Redação Pragmatismo
Compartilhar
Direita 05/Feb/2016 às 14:00
16
Comentários

O desafio de conversar com um fascista

fascismo fascista ódio direita

Rubens Casara*, Justificando

Em Adorno, a ignorância, a ausência de reflexão, a identificação de inimigos imaginários, a transformação dos acusadores em julgadores (e vice-versa) e a manipulação do discurso religioso são, dentre outros sintomas, apontados como típicos do pensamento autoritário.

Pensem, agora, na naturalização com que direitos fundamentais são afastados e violados no Brasil, na crença no uso da força (e do sistema penal) para resolver os mais variados problemas sociais, na demonização de um partido político (que, apesar de vários erros, e ao contrário de outros partidos apontados como “democráticos”, não aderiu aos projetos a seguir descritos), no prestígio novamente atribuído aos “juízes-inquisidores”, nos recentes linchamentos (inclusive virtuais), no número tanto de pessoas mortas por ação da polícia quanto de policiais mortos e nos projetos legislativos que: a) relativizam a presunção de inocência; b) ampliam as hipóteses de “prisão em flagrante” em evidente violação aos limites semânticos da palavra “flagrante” inscrita no texto Constitucional como limite ao exercício do poder; c) criminalizam os movimentos sociais com a desculpa de prevenir “atos de terrorismo”; d) impedem o fornecimento de “pílulas do dia seguinte” para profilaxia de gravidez decorrente de violência sexual e criminalizam médicos que dão informações para mulheres vítimas de violência sexual; e) eliminam o princípio constitucional da gratuidade na educação pública, dentre outras aberrações jurídicas. Conclusão? Avança-se na escala do fascismo.

O fascismo recebeu seu nome na Itália, mas Mussolini nunca esteve sozinho. Diversos movimentos semelhantes surgiram no pós-guerra com a mesma receita que unia voluntarismo, pouca reflexão e violência contra seus inimigos. Hoje, parece que há consenso de que existe(m) fascismo(s) para além do fenômeno italiano ou, ainda, que o fascismo é um amálgama de significantes, um “patrimônio” de teorias, valores, princípios, estratégias e práticas à disposição dos governantes ou de lideranças de ocasião (que podem, por exemplo, ser fabricadas pelos detentores do poder político ou econômico, em especial através dos meios de comunicação de massa), que disseminam o ódio contra o que existe para conquistar o poder e/ou impor suas concepções de mundo.

O fascismo possui inegavelmente uma ideologia: uma ideologia de negação. Nega-se tudo (as diferenças, as qualidades dos opositores, as conquistas históricas, a luta de classes, etc.), principalmente, o conhecimento e, em consequência, o diálogo capaz de superar a ausência de saber.

Leia também:
O que esperar de fascistas?
A febre de páginas nazistas no Facebook

Os fascistas, como já foi dito, talvez não saibam o que querem, mas sabem bem o que não suportam. Não suportam a democracia, entendida como concretização dos direitos fundamentais de todos, como processo de educação para a liberdade e de limites ao exercício do poder. Essa mistura de pouca reflexão (o fascismo, nesse particular, aproxima-se dos fundamentalismos, ambos marcados pela ode à ignorância) e recurso à força (como resposta preferencial para os mais variados problemas sociais) produz reflexos em toda a sociedade.

As práticas fascistas revelam uma desconfiança. O fascista desconfia do conhecimento, tem ódio de quem demonstra saber algo que afronte ou se revele capaz de abalar suas crenças. Ignorância e confusão pautam sua postura na sociedade. O recurso a crenças irracionais ou anti-racionais, a criação de inimigos imaginários (a transformação do “diferente” em inimigo), a confusão entre acusação e julgamento (o acusador – aquele indivíduo que aponta o dedo e atribui responsabilidade – que se transforma em juiz e o juiz que se torna acusador – o inquisidor pós-moderno) são sintomas do fascismo que poderiam ser superados se o sujeito estivesse aberto ao saber, ao diálogo que revela diversos saberes.

Diante dos riscos do fascismo, o desafio é confrontar o fascista com aquilo que para ele é insuportável: o outro. O instrumento? O diálogo, na melhor tradição filosófica atribuída a Sócrates. Talvez esse seja o objetivo do diálogo proposto pela filósofa Marcia Tiburi em seu novo livro, que tive o prazer de apresentar (o prefácio é do sempre excelente Jean Wyllys).

Em “Como conversar com um fascista: reflexões sobre o cotidiano autoritário brasileiro” (Rio de janeiro: Record, 2015), a autora resgata a política como experiência de linguagem, sempre presente na vida em comum, e investe nessa operação, que exige o encontro entre o “eu” e o “tu”, apresentada como fundamental à construção democrática. De fato, a qualidade e a própria existência da forma democrática dependem da abertura ao diálogo, da construção de diálogos genuínos – que não se confundem com monólogos travestidos de diálogos – em que a individualidade e os interesses de cada pessoa não inviabilizam a construção de um projeto comum, de uma comunidade fundada na reciprocidade e no respeito à alteridade.

Ao tratar da personalidade autoritária, dos micro-fascismos do dia-a-dia, do consumismo da linguagem, da transformação de pessoas em objetos, da plastificação das relações, da idiotização de parcela da população, dentre outros fenômenos perceptíveis na sociedade brasileira, Marcia Tiburi sugere uma mudança de atitude do um-para-com-o-outro.

Nos diversos ensaios deste livro, a autora conduz o leitor para um processo de reflexão e descoberta dos valores democráticos, bem como desvela as contradições, os preconceitos e as práticas que caracterizam os movimentos autoritários em plena democracia formal.

Mas, não é só.

Ao propor que a experiência dialógica alcance também os fascistas, aqueles que se recusam a perceber e aceitar o outro em sua totalidade, Marcia Tiburi exerce a arte de resistir. Dialogar com um fascista, e sobre o fascismo, forçar uma relação com um sujeito incapaz de suportar a diferença inerente ao diálogo, é um ato de resistência. Confrontar o fascista, desvelar sua ignorância, fornecer informação/conhecimento, levar esse interlocutor à contradição, desconstruindo suas certezas, forçando-o a admitir que seu conhecimento é limitado, fazem parte do empreendimento ético-político da autora, que faz neste livro uma aposta na potência do diálogo e na difusão do conhecimento como antídoto à tradição autoritária que condiciona o pensamento e a ação em terra brasilis. O leitor, ao final, perceberá que não só o objetivo foi alcançado como também que a autora nos brindou com um texto delicioso, original, profundo sem ser pretensioso. Mais do que recomendada a leitura.

*Rubens Casara é Doutor em Direito, Mestre em Ciências Penais, Juiz de Direito do TJ/RJ, Coordenador de Processo Penal da EMERJ e escreve a Coluna ContraCorrentes, aos sábados, com Giane Alvares, Marcelo Semer, Marcio Sotelo Felippe e Patrick Mariano.

Acompanhe Pragmatismo Político no Twitter e no Facebook.

Recomendados para você

Comentários

  1. Pedro Accioli Postado em 05/Feb/2016 às 16:13

    Me desculpe, mas com fascista não tem conversa! Não dá!

    • Wladimir Teixeira Postado em 06/Feb/2016 às 11:31

      É a pura verdade, se eu não puder evitar o encontro com fascistas, o que faço é "pegar meu banquinho e sair de mansinho" - boçalidade fede.

      • Pedro Accioli Postado em 10/Feb/2016 às 09:51

        É isso mesmo cara! Fascismo virou sinônimo de intolerância e propagação de preconceitos nos dias de hoje!

  2. João Paulo Postado em 05/Feb/2016 às 17:56

    Uma coisa é a doutrina fascista, socialista e liberal. As formas como são postas no plano fático é outra história. Todas elas são lindas no papel.Interessante como reduzem a ideologia fascista a "pré-conceitos", tal qual os coxinhas o fazem com o socialismo e o comunismo.

    • João Paulo Postado em 06/Feb/2016 às 02:05

      Obs: As formas são

  3. Eduardo Ribeiro Postado em 05/Feb/2016 às 20:11

    Parafraseando um grande pai da esquerda brasileira, com a extrema direita e com fascistas, nenhum diálogo, nenhuma conversa. Luta.

    • luis Postado em 05/Feb/2016 às 23:40

      Zambininha?

      • Eduardo Ribeiro Postado em 06/Feb/2016 às 00:32

        Who? Só falo de quem eu conheço, menino.

      • luis Postado em 06/Feb/2016 às 09:03

        Achei que você conhecia a Zambininha, as ideias dela são bem parecidas com as suas :)

  4. Carlos Postado em 06/Feb/2016 às 03:50

    https://www.facebook.com/Verdade-Oculta-2-1436609613228106/ Essa é a juventude de hoje a mais podre de todas as gerações, graças a vcs em parte de esquerda.

    • Eduardo Ribeiro Postado em 06/Feb/2016 às 08:47

      Disserte a respeito por gentileza. Mostre por favor a relação do Marxismo e dos marxistas com isso aí. Ilumine-nos com seu rico saber.

  5. gustavo0 Postado em 06/Feb/2016 às 16:52

    Legal, li o texto. Tudo muito bom, tudo muito bem, mas a minha dúvida é: Qual organização popular, movimento ou congênere pode, aplicando se a lógica de Márcia Tiburi, ser considerado uma manifestação fascista? Consegui captar apenas a suposta preocupação do autor, Doutor Rubens Casara, com a integridade das instituições democráticas. Na prática, mais um clamor por subserviência por parte da justiça, e piedade para com um partido que não foi, nem está sendo demonizado, se demonizou.

  6. Ingrid Postado em 13/Feb/2016 às 09:38

    O desafio de conversar com um extremista,independente de que lado ele esteja.

    • eu daqui Postado em 15/Feb/2016 às 10:48

      Comentário perfeito.

  7. eu daqui Postado em 15/Feb/2016 às 10:48

    E pq conversam e ainda contestam e também processam o facista? Deixa ele falando sozinho..........

  8. Quando conversei com um nazista Postado em 27/Oct/2016 às 09:13

    […] visceral: dois perfeitos idiotas A República dos Psicopatas (Alemanha, 1933 – Brasil, 2016) O desafio de conversar com um fascista Como nasceu o idiota fascista brasileiro Fascismo: usos e […]