Redação Pragmatismo
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Direita 25/Aug/2016 às 11:45
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Como nasceu o idiota fascista brasileiro

Labirintos do fascismo: conheça as 5 características que historicamente produzem o idiota fascista brasileiro

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Imagem: Pragmatismo Político

Douglas Rodrigues Barros*, Negro Belchior

Quando Adorno escreveu Educação após Auschwitz, ele tinha como objetivo prevenir a catástrofe fascista. O crítico chamava a atenção para a importância da análise sociológica como aquela que informaria “sobre o jogo de forças localizado por trás da superfície das formas políticas”. Com efeito, um sintoma de proto-fascismo se evidencia quando a sociologia é posta em dúvida, ou é alvo de piadas em alguns centros de risadas forçadas e irreflexivas.

Não é à toa que o que se oculta no interior do programa Escola sem Partido é, na verdade, aquele incomodo sexagenário gerado pelo retorno da filosofia e da sociologia à “grade” curricular. Os defensores de tais programas revelam assim seus inconfessáveis desejos de ver a velha Educação Moral e Cívica que, subserviente a interesses escusos, – esta sim – doutrinava e excluía de si toda a dúvida. O que estes temem de fato é a potencialidade crítica da dúvida que essas matérias promovem no interior da sala de aula, gerando inclusive o inconformismo dos estudantes ante a total desagregação da educação pública no país. Mas isso será tema de um próximo artigo.

Por enquanto falemos da gravidade da situação política que se espalha não só pelo Brasil, mas pelo mundo como um todo. O fascismo sem dúvida é uma idiotice. No entanto, é uma idiotice que não se pode, em hipótese nenhuma, ser subestimada. Quando um aloprado deputado, que cospe reacionarismo, se joga, tal como um rockstar, da carroceria de um caminhão e se estabaca no chão sobre o aplauso e histeria de centenas de seguidores, apesar da grotesca cena e da babaquice em questão, é um sintoma para ser levado a sério.

Uma das questões mais importantes que o fascismo nos legou é que, apesar das formas grotescas de sua expressão, ele deve ser objeto de denuncia constante. Afinal, na Alemanha pré-nazista ninguém levava a sério um baixinho de bigode raspado, com estandartes ridículos que esbravejava impropérios contra a civilização, querendo romanticamente uma sociedade na qual o super-homem nietzschiano – obviamente integrado e desvirtuado pela ideologia nazista – teria espaço.

Nesse sentido, o que apresento aqui é uma síntese cabível neste espaço sobre como o fascismo é produzido na oficina da história pela crise e falta de perspectiva. Aqueles que se interessarem pelo tema e quiserem se aprofundar podem pesquisar não apenas Adorno e os escritos da, vulgarmente chamada, Escola de Frankfurt, como também, um dos livros mais sagazes e profundos sobre o fascismo: Labirintos do Fascismo de João Bernardo.

Vamos às cinco características:

1 – O fascismo é uma revolta dentro da ordem

Ele aparece como uma potencialidade de transformação, mas esbarra nos limites de uma mudança feita para nada mudar. Isso porque seus adeptos geralmente esbarram em questões que pairam na superficialidade dos problemas. Numa moralização unilateral que evidencia somente os aspectos mais pragmáticos e, por isso, propagandísticos nas crises políticas e econômicas. Por exemplo:o principal motor da xenofobia em 1930 e na presente fascitização europeia e paulista é enxergar o problema do desemprego no imigrante e não na crise estrutural pelo qual passa a economia. Do mesmo modo, a propaganda contra a corrupção se torna unilateral. Ela não denuncia que a própria engrenagem político-econômica fomenta a corrupção como algo necessário para sua própria manutenção.

2 – O fascismo é fenômeno de crise e falta de perspectiva de mudanças profundas

O fascismo nasce de alguns desastres históricos. Não apenas de uma profunda crise econômica, mas de uma crise político-social que lá atrás arrastou a Europa para a Grande Guerra. E o horizonte hoje com o começo da dissolução da zona do euro e ressentimentos de toda ordem não se apresenta tão diferente. Do mesmo modo, a crise estrutural no Brasil fomenta atividades e ressentimentos de classe e posições altamente conservadoras e reacionárias. Separatismo e paixões provincianas, além do nacionalismo tacanho, marcam também algumas de suas características fundadas na falta de perspectivas reais de melhorias.

3 – As instituições democráticas são irrelevantes para o fascista

Já em 1921 Benito Mussolini discursava marcando algumas características que permeariam a noção do ser fascista: “Estaremos com o Estado e a favor do Estado sempre que ele se mostrar um guarda intransigente” dizia o idealizador fascista, “mobilizar-nos-emos contra o Estado se ele vier a cair nas mãos de quem ameaça a vida do país e atenta contra ela”. Com certeza, uns cem números de leitores dessa revista devem ter gostado e simpatizados com a fala do líder, Mussolini, que muito tem em comum com aquele outro que deu de cara no chão.De um lado, o respeito pelas instituições democráticas só é feito tendo em vista a participação dos próprios fascistas na partilha do poder. Por outro lado, o fascismo pretende substituir o poder estatal quando a democracia não compartilhar de suas crenças.

4 – O fascismo avança quando os progressistas retrocedem

A partir dos duros golpes sofridos e no retrocesso da tentativa de superar a desigualdade histórica; a ideia de uma revolução dentro da ordem, para salvaguardar a sociedade do comunista comedor de criancinhas, se consolida e ganha aos poucos as mentes e os corações.A assim chamada “revolta dentro da ordem” como uma das características centrais do fascismo assume muitos dos aspectos tradicionais da luta dos trabalhadores, mas para colocá-lo na perspectiva da ordem da economia imperante. Assim, quando uma massa amorfa de verde-amarelo sai as ruas e utiliza palavras de ordem e formas de luta tradicionalmente de esquerda (como por exemplo a ocupação da Paulista) ela não está sendo original, esse caminho já é conhecido.

5 – O ser fascista detém a capacidade de maquinar, remodelar e recriar fatos históricos e corriqueiros

Nenhuma outra corrente política recorreu tanto a estetização da política como forma de impor seu pensamento, em termos mais simples, nenhuma outra corrente recorreu tanto a possibilidade de ludibriar, mentir e persuadir aqueles que querem. Como nos mostra João Bernardo (2015): a versatilidade das palavras, a possibilidade de moldá-las a seu favor e unir isso a uma propaganda massiva foi um dos grandes atributos do fascismo, assim como; escrachar figuras públicas, criar factoides e manipular dados.

Leia também:
Fascismo: usos e abusos
“Ur-Fascismo”, o texto histórico de Umberto Eco traduzido para o português
O desafio de conversar com um fascista
Fascismo à Brasileira

Qualquer semelhança com nossa época atual não será mera coincidência.Os números oficiais indicam que todos os dias morrem duas pessoas por erros policiais. A cada dez minutos uma pessoa é assassinada no Brasil, o Anuário de segurança pública revela ainda que, por dia, seis pessoas foram assassinadas por policiais no Estado de São Paulo em 2013. Acaba de sair uma matéria no New York Times indicando que o Brasil é o país mais perigoso do mundo para os homossexuais. De tal maneira, qualquer estudo mínimo sobre as estatísticas da guerra particular no Brasil revela os horrores instaurados e provenientes de uma ditadura não encerrada.

Não faz muito tempo, entretanto, que tal violência, pelo menos no nível do discurso, era combatida, mesmo pelos meios hegemônicos de comunicação de massa.Atualmente, porém, parece que algo se alterou no quadro de interesses da elite sempre conservadora do país. Agora a carnificina diária apreciada e difundida pelos programas policialescos instaura um sentimento de terror que se orienta na criação de um inimigo comum. Aonde isso vai dar, eis a questão, se é fascismo ou não, é um problema a se pensar. Talvez seja algo ainda pior, posto que não identificado, mas, já amplamente naturalizado.

*Douglas Rodrigues Barros é escritor, mestre em filosofia e doutorando em ética e filosofia política pela Universidade Federal de São Paulo.

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Comentários

  1. Eduardo Ribeiro Postado em 25/Aug/2016 às 14:53

    "A cadela do fascismo está sempre no cio". E andou dando umas boas ninhadas no Brasil de uns 3 anos pra cá..

  2. Aristóteles Lima Santana Postado em 28/Aug/2016 às 10:31

    Muito bom o texto, mas muito tolerante com erros da esquerda petista. O fascismo também cresce na esteira dos erros da esquerda moderada. O PT tinha uma boa folga no Congresso durante boa parte do tempo em que esteve no poder e NUNCA SE MOBILIZOU PARA CASSAR O BOLSONARO. Boa parte dos militantes atuais da extrema direita no Brasil estão vindo das hostes evangélicas e o PT em vários momentos aliou-se a estes setores. A atual lei antiterrorismo também é criação do PT e não houve da parte de Dilma nenhuma mobilização para punir severamente a Vale pelo desastre ambiental no Rio Doce. O histórico de crescimento do fascismo na Alemanha e Itália também demonstram (em outras condições) falhas horríveis da esquerda. Quem quiser se informar melhor leia o livro "Anatomia do fascismo", de Robert O. Paxton.

    • Getúlio Prates Postado em 17/Sep/2016 às 23:24

      Obrigado, Aristóteles, irei ler o livro. É claro que qualquer análise não pode ser superficial. Eu lamento muito pelo o que ainda há por vir.

  3. Diogo Postado em 28/Aug/2016 às 19:37

    Kkkkkkk o escola sem partido se preocupa com filosofia e sociologia hahaha hahaha hahaha, aham, o problema são as disciplinas em si mesmas, e não a doutrinação capitalismo mal socialismo/comunismo bom, mal do mundo = liberalismo e herói = Che Quer Vara, não, imagina, hahahahaha. Engraçado que os fascistas são os que defendem um estado mínimo e a mínima influência do indivíduo sobre outro indivíduo, e o bom mocinho é aquele que defende o modelo de governo do partido único e que não permite contestações. A new left é, pelo menos, muito engraçada em sua hipocrisia. Obrigado por isso, meus caros.

  4. Lilian Lobo Postado em 28/Aug/2016 às 21:36

    É a falta de perspectivas reais de melhorias, aliada à um profundo desconhecimento do desenvolvimento histórico e social, que tem feito surgir inúmeros fascistas entre nós.

  5. Sheila Postado em 28/Aug/2016 às 22:06

    Sou contra esse processo de impeachment pelo que a defesa da Dilma tem apresentado, mas dizer q as pessoas q apoiam são todas idiotas e fascistas é no mínimo manter o debate ao nível de escaramuças e provocações que, em nada, contribuem para aperfeiçoar nossa democracia já tão abalada, ao contrário, a fragilizam mais.

  6. Jairo Ferreira da Silva Postado em 29/Aug/2016 às 06:29

    Eudardo Ribeiro, voce foi brilhante usando esta imagem metafórica. Perfeito !

  7. [email protected] Postado em 29/Aug/2016 às 20:50

    O fascismo, como diz João Bernardo em sua resenha sobre o filme a Onda, só se revela ou se assume como fascismo quando já é tarde de mais. Não podemos esperar!!! Abaixo todas as formas de fascismo. Sem demora!!!

  8. Aracelli Postado em 30/Aug/2016 às 01:05

    Bravo! I melhor artigo que li até hoje neste site!