Redação Pragmatismo
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História 28/Feb/2016 às 09:00
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Mein Kampf, obra de Hitler, deve ser proibida?

No mês passado, o Ministério Público do Rio de Janeiro pediu a proibição do lançamento nacional de Mein Kampf, obra que começou a ser escrita por Hitler enquanto esteve na prisão. Parece consenso que a intenção do MPE não é ruim. O objetivo é impedir a proliferação de ideias nazistas em pleno século XXI – uma motivação bastante plausível. E é bem por isso que a ação representa um imenso equívoco

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Murilo Cleto, Revista Fórum

Na sua Introdução a uma vida não-fascista, que prefacia O Anti-Édipo de Deleuze e Guattari, o filósofo Michel Foucault lista uma série de princípios para, segundo ele, uma “arte de viver contrária a todas as formas de fascismo”. “Não caia de amores pelo poder” é um deles. De acordo com Foucault, não se trata apenas de eliminar o fascismo histórico de Hitler e Mussolini, mas aquele “que está em todos nós, que ronda nossos espíritos e nossas condutas cotidianas, o fascismo que nos faz gostar do poder, desejar essa coisa mesma que nos domina e explora”.

A preocupação de Foucault tem fundamento. De todas as doutrinas políticas forjadas pela contemporaneidade, o fascismo é a menos política de todas. Quer dizer, antes de ser político, o fascismo foi um movimento sanitário e até artístico. Em Arquitetura da Destruição, o cineasta Peter Cohen demonstra como o discurso cientificista do nazismo construiu uma narrativa que soube cruzar velhos preconceitos com novas teorias estéticas. E vez ou outra ele está às portas como solução para as mais diferentes crises que regimes politicamente liberais têm enfrentado desde o fim da Segunda Guerra. Mas não é preciso ir muito longe: o apreço pelo poder e pela “hierarquização piramidal”, como sustenta, nos faz verdadeiros fascistas em potencial. No limiar do século XX, Freud já dizia que democracias são exceção – e não regra – na história das civilizações.

No dia 29 de janeiro, o Ministério Público do Rio de Janeiro abriu uma ação cautelar que pedia a proibição do lançamento nacional Mein Kampf, obra que começou a ser escrita por Adolf Hitler enquanto esteve na prisão, antes de tornar-se o fürer que liderou um dos mais brutais genocídios de toda história. Com os 70 anos de sua morte, o título entrou em domínio público e passou a ser cobiçado pelas editoras. A decisão judicial foi favorável ao MPE-RJ e ainda estipulou multa de R$ 5 mil para quem desrespeitá-la.

Parece consenso que a intenção do MPE não é ruim. O objetivo é impedir a proliferação de ideias nazistas em pleno século XXI – uma motivação bastante plausível. E é bem por isso que a ação representa um imenso equívoco. Em primeiro lugar, porque a obra pode ser facilmente encontrada online e a plataforma nas livrarias seria só mais uma delas. Em segundo, porque a decisão abre um precedente terrível sobre outros autores frequentemente – e nem sempre com razão – associados à barbárie. Com a ascensão de uma vigilância cada vez mais acirrada em torno de uma ideia bem ruim de “ideologia”, não seria de se estranhar caso autores como Gramsci e Beauvoir também tivessem suas obras censuradas por seguidores do movimento Escola Sem Partido e afins. Em terceiro, porque a proibição não produziria outro efeito senão o aumento da procura da obra, alimentando ainda mais teorias conspiratórias revisionistas que transformam nazistas em vítimas.

Em quarto lugar, e talvez mais importante, é preciso considerar que um pressuposto nocivo circunda a experiência totalitária nazifascista do século XX: o de que ela foi uma espécie de acidente na história do mundo. E não foi. Hitler costuma ser pintado como uma figura monstruosa, louca, até esquizofrênica, para limpar a barra da humanidade neste lamentável capítulo de sua trajetória. E poucas coisas são tão nocivas para a extinção do fascismo, inclusive deste que Foucault alertou estar em todos nós, do que este isolamento, historicamente desonesto e politicamente irresponsável.

Talvez uma das cenas mais chocantes de A Queda, longa metragem alemão sobre as últimas horas de Hitler no apagar das luzes do conflito contra os Aliados, seja quando o casal Goebbels decide tirar a vida dos próprios filhos com morfina e cianureto porque eram “bons demais” para habitar um mundo com o nazismo derrotado. A sequência atordoa espectadores não por causa da frieza da mãe, que é quem os envenena, mas justamente pelo poder que aquela convicção exerceu diante de uma ação tão difícil, mesmo para supremacistas. Por essas e por outras, A Queda é um filme necessário para desconstruir a embalagem desumana com que nazistas costumam ser envoltos e apresentados aos contemporâneos.

Leia também:
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Hitler e o nazismo estão posicionados historicamente e é desta forma que precisam ser inscritos, inclusive – e sobretudo – se se quer que sejam superados, como, ao que tudo indica, espera a justiça do Rio de Janeiro. Para Adorno, a primeira e mais importante função da Educação é impedir que Auschwitz se repita. Não é proibindo Mein Kampf que isso vai acontecer.

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Comentários

  1. John Jahnes Postado em 28/Feb/2016 às 23:02

    SE OS LIVROS DO FHC CONTINUAM SENDO PUBLICADOS E VENDIDOS E NINGUEM RECLAMOU, PORQUE PROIBIR ESSA OUTRA BOBAGEM DE OUTRO IGUALMENTE PSICOPATA. LIBERDADE, LIBERDADE, BATE AS ASAS SOBRE NOS. ATÉ OS PSICOPATAS PODE SER LIDOS , OUVIDOS E ATÉ DEPENAREM O BRASIL QUANDO ELEITOS PRESIDENTE .

    • Iranice Postado em 29/Feb/2016 às 09:34

      Perfeito!!😉

  2. Marlos Postado em 29/Feb/2016 às 08:29

    Eu acho que tem que liberar e inclusive estimular a leitura, para ver se acaba com essa mística ridícula de 'Hitler era um gênio, só que louco'. Mein Kampf é uma litetatura fraquíssima, e deixa flagrantemente por terra a tal 'genialidade' de Hitler.

  3. George Postado em 29/Feb/2016 às 08:40

    Por mim, não faz falta se for proibido ou não. O que deve ser combatido com vigor é o nazi-fascismo que, por incrível que pareça, existe no Brasil.

    • eu daqui Postado em 29/Feb/2016 às 09:16

      A mim não parece nada incrível que haja nazifacismo neste país haja visto o enorme numero de viralatistas, vitimopatas, vingancistas e ofendidos de nascença que "vivem" aqui. O que as pessoas esperam que resulte deste tipo de sentir e reagir?: heroismo romantico?

      • Antonio Palhares Postado em 01/Mar/2016 às 11:20

        Concordo contigo cara.

      • Jonas Schlesinger Postado em 01/Mar/2016 às 13:53

        kkkk ela é muié

  4. Rafael Postado em 29/Feb/2016 às 09:06

    Sou contra a Proibição

  5. Moacir Postado em 29/Feb/2016 às 10:16

    O nazi-fascismo não foi obra de um só homem. Nem Hitler se tornou o Füher sozinho. Primeiro aconteceu uma ampla degradação da Civilização Européia. Uma disputa irracional que poderia ter acabado com a atual Civilização se não fosse o equívoco de enfrentar a União Soviética antes de acabar de derrotar a Europa Ocidental. Se bem que grande parte do que pretendiam acabou realizando-se com o Imperialismo dos EEUUAA.

  6. Antonio Palhares Postado em 29/Feb/2016 às 10:32

    Proibir por quê? Se este nefasto tivesse ganhado a guerra estaria sendo idolatrado.

  7. Eduardo Ribeiro Postado em 29/Feb/2016 às 10:53

    Proibir livro na era da internet parece patetice. E no mundo ideal nenhum livro seria proibido. Todas as pessoas seriam alfabetizadas, teriam criticidade e poder de análise, etc, etc, e nesse mundo ideal, a leitura de MK seria estimulado, pois trata-se do jeito mais eficiente de atestar o quão patético era Hitler e o Nazismo. Mas não devemos subestimar a capacidade de prospecção que obras assim possuem, especialmente no mundo com a geração que é ao mesmo tempo a que mais tem informação ao alcance da mão e, contraditoriamente, a mais debilóide da história da humanidade. Nada mais natural do que proibir sim, a circulação de um livro que é não menos do que: uma apologia clara e aberta ao nazismo, ao racismo, preconceito, xenofobia, e ao discurso de supremacia racial. Porque queiram ou não, É EFETIVAMENTE COMO APOLOGIA que essa obra é vendida/consumida, não tem porra nenhuma de ""comprar como documento histórico valioso pra estudar segunda guerra blablabla"", isso é balela. Essa bosta adotada e distribuida livremente por bolsonaretes da vida evidentemente que é nocivo. Achar que qualquer um que ler vai perceber que MK é uma merda e passar a ridicularizar Hitler e o Nazismo após a leitura é ou muita inocência ou muita falta de contato com a realidade. Estamos falando de gente que tem Bolsonaro e Olavo de Carvalho como messias, profetas. Alguém acha que os livros desse ser bisonho (astrólogo/terra centro do universo) devem ser lidos e adotados nas escolas tambem? O Brasil infelizmente não tem AMADURECIMENTO INTELECTUAL para ler "Mein Kampf" de maneira crítica.

  8. DANIEL Postado em 29/Feb/2016 às 13:18

    Hitler agente do SIONISMO.

  9. sergio ribeiro Postado em 29/Feb/2016 às 16:48

    Uma editora chegou a lançar a obra comentada, contextualizando o discurso e mostrando os diversos erros factuais e históricos do livro. É uma boa saída, mas ainda acho que melhor é liberá-lo e mostrar as diversas falhas do discurso dele.

  10. Renato Postado em 10/Mar/2016 às 11:57

    Não sei porque demonizam tanto o nazismo. Pra nós aqui não faz muita diferença, mas foi graças ao nazismo que o mundo pôde se livrar das garras da Europa Ocidental. Foi graças ao nazismo, por ter ferrado países como a França e o Reino Unido, que hoje temos Argélia, Vietnã e Índia independentes, entre outros. O nazismo ajudou a acabar com a era de hegemonia racista da Europa Ocidental e mudou os polos do mundo para os EUA e a URSS.

  11. Zeca Rodrigues Postado em 28/Feb/2016 às 16:14

    Se o nível das matérias aqui fosse tão inferior assim como vc insinua, talvez não estivéssemos aqui lendo essa, né?

  12. Jonas Schlesinger Postado em 28/Feb/2016 às 22:41

    Onde tem o botão pra dar joinha no teu comentário? Até parece que proibindo a circulação do livro vai proibir uma pessoa de ler. Já ouviram falar do efeito inverso?

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