessia do inferno

É inadmissível que os governos salvem as instituições bancárias da bancarrota e patrocinem guerras bilionárias, mas sejam incapazes de fornecer locais seguros e estrutura digna para pessoas que foram forçadas pelas circunstâncias a abandonar sua casa, descontextualizadas à força

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Marinha italiana registra momento em que barco com imigrantes naufraga no Mediterrâneo (reprodução)

Luis Gustavo Reis*, Pragmatismo Político

O título do artigo pode parecer exagerado, caro leitor. A metáfora, todavia, caracteriza a epopeia dos que almejam chegar à Europa navegando clandestinamente pelo Mediterrâneo.

As precárias embarcações que cruzam o mar diariamente representam esperança de vida decente para milhares de refugiados, mas também um iminente encontro com o naufrágio e seu consequente desfecho: a morte por afogamento.

Embarcar em um navio capenga, navegar em condições deploráveis, estar à mercê das intempéries climáticas e aportar a salvo em território europeu não é tarefa fácil.

Já na tentativa de travessia em botes, o inferno se consolida quando eles desinflam: muitos migrantes caem na água e são arrastados pela correnteza; outros tantos sucumbem asfixiados pela emanação de combustível altamente tóxico; diversos outros se asfixiam entre a multidão de passageiros apavorados, que lutam para tirar a própria cabeça da água; centenas padecem afogados no fundo dos botes ou morrem de hipotermia. Há vários que jazem de desidratação e fadiga após semanas de viagem. Ao desembarcar em terra firme, quando não se deparam com muros ou arame farpado, os que resistiram enfrentam a criminosa xenofobia – eis o desafio dos desvalidos, caro leitor.

A Agência da ONU para refugiados (Acnur) revela que, em 2016, mais de 5 mil pessoas morreram na travessia do norte da África para a Europa e tiveram sua vida drasticamente interrompida. Uma média de 14 seres humanos mortos por dia e um incalculável número de famílias destroçadas.

Relatório elaborado pela mesma ONU aponta que aproximadamente 62% das pessoas que tentam chegar à Europa são consideradas refugiadas, ou seja, com chances reais de receber asilo. As demais são classificadas como migrantes que se deslocam em busca de melhores condições de vida e não correm risco em seu país de origem.

Esse fluxo contínuo de pessoas está relacionado, principalmente, à situação de guerra, de perseguição e de conflitos armados existente em diversos países, sobretudo na África e no Oriente Médio.

Cabe ressaltar que a condição de refugiado só ganhou dimensão jurídica no plano global recentemente. É de meados do século passado o conjunto de codificações jurídicas que confere status de “refugiadas” às pessoas que saem de sua terra de origem de modo forçado na expectativa de encontrar abrigo e sobreviver longe dos infortúnios.

Vez por outra, a mídia noticia episódios escabrosos, como o do menino sírio de 3 anos, Aylan Kurdy, encontrado morto em setembro de 2015 em uma praia da Turquia. A imagem do corpo abatido banhado pelas ondas chocou o mundo, sensibilizando parcelas da sociedade civil com o drama dos refugiados.

Mas quantos Aylans desaparecem diariamente nesse imenso cemitério chamado Mar Mediterrâneo? Quais iniciativas estão sendo tomadas para que casos como o dele nunca mais aconteçam?

Autoridades políticas pegam carona nas catástrofes e bradam solidariedade. Embaladas pelos holofotes, prometem o que de largada não vão cumprir: “Já estamos recebendo crianças imigrantes com conexão familiar no Reino Unido e vamos acelerar esse processo”, disse David Cameron. A bravata soa demasiadamente condoída ao sofrimento dos combalidos, mas bastou o desligar das câmeras para que os bastidores derretessem as promessas, desnudando o oportunismo calhorda. É o cinismo em estado puro ditando a regra de um altruísmo de fachada.

Nem o clamor do sumo pontífice, Papa Francisco, cujas palavras costumam engendrar ações tímidas de determinados governos, foi suficiente. O líder supremo, em voz solitária, mais de uma vez clamou pelos refugiados: “Suas histórias e suas faces nos chamam para renovar o esforço e construir a paz na Justiça. Por isso queremos estar com eles; encontrá-los, acolhê-los e escutá-los para, juntos, construirmos a paz”. Foi completamente ignorado!

Nenhum ser humano é ilegal, caro leitor, e a migração sempre foi parte da condição humana. Quando as pessoas estão desesperadas, nada as impede de ir embora.

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Estima-se que até 2050 haverá cerca de 250 milhões de pessoas forçadas a abandonar sua terra por causa de mudanças climáticas ou de desastres naturais, sem contar as deslocadas por conflitos. Portanto, chegamos a um momento nevrálgico da história humana, e a questão dos migrantes e refugiados precisa ser tratada como imperativo categórico.

É inadmissível que os governos salvem as instituições bancárias da bancarrota, invistam recursos no desenvolvimento de novas tecnologias, patrocinem guerras bilionárias, mas sejam incapazes de fornecer locais seguros e estrutura digna para pessoas que foram forçadas pelas circunstâncias a abandonarem sua casa, descontextualizadas à força.

Se não resgatarmos os valores humanos de solidariedade, acolhimento e compromisso com o “outro”, a humanidade continuará à deriva.

*Luis Gustavo Reis é professor, editor de livros didáticos e colabora para Pragmatismo Político

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