Redação Pragmatismo
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Educação 14/Jul/2016 às 16:09
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“Escola sem partido” – Os segredos por trás da nomenclatura

“Escola sem partido”, escola silenciada. É de extrema gravidade o surgimento de projetos que ameaçam professores até com prisão. Entenda por que sua proposta, contrária a ideologias é primária, silenciadora de opiniões divergentes e, no fundo… profundamente ideológica

escola sem partido hipocrisia

Cleo Manhas*, Outras Palavras

O que seria a tão falada, e pouco explicada “escola sem partido”? Basicamente, trata-se de uma falsa dicotomia, pois não diz respeito à não partidarização das escolas, mas sim à retirada do pensamento crítico, da problematização e da possibilidade de se democratizar a escola, esse espaço de partilhas e aprendizados ainda tão fechado, que precisa de abertura e diálogo.

A pauta que precisamos debater é a da qualidade da educação, e não falácias ideológicas sobre a “não ideologização da escola”, algo que se vê até mesmo em alguns diálogos sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

O Plano Nacional de Educação foi aprovado há dois anos. Durante sua tramitação, uma das polêmicas suscitadas foi acerca da promoção das equidades de gênero, raça/etnia, regional, orientação sexual, que acabou excluída do texto do projeto. Por consequência, isso influenciou a tramitação dos planos estaduais e municipais, que também sucumbiram ao lobby conservador e refutaram qualquer menção a gênero, por exemplo, difundindo a falsa tese da aberração intitulada “ideologia de gênero”. Isso causou uma confusão deliberada entre uma categoria teórica e uma pretensa ideologia.

Marivete Gesser, do Laboratório de Psicologia Escolar e Educacional da Universidade Federal de Santa Catarina, explica que “gênero pode ser caracterizado como uma construção discursiva sobre nascer com um corpo com genitália masculina ou feminina” e, por meio de normas sobre masculinidade e feminilidade, vamos nos construindo como sujeitos “generificados”. O preconceito vem dos discursos que naturalizam os lugares sociais de homens e mulheres como únicas representações, e segregam qualquer outra forma de manifestação. Além disso, em pesquisa realizada por estudantes do ensino médio em Brasília, feita no âmbito do projeto Educação de Qualidade (Inesc/Unicef), constatamos que uma das razões do abandono escolar é a discriminação relativa ao público LGBTI. Razões mais do que suficientes para discutirmos gênero nas escolas.

Qual a ligação entre esses dois temas, “escola sem partido” e “ideologia de gênero”, em momentos tão distintos? O que parece ter diferentes motivações e origens resulta dos mesmos elementos: os fundamentalismos conservadores que tentam passar às pessoas suas ideologias e crenças. Afinal de contas, não são apenas os pensamentos marxistas que são ideológicos, como tentam fazer crer os defensores da “escola sem partido”. Sendo assim, o que significa ideologia então?

Um dos conceitos mais difundidos é o de Karl Marx em parceria com Friedrich Engels, na obra a Ideologia Alemã, em que afirmam ser a ideologia uma consciência falsa da realidade, importante para que determinada classe social exerça poder sobre a outra, bem como a necessidade de a classe dominante fazer com que a realidade seja vista a partir de seu enfoque.

O conceito, no entanto, sofreu inúmeras interpretações, como a de Lênin para a ideologia socialista, como forma de definir o próprio marxismo. Portanto, há ideologia nas diferentes formas de ver e conceber o mundo. Não existe neutralidade. Quando defendem a “não ideologização”, em nome dessa pretensa neutralidade, também estão impregnados de ideologia.

Os teóricos do projeto “escola sem partido” advogam a neutralidade e se dizem não partidários. No entanto, suas intenções são claras: a retroação dos avanços que tivemos nos últimos tempos, especialmente com relação aos direitos humanos. Por exemplo, quando dizem lutar contra a doutrinação, uma das situações apresentadas no site do movimento da “escola sem partido” é um seminário realizado pela Comissão de Educação da Câmara dos Deputados sobre direitos LGBTI e a política de educação. Eles citam esse caso como uma afronta ao artigo 12 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, afirmando que pais e seus filhos têm que ter uma educação moral de acordo com suas convicções. É uma deturpação do citado artigo, que diz respeito à liberdade religiosa que deve ser respeitada individualmente. Além disso, manipulam e fazem confusão deliberada com a discussão realizada no seminário, que reafirmou a importância de se debater questões de gênero e de sexualidade nas escolas, para que as diferenças não sejam transformadas em desigualdades.

Em outro momento, dizem que os alunos (a quem chamam de “vítimas”) acabam sofrendo de Síndrome de Estocolmo, ligando-se emocionalmente a seus algozes (“professores doutrinadores”). Nesse caso, os estudantes se recusariam a admitir que estão sendo manipulados por seus professores e sairiam furiosos em suas defesas. Para exemplificar, citam momentos identificados como “monstro totalitário arreganha os dentes” e chamam os estudantes de soldadinhos da guarda vermelha.

Em um dos livros desse movimento, é passada a noção de que o professor não é um educador, separando assim o ato de ensinar (passar conteúdos) e educar. O/A professor(a) deveria estar ali apenas para passar conteúdo sem crítica, problematização ou contextualização, em um ato mecânico. Paulo Freire é demonizado como o grande doutrinador – justo ele, que construiu uma obra toda para combater doutrinações.

Esse movimento da “escola sem partido” nasceu em 2004 e não gerou muitas preocupações, porque parecia muito absurdo e coisa pequena. No entanto, tem tomado corpo e crescido, na mesma toada de movimentos fascistas tais como ‘revoltados online’, responsável por apresentar recentemente a proposta da “escola sem partido” ao ministro da Educação do governo ilegítimo. Aliás, é bom dizer que foi a primeira audiência concedida pela pasta da Educação nesta gestão ilegítima. E em vídeo, os criadores da “escola sem partido” e do “revoltados online’ explicam que criaram tais coisas a partir de motivações pessoais. Ou seja, eles tentam impingir ao país projeto com base em impressões e vivências individuais.

A proposta foi apresentada em forma de projeto pela primeira vez no Estado do Rio de Janeiro, pelo deputado Flávio Bolsonaro. A segunda vez foi no Município do Rio de Janeiro, pelo vereador Carlos Bolsonaro – ambos filhos do deputado federal Jair Bolsonaro. E tal proposta já se espalhou por diversas câmaras municipais e assembleias legislativas. Em âmbito nacional, o deputado Izalci (PSDB/DF) apresentou o PL 867/2015 à Câmara Federal, que altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Dentre várias questões, o artigo 3º do referido projeto diz o seguinte: “Art. 3º. São vedadas, em sala de aula, a prática de doutrinação política e ideológica bem como a veiculação de conteúdos ou a realização de atividades que possam estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais ou responsáveis pelos estudantes.” O que viola tais convicções provavelmente será julgado de acordo com o que e com quem quiserem criminalizar. O projeto ainda levanta uma polêmica do século XIX quando se discutia a dicotomia família e escola, o que deveria estar superado no século XXI.

Há vários projetos tramitando apensados a esse, ainda mais perversos. Um deles, do deputado Victório Galli, do PSC/MT, proíbe a distribuição de livros didáticos que falem de diversidade sexual. E há ainda o projeto de lei 1411/2015, do deputado Rogério Marinho PSDB/RN, cujo relator é o mesmo deputado Izalci. Esse projeto tipifica o crime de assédio ideológico, que, de acordo com o projeto, significa: “toda prática que condicione o aluno a adotar determinado posicionamento político, partidário, ideológico ou qualquer tipo de constrangimento causado por outrem ao aluno por adotar posicionamento diverso do seu, independente de quem seja o agente.”E diz ainda que o professor, orientador, coordenador que o praticar dentro do estabelecimento de ensino terá a pena acrescida de um terço. Ou seja, as opiniões fora da escola, tais como nas redes sociais, poderão penalizar o profissional da educação também.

O movimento criou recentemente uma “associação escola sem partido” para ter uma entidade com a qual pudesse recorrer à Justiça em casos que julgasse relevantes. E a primeira ação por eles promovida foi contra o INEP, devido ao tema da redação do Enem de 2015, que tratava de violência contra as mulheres, tema que julgaram doutrinador e partidário. A violência contra as mulheres é reconhecida como grave problema em diversos tratados internacionais de direitos humanos, como a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW), aprovada pela ONU em 1979, e outros que a seguiram. No Brasil, a cada 4 minutos uma mulher dá entrada no SUS por ter sofrido violência física, e 13 mulheres são assassinadas a cada dia – uma a cada 1 hora e 50 minutos. A violência está inclusive nas próprias escolas, como demonstrou a iniciativa “Meu professor abusador”.

Há vários ovos de serpente chocando no momento, em diversos locais, seja no âmbito dos legislativos municipais, estaduais ou nacional, e mesmo nos Executivos, e não temos garantias de que o Judiciário irá barrar tais aberrações. Portanto, nossa única arma é a manifestação, a nossa presença nas ruas e a disseminação de informações a um público maior possível, já que é na internet e em redes como whatsapp que esses grupos têm angariado seguidores, muitos deles muito jovens. É preciso promover debates que esclareçam essas situações que estão amadurecendo na surdina, com pessoas que não nos representam, mas estão em cadeiras que permitem tais movimentos.

*Cleo Manhas é doutora em educação pela USP

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Comentários

  1. SILVIO MIGUEL GOMES Postado em 15/Jul/2016 às 06:04

    As crianças e adolescentes têm que saber o que disse Rui Barbosa sobre a Justiça e Política brasileiras. Rui Barbosa não perdoava os Juízes "covardes". As crianças e adolescentes têm que saber que no momento atual os Políticos eleitos pelo povo em sua grande maioria é um verdadeiro lixo. Têm que saber que ser religioso pode representar um indivíduo perigosíssimo. Têm que saber que outrora nas escolas Padres iam confessar os alunos, predominava o catolicismo e a escola deve ser pública, laica e obrigatória. PORTANTO, devemos impedir que certos evangélicos fanáticos tragam o retrocesso e desgraça para o Brasil.

  2. Sergio Carneiro Postado em 15/Jul/2016 às 07:23

    A Escola sem partido começa a atormentar os gramscianos.

    • Vitor Luiz Postado em 15/Jul/2016 às 10:40

      Não. Escola sem partido é totalmente partidário. Realiza o que tenta combater, ou seja, doutrinação.

    • Eduardo Ribeiro Postado em 15/Jul/2016 às 16:33

      Carneiro é um intelectual brilhante que se debruçou décadas sobre Gramsci - e obviamente sobre aqueles que são suas referências, os pré-requisitos pra entender a profundidade de Gramsci - pra nos brindar com essa pérola de sabedoria..

      • Eduardo Ribeiro Postado em 16/Jul/2016 às 11:09

        Mas eu conheço Gramsci - e Marx, e Lenin - , e sei quem tem autoridade pra falar dele e sobretudo quem não tem. Não falo de interação química dentro da tabela periódica, nem da vida sexual dos morcegos, ou da construção de submarinos. Sou uma toupeira analfabeta nestes assuntos. Vocês não deviam falar de Gramsci. É simples demais, bicho. É "atormentador" de tão simples.

  3. Alan Kevedo Postado em 15/Jul/2016 às 11:03

    COMEÇA QUE CREIO EM DEUS, MAS NÃO NA BÍBLIA E SE ALGUÉM TEM RELIGIÃO É POR ESCOLHA PESSOAL E SENDO ASSIM, ISSO É INCOMPATÍVEL COM A POLÍTICA QUE É UNIVERSAL. TIRAR DOS FILHOS DE VOCÊS A CAPACIDADE CRÍTICA E TRANSFORMÁ-LOS EM MERAS "OVELHAS AMESTRADAS" É O OBJETIVO CLARO DO MALFADADO "ESCOLA SEM PARTIDO", PROMOVIDO JUSTAMENTE POR PARTIDOS COMO PSDB, DEM E PSC, AOS QUAIS VOCÊS DEVEM ANOTAR E RESPONDER NAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES CONSCIENTES DE QUE, SE VOCÊS QUEREM SEUS FILHOS EM UNIVERSIDADES DEVEM SEMPRE DESCONFIAR DESSES QUE AMEAÇAM PROFESSORES E PENSAM QUE ENGANAM VOCÊS SUBSTITUINDO A NATURAL IDENTIDADE DE GÊNERO, PELA FANTASIOSA IDEOLOGIA DE GÊNERO, IDEIA PRA LÁ DE MEDIEVAL. EM SÍNTESE, BÍBLIAS DÃO FORTUNAS A ALGUNS PARA CONTROLAR REDE DE SUBMISSÃO E NÃO SALVAM NINGUÉM PARA A UNIVERSIDADE, NESSE CASO ENSINANDO A PENSAR QUEM SALVA É PAULO FREIRE, KARL MARX, BERTRAND RUSSELL E ATÉ ADAN SMITH, SE VOCÊ QUISER.

  4. Eduardo Ribeiro Postado em 15/Jul/2016 às 11:41

    ESP é notoriamente uma MORDAÇA travestida de "projeto sério de educação", com envolvimento ativo de partidos de direita, de mongolóides liberais e de setores religiosos. O objetivo imediato do ESP, urgente, é impedir que se estude o Marxismo a sério, demonizando-o e distorcendo-o, e sufocar imediatamente o despertar da consciência da LUTA DE CLASSES, que é sabidamente o MOTOR da história da humanidade. Depois, com calma, adaptar o ensino de Filosofia, Sociologia e História, editando e distorcendo de acordo com o interesse ("""ainnn o nazismo foi de esquerda...e em 64 não houve golpe...e o capitalismo/democracia burguesa é o fim da história"""). Por fim, o viés moralista/religioso influenciará o ensino das Ciências e a discussão de temas "espinhosos", conduzindo a nação de volta pras trevas. É um projeto nefasto e retrógrado, verdadeira filhadaputagem, mas tem Olavete por aí aplaudindo efusivamente. Parabéns aos envolvidos.

  5. Galvão Postado em 15/Jul/2016 às 13:30

    O NA(zista)RO, você alguma vez na vida frequentou escola? Por que você fala tanta merda.

  6. Ricardo Postado em 20/Jul/2016 às 16:41

    Não existe isso de "impor sua ideologia", a família da criança faz isso com mais eficácia. O aluno sabe que deve escrever na prova o que o professor acha certo, concordando ou não (no fundo, é só isso que se pergunta em prova). E isso vai acontecer com professor anarquista, marxista ou mesmo conservador. Seria mais honesto se admitissem justamente o contrário do que alegam: querem a imposição de uma forma única de pensar, como se "neutra" fosse. Como se precisassem, aliás...