Redação Pragmatismo
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Eleições 2016 04/Oct/2016 às 15:47
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Por que João Doria venceu até nas periferias?

O voto da periferia: por que João Doria (PSDB)? Apesar dos lamentos por parte da esquerda, cabe uma reflexão autocrítica. As apostas exitosas de inserção via consumo dos governos Lula/Dilma geraram uma força política que, paradoxalmente, rejeita o próprio projeto econômico-social progressista

joão dória prefeito periferia são paulo
João Agripino da Costa Doria Junior, empresário, jornalista, publicitário, eleito Prefeito de São Paulo pelo PSDB no último domingo (reprodução)

Danilo Sartorello Spinola*, Brasil Debate

Há uma tendência na tradição política brasileira que vem do nosso senso comum em acreditar que o projeto político da esquerda esteja associado aos interesses da grande massa populacional e da classe trabalhadora. Por outro lado, associa-se à elite o projeto político de direita.

Pois, nos meses que antecederam as eleições municipais, em um dos raros momentos da política brasileira, tivemos um candidato que abertamente defende um projeto liberal, privatista e que se põe como o representante da classe empresarial capitalista. O resultado, para muitos inesperado, foi a vitória de tal candidato no primeiro turno nas eleições municipais da maior cidade do país.

A surpresa maior se dá ao observar a eleição por subprefeitura. Não foi uma eleição polarizada. Praticamente toda a cidade votou em João Dória Jr.. Foi a eleição de um candidato. As causas explicativas desse fenômeno são distintas e vão desde os efeitos da Operação Lava Jato e a descrença com o PT até uma tradição conservadora dos paulistas (os mesmos que recentemente elegeram Haddad, Marta e Erundina).

No entanto, o fator que quero destacar é como um candidato tão caricato como representante da elite paulistana, que rachou o próprio partido, pôde ter apoio tão maciço nas periferias.

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Dória é o que almeja ser o paulistano. É o típico referencial. O mito do self-made man. Um empresário dito de sucesso, homem com acesso ao mais luxuoso padrão de consumo. Aquele que pode tomar as decisões que quiser, que pode pegar seu jatinho de manhã com uma linda mulher para comer caviar em Miami e terminar a noite caminhando pela Champs Elisée em Paris. Como Dória chegou a isso, cabe ignorar, mais vale crer no mito da meritocracia.

Apesar de nossos lamentos por parte da esquerda, creio que cabe a esta uma reflexão autocrítica. As apostas exitosas de inserção via consumo dos governos Lula/Dilma geraram uma força política que, paradoxalmente, rejeita o próprio projeto econômico-social progressista.

As pessoas, cada vez menos, almejam ou acreditam no acesso ao bem-estar, mas buscam, sim, mais ter dinheiro para pagar por ele. Um prefeito como Fernando Haddad, que deu alguns ares civilizatórios à cidade não cabe na equação.

A visão de coletividade do processo social ganha ares de hiper-individualismo na chamada classe C e D, e a eleição de Dória deixa explícito quais são suas preferências. Querem ser Dória. E isso fez Capão Redondo em massa apoiá-lo.

gráfico votação eleições prefeitura são paulo

E deixo um elemento mais crítico. Se há uma força social que, sim, une a periferia, ela está centrada no poder das igrejas evangélicas, em sua maioria abertamente ultraconservadoras.

À esquerda cabe pensar a partir desse dado. Como recolocar em debate às periferias (e também às elites) um projeto progressista? Um projeto de bem-estar que deixe claro a necessidade da sociabilidade e da vida em coletividade, aquela da constituição de 1988?

Que defenda interesses de minorias, mas sem impor conjuntamente a tal defesa de um projeto que contrarie as aspirações das classes sociais emergentes? E que defenda, antes de tudo, a democracia?

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Ou seja, um projeto republicano que fortaleça um sentimento de solidariedade orgânica que avança em um sentido cada vez mais fragmentado, mas que é fundamental e necessária para enfrentar os desafios do desenvolvimento, da superação das desigualdades, melhoras da saúde, educação, infraestrutura e redução da criminalidade…?

Fica aberta a reflexão.

*Danilo Sartorello Spinola é doutorando em Economia no Maastricht Economic and Social Research Institute on Innovation and Technology (UNU-MERIT) e pesquisador colaborador no Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (NEIT) da Unicamp. Economista e sociólogo pela Unicamp, mestre em economia pela Unicamp, foi consultor na CEPAL-UN.

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Comentários

  1. Thiago Teixeira Postado em 04/Oct/2016 às 17:47

    Porque paulistano coxinha ou é muito rico ou muito burro.

    • Valle Postado em 05/Oct/2016 às 11:56

      Respeite o resultado das urnas.

      • Thiago Teixeira Postado em 05/Oct/2016 às 12:29

        Respeitaram meu voto em 2014? Não. Então foda-se.

    • EDUARDO Postado em 05/Oct/2016 às 16:19

      RESUMIU BEM. FALTOU MAIS UMA INCÓGNITA NESSA EQUAÇÃO. E ESSA, A CLASSE MÉDIA E CLASSE C, BURRAS, JAMAIS CONSEGUIRÃO ENTENDER. PODEM ATÉ QUERER SER DÓRIA, MAS DÓRIA JAMAIS QUERERÁ SER POBRE OU PARECIDO COM POBRE. É ISSO QUE A CLASSE MÉDIA BURRALDA PRECISA ENTENDER. RICOS ODEIAM POBRES. SIMPLES ASSIM. RICO SÓ GOSTA DE POBRE DE TRÊS MANEIRAS: LONGE, TRABALHANDO PARA ELE OU MORTO.

  2. Saulo Vasconcelos Postado em 04/Oct/2016 às 18:02

    Melhor texto que eu li nesse site.

  3. Aristófanes Braga Postado em 05/Oct/2016 às 00:42

    Vcs não sabem de nada. Boca de Urna e compra de votos na periferia são feitas em igrejas! Falta de gente da periferia e da favela escrevendo dá nisso...

  4. Rodrigo Postado em 05/Oct/2016 às 10:38

    (Outro Rodrigo) Quando indivíduos não toleraram a escolha (voto em Dilma) e xingaram a parcela da população que seria responsável pela vitória da mesma (nordestinos), qual foi mesmo a conclusão à época? Mais, agora é a hora de culpar aquele que teria ascendido economicamente ao ser financiado pelo governo, dizendo que o indivíduo que melhora sua situação rejeita alegado trabalho pelo menos favorecido? E quanto a todos os dados que mostraram que grande parte dessa ascensão deu-se pelo ausência de correção pela inflação da renda? Que o critério para definir faixas de renda foi diminuído e que boa parte dessa população que ascendeu tornou ao patamar anterior? Há ainda a crítica de Frei Betto no sentido de que o mero financiamento (mas não efetiva inclusão) gerou uma falsa realidade, haja vista que as pessoas continuaram sem atendimento a serviços básicos. Seria melhor, pois, refletir como no outro post (que questiona se é o fim de uma era) o que foi feito de errado e aonde acertaram, bem como o que fazer daqui pra frente em prol da efetiva mudança. Se realmente a "governabilidade" é o ponto a ser buscado ou se o preço por ela cobrado não é alto demais. E bons quadros a esquerda tem para isso, podendo focar em soluções em vez de atacar (o que não significa omitir-se quanto a críticas devidas e necessárias, claro, no caso específico quanto a Dória e acusações de abuso de poder econômico em campanha feitas até por parcela do próprio partido dele).

    • Edison Carleti Postado em 05/Oct/2016 às 13:14

      Excelente colação Rodrigo. Concordo plenamente com você.

  5. Roberto Pedroso Postado em 06/Oct/2016 às 10:00

    O uso da maquina publica do estado na campanha de Doria atrelado a um discurso falacioso no qual o candidato se apresentava como sendo "algo novo "no ambiente politico se apresentando como a renovação necessária para a cidade além do uso eficiente do marketing na politica,isso atrelado ao desgaste politico dos outros candidatos e o fato dos eleitores estarem descrentes com a politica e com os políticos que se apresentam no atual cenário abriu a possibilidade para que qualquer um que representasse uma alternativa a "velha politica"tivesse chances reais de se eleger,pois em um ambiente no qual o verdadeiro vencedor foi o descredito para com a politica, pois nenhum candidato conseguiu superar em primeiro turno a soma dos votos brancos, nulos e abstenções.