Redação Pragmatismo
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Desenvolvimento Brasileiro 20/Jan/2016 às 12:56
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‘A empregada tem carro e anda de avião. E eu estudei pra quê?’

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Matheus Pichonelli, Pensador Anônimo

Se você, a exemplo dos professores que debocharam de passageiro “mal-vestido” no aeroporto, já se fez esta pergunta, parabéns: você não aprendeu nada

O condômino é, antes de tudo, um especialista no tempo. Quando se encontra com seus pares, desanda a falar do calor, da seca, da chuva, do ano que passou voando e da semana que parece não ter fim. À primeira vista, é um sujeito civilizado e cordato em sua batalha contra os segundos insuportáveis de uma viagem sem assunto no elevador. Mas tente levantar qualquer questão que não seja a temperatura e você entende o que moveu todas as guerras de todas as sociedades em todos os períodos históricos. Experimente. Reúna dois ou mais condôminos diante de uma mesma questão e faça o teste. Pode ser sobre um vazamento. Uma goteira. Uma reforma inesperada. Uma festa. E sua reunião de condomínio será a prova de que a humanidade não deu certo.

Dia desses, um amigo voltou desolado de uma reunião do gênero e resolveu desabafar no Facebook: “Ontem, na assembléia de condomínio, tinha gente ‘revoltada’ porque a lavadeira comprou um carro. ‘Ganha muito’ e ‘pra quê eu fiz faculdade’ foram alguns dos comentários. Um dos condôminos queria proibir que ela estacionasse o carro dentro do prédio, mesmo informado que a funcionária paga aluguel da vaga a um dos proprietários”.

A cena parecia saída do filme O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, no qual a demissão de um veterano porteiro é discutida em uma espécie de “paredão” organizado pelos condôminos. No caso do prédio do meu amigo, a moça havia se transformado na peça central de um esforço fiscal. Seu carro-ostentação era a prova de que havia margem para cortar custos pela folha de pagamento, a começar por seu emprego. A ideia era baratear a taxa de condomínio em 20 reais por apartamento.

Sem que se perceba, reuniões como esta dizem mais sobre nossa tragédia humana do que se imagina. A do Brasil é enraizada, incolor e ofuscada por um senso comum segundo o qual tudo o que acontece de ruim no mundo está em Brasília, em seus políticos, em seus acordos e seus arranjos. Sentados neste discurso, de que a fonte do mal é sempre a figura distante, quase desmaterializada, reproduzimos uma indigência humana e moral da qual fazemos parte e nem nos damos conta.

Dias atrás, outro amigo, nascido na Colômbia, me contava um fato que lhe chamava a atenção ao chegar ao Brasil. Aqui, dizia ele, as pessoas fazem festa pelo fato de entrarem em uma faculdade. O que seria o começo da caminhada, em condições normais de pressão e temperatura, é tratado muitas vezes como fim da linha pela cultura local da distinção. O ritual de passagem, da festa dos bixos aos carros presenteados como prêmios aos filhos campeões, há uma mensagem quase cifrada: “você conseguiu: venceu a corrida principal, o funil social chamado vestibular, e não tem mais nada a provar para ninguém. Pode morrer em paz”.

Não importa se, muitas e tantas vezes, o curso é ruim. Se o professor é picareta. Se não há critério pedagógico. Se não é preciso ler duas linhas de texto para passar na prova. Ou se a prova é mera formalidade.

O sujeito tem motivos para comemorar quando entra em uma faculdade no Brasil porque, com um diploma debaixo do braço, passará automaticamente a pertencer a uma casta superior. Uma casta com privilégios inclusive se for preso. Por isso comemora, mesmo que saia do curso com a mesma bagagem que entrou e com a mesma condição que nasceu, a de indigente intelectual, insensível socialmente, sem uma visão minimamente crítica ou sofisticada sobre a sua realidade e seus conflitos. É por isso que existe tanto babeta com ensino superior e especialização. Tanto médico que não sabe operar. Tanto advogado que não sabe escrever. Tanto psicólogo que não conhece Freud. Tanto jornalista que não lê jornal.

Função social? Vocação? Autoconhecimento? Extensão? Responsabilidade sobre o meio? Conta outra. Com raras e honrosas exceções, o ensino superior no Brasil cumpre uma função social invisível: garantir um selo de distinção.

Por isso comemora-se também ao sair da faculdade. Já vi, por exemplo, coordenador de curso gritar, em dia de formatura, como líder de torcida em dia de jogo: “vocês, formandos, são privilegiados. Venceram na vida. Fazem parte de uma parcela minoritária e privilegiada da população”; em tempo: a formatura era de um curso de odontologia, e ninguém ali sequer levantou a possibilidade de que a batalha só seria vencida quando deixássemos de ser um país em que ter dente era (e é), por si, um privilégio.

Por trás desse discurso está uma lógica perversa de dominação. Uma lógica que permite colocar os trabalhadores braçais em seu devido lugar. Por aqui, não nos satisfazemos em contratar serviços que não queremos fazer, como lavar, passar, enxugar o chão, lavar a privada, pintar as unhas ou trocar a fralda e dar banho em nossos filhos: aproveitamos até a última ponta o gosto de dizer “estou te pagando e enquanto estou pagando eu mando e você obedece”. Para que chamar a atenção do garçom com discrição se eu posso fazer um escarcéu se pedi batata-fria e ele me entregou mandioca? Ao lembrá-lo de que é ele quem serve, me lembro, e lembro a todos, que estudei e trabalhei para sentar em uma mesa de restaurante e, portanto, MEREÇO ser servido. Não é só uma prestação de serviço: é um teatro sobre posições de domínio. Pobre o país cujo diploma serve, na maioria dos casos, para corroborar estas posições.

Por isso o discurso ouvido por meu amigo em seu condomínio é ainda uma praga: a praga da ignorância instruída. Por isso as pessoas se incomodam quando a lavadeira, ou o porteiro, ou o garçom, “invade” espaços antes cativos. Como uma vaga na garagem de prédio. Ou a universidade. Ou os aeroportos.

Neste caldo cultural, nada pode ser mais sintomático da nossa falência do que o episódio da professora que postou fotos de um “popular” no saguão do aeroporto e lançou no Facebook: “Viramos uma rodoviária? Cadê o glamour?”. (Sim, porque voar, no Brasil, também é, ou era, mais do que o ato de se deslocar ao ar de um local a outro: é lembrar os que rastejam por rodovias quem pode e quem não pode pagar para andar de avião).

empregada aeroporto porteiro carro social

Esses exemplos mostram que, por aqui, pobre pode até ocupar espaços cativos da elite (não sem nossos protestos), mas nosso diploma e nosso senso de distinção nos autorizam a galhofa: “lembre-se, você não é um de nós”. Triste que este discurso tenha sido absorvido por quem deveria ter como missão a detonação, pela base e pela educação, dos resquícios de uma tragédia histórica construída com o caldo da ignorância, do privilégio e da exclusão.

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Comentários

  1. Rogerio Postado em 20/Jan/2016 às 13:08

    Vai acostumando madame. Pobre agora t vez e voz.

    • Ana Amelia Postado em 22/Jan/2016 às 11:41

      Bom, a CPMF não consegue ferrar os pobres. Ela bem mais nociva aos ricos

  2. Zeca Rodrigues Postado em 20/Jan/2016 às 15:02

    Mais uma vez essa forma de pensar é exposta e certas pessoas se mostram mais preconceituosas do que afirmam ser. Tá mais do que na hora de discutirmos tudo isso, repensarmos conceitos e preconceitos, baixarmos a guarda. Não será com essa postura que iremos evoluir como sociedade.

  3. Guilhermo Postado em 20/Jan/2016 às 16:08

    Esse texto me lembrou de... Maria do Bairro. Sério agora: É bom que a desigualdade no país está, ao menos um pouco, se desintegrando. É um paço importante para o desenvolvimento.

  4. Guilhermo Postado em 20/Jan/2016 às 16:09

    passo* importante. Desculpem-me pelo "paço".Meu português está se desintegrando como um picolé de limão no calor do Rio de Janeiro. kkkkk

  5. felipe Postado em 20/Jan/2016 às 16:24

    De novo esse papo de aeroporto e faculdade? A coisa mais comum é pobre, rico, classe média viajar e estudar, ainda mais agora com essa crise monstruosa as passagens aéreas estão muito baratas, a internet ajudou muito com a queda do preço de ambas, fora a abertura econômica do país que começou com o plano real e infelizmente parou no Lula (pois a Dima nada fez), agora falar de política esta difícil, desemprego disparando, taxa de juros altíssima, dólar, e a Petrobras em ruínas com o preço da ação valendo um litro de gasolina realmente daqui a pouco esses lugares vão voltar a ficar restritos aos mais ricos.

    • Fernando Postado em 21/Jan/2016 às 13:21

      Não podemos deixar de agradecer, a todos aqueles que colaboraram e se empenharam para que a crise, em nosso país, atingisse os níveis atuais. O que para muitos, é motivo de alegria e satisfação, notadamente, para a mídia e a direita entreguista.

      • felipe Postado em 21/Jan/2016 às 17:49

        Claro, mas não podemos esquecer quem é o principal responsável por ela e quem até hoje tenta amenizar uma crise que não para de crescer e esta fugindo do controle, infelizmente.

  6. Igor Postado em 20/Jan/2016 às 17:08

    Excelente texto.

  7. Renan Postado em 20/Jan/2016 às 17:18

    Pegar 1 caso e generalizar? Fala sério!!!

  8. Jonas Schlesinger Postado em 20/Jan/2016 às 17:19

    Hehehehe e essa madame queria que o cara se vestisse como o Brad Pitt ou o príncipe de Gales? Fala sério, aquele homem tá pouco se lixando pra isso. Tá com uma camisetinha, bermudinha, sapatênis e aquela barriguinha de chop... Acorda, filha, viajar de avião hoje é igual pegar um ônibus circular pra ir bem ali na esquina. Não precisa se arrumar como se fosse evento do Oscar...

    • Carlos André Postado em 24/Jan/2016 às 13:22

      Concordo em parte...mesmo pq o preço da passagem aerea no Brasil continua bem cara. Mas o certo é que a fala da tal professora depôe mais contra ela do que contra o sujeito com vestimenta casual. Acho que era a primeira vez que a tal professora estava viajando de avião...e o carinha já tava acostumado, e de saco cheio dessa rotina...tanto que pra ela era um BAITA acontecimento viajar de avião....que mereceria colocar roupa bonita para tal...AFFFF.

  9. Eduardo Ribeiro Postado em 20/Jan/2016 às 17:49

    Olha essa vergonha do aeroporto...que tragédia, a mulher busca glamour em viagem de avião e tem nojo de povo....fotografando um ser humano que está ali pra viajar, descansar a cabeça uma semaninha, de repente com familia e filhos....fotografando como se fosse um animal exótico, um ET, um acontecimento fora da normalidade, "meu deus, tem um pobre aqui, seguranças"...que vida miserável, que existência vazia e triste, que alma sebosa e amargurada, que só esboça um sorriso diante de um cenário de desigualdade e miséria....deve ser triste ser ela, depender da desgraça alheia, da desgraça de familias brasileiras, para ser feliz...se ao menos ela fosse voz isolada, seria menos ruim. Mas isso aí é muitissimo mais COMUM do que seria desejável. O elitismo é um dos cânceres do Brasil, dos mais enraizados e dos mais agressivos.

    • Rogerio Postado em 21/Jan/2016 às 05:36

      Viajar de avião virou igual celular. Todo mundo tem. Um dia as madame (sinhazinha) vão reclamar de pobre viajando pra Marte ♂. A lua então vai parecer favela. O neto da Dilma, se puxar a avó e virar presidente, vai fazer o minha estação espacial minha vida em Saturno. Vai ter pobre até no cinturão de asteróides. O mais médicos vai trazer médicos alienígenas 👽 Os ricos metidos que reclamar que vão pra plutão que os pariu.

      • Fernando Postado em 21/Jan/2016 às 13:27

        Muito bom, Rogério! rsrsrsrsrsr

    • Rogerio Postado em 21/Jan/2016 às 05:36

      Viajar de avião virou igual celular. Todo mundo tem. Um dia as madame (sinhazinha) vão reclamar de pobre viajando pra Marte ♂. A lua então vai parecer favela. O neto da Dilma, se puxar a avó e virar presidente, vai fazer o minha estação espacial minha vida em Saturno. Vai ter pobre até no cinturão de asteróides. O mais médicos vai trazer médicos alienígenas 👽 Os ricos metidos que reclamar que vão pra plutão que os pariu.

      • Guilhermo Postado em 21/Jan/2016 às 08:58

        Espero que acabe também o preconceito nas abduções alienígenas.

  10. Line Postado em 20/Jan/2016 às 23:20

    O que seria um curso ruim? Um curso com baixa concorrência e menos status?